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Ataque por cá? "SIS tratou informação de forma deficiente e alarmista"

Dias depois do atentado em Barcelona, Portugal receou estar na mira da ameaça terrorista. Um medo que não se veio a confirmar e que terá sido o resultado de um "deficiente" tratamento da informação veiculada. Quem o diz é o entrevistado de hoje do Vozes ao Minuto, Alexandre Guerreiro.

Ataque por cá? "SIS tratou informação de forma deficiente e alarmista"
Notícias ao Minuto

19/09/17 por Andrea Pinto

País Alexandre Guerreiro

Foi, durante sete anos, oficial do Serviço de Informações Estratégicas de Defesa (SIED), período durante o qual ganhou interesse pelo tema do terrorismo. Considerando que o assunto não é, muitas vezes, esclarecido da melhor forma, Alexandre Guerreiro decidiu lançar a obra ‘Islão - O Estado Islâmico e os Refugiados’.

Na sequência do ataque em Barcelona e do suposto alerta de atentado terrorista em Lisboa, o autor concedeu uma entrevista ao Notícias ao Minuto, em que esclarece o que se passou naquele dia, o que falhou e como é que esta informação chegou à população. E embora considere que Portugal não seja o principal alvo do Daesh, refere que já estivemos mais longe de o ser.

Lançou no ano passado a obra 'Islão - O Estado Islâmico e os Refugiados'. Em que consiste este trabalho e o que o motivou?

O que motivou a produção e a escrita desse livro foi ter sido requisitada por várias vezes, não só por escolas como por outras pessoas, uma obra que relatasse e falasse de temas como o terrorismo, direitos humanos e até refugiados, mas numa linguagem mais simples do que aqueles livros que estão no mercado e que têm uma linguagem muito técnica e às vezes agressiva e difícil de compreender, e que não chegam ao leitor e ao cidadão tradicional. E assim surgiu a ideia de criar um livro de forma totalmente sintética, que não se tornasse numa tese de doutoramento de 400 páginas, e sim algo que de forma simples falasse de problemas que são atuais e que não têm sido muito bem debatidos e esclarecidos na nossa sociedade atual. Importa esclarecer alguns mitos também com algum esclarecimento relativamente ao Islão propriamente dito.

Diz, na sinopse dessa mesma obra, que as pessoas estão a criar defesas perante um fenómeno, neste caso uma ameaça, que desconhecem. O que é que as pessoas não sabem?

Desde logo, relativamente aos refugiados, a forma e a confusão com que muitos tentam discutir estes assuntos das questões migratórias, confundindo refugiados com migrantes económicos e outras comunidades de migrantes. Logo aí há muita confusão. As pessoas têm tendência a chamar de refugiados a todos os estrangeiros que dão entrada num determinado território desde que sejam oriundos de um local de conflito, o que não corresponde totalmente à verdade. E importa esclarecer quais são as condições para que alguém seja considerado refugiado.

Depois, outras questões relacionadas com o Islão. Muitas pessoas ainda acham que o Islão é uma religião associada à guerra e ao conflito. E se forem comparar, por exemplo, com a religião cristã, acaba por ter exatamente os mesmos termos. Os livros sagrados falam de conflito, guerra, de passagens muito polémicas mas acima de tudo, a religião tenta espalhar uma mensagem de união na sociedade e até de alguma paz embora não o faça sempre da forma mais correta.

Depois há a própria questão do que é o terrorismo, porque também há tendência a qualificar como terrorismo uma série de situações que não se enquadram no que é considerado terrorismo. E em relação ao Estado Islâmico importa esclarecer o que é, como surgiu e de que forma se separa e distingue da Al-Qaeda.

Os refugiados não estão ligados à questão do terrorismo nem ao terrorismo de matriz islâmica Que relação faz entre o Islão, o terrorismo e os refugiados?

Muitos dos refugiados que vamos vendo a dar entrada em território europeu são de facto muçulmanos. Essa ligação é evidente. Agora como é que depois isso se concretiza para o terrorismo, conseguir relacionar os três é raríssimo. Até hoje, tivemos apenas uma situação sobejamente conhecida em que isso realmente aconteceu e, curiosamente, foi da responsabilidade de Portugal. Portugal emitiu um visto e estatuto de refugiado a um marroquino que acabou por ser detido em França por estar relacionado com atividades terroristas. Isto é a exceção. Os refugiados não estão ligados à questão do terrorismo nem ao terrorismo de matriz islâmica.

A sociedade vive demasiado preocupada com estes fenómenos de forma errada ou desnecessária?

Julgo que muita gente é contra os refugiados desde logo porque, como disse, não percebeu o que distingue um refugiado de um migrante ou de qualquer outro caso de entrada de um estrangeiro. Um refugiado é uma pessoa que precisa de proteção e que está a sair do seu país porque precisa, porque está a ser forçada a isso por estar numa zona de conflito ou a ser perseguida pelo seu governo ou até por outras entidades de que o governo não a consegue proteger. É o contrário dos migrantes e é a isso que as pessoas precisam de estar atentas. Que tipo de migrantes é que estamos a aceitar? É feito exatamente o reporte e a confirmação das autoridades de que essas pessoas têm condições para estar no nosso país? A questão do Islão não é necessariamente um fator importante. Importante é perceber se as pessoas vêm de facto para trabalhar, viver, em que área pretendem desenvolver a sua atividade e se têm um histórico comportamental no país de origem que pode permitir a sua entrada. 

Relativamente à sociedade, a comunicação social deveria ser o principal veículo para esclarecer essas questões e muitas vezes é o primeiro a lançar a confusão. Isso é o suficiente para lançar a preocupação nas pessoas que não sabem qual é a ideia que devem ter sobre alguns fenómenos.

Os órgãos de comunicação social funcionam mais como desinformadores do que informadores?

Não concordo totalmente com isso, até porque a desinformação que existe não é consciente. Não estamos a falar de uma intenção de alguns órgãos ligados a movimentos políticos tanto de Esquerda como de Direita e que intencionalmente criam uma tribalização da sociedade e contribuem para o doutrinamento de algumas mentalidades. contra ou a favor de determinadas questões. A comunicação não funciona dessa forma intencional.

Aquilo que acontece é que muitas vezes, o que a comunicação social não faz é a aprofundamento das notícias que difunde. Ou se limita a traduzir ou não existe o rigor na atribuição dos rótulos, porque é diferente chamar refugiado a uma pessoa do que chamar-lhe migrante. Um migrante com certeza que tem condições e motivações completamente diferentes de um refugiado para entrar num país. E aqui, os órgãos de comunicação social têm essa responsabilidade acrescida do uso dos termos corretos e de explicar os fenómenos.

Não podemos ignorar uma realidade com a importância e o impacto que tem o terrorismo tentando evitar falar dele

É da opinião de que quanto mais atenção se dá a estes assuntos, sobretudo ao terrorismo, mais se está a ajudar a promover e a incentivar à sua disseminação?

Estamos a falar de generalidades diferentes. A responsabilidade clara que a comunicação social tem é de se sentir pressionada a avançar com informação que seja inédita e que ainda não tenha sido divulgada. E isso às vezes leva a algumas confusões na forma como a informação vem cá para fora, seja em relação aos responsáveis por um atentado seja à forma como o atentado aconteceu. E isto aumenta a especulação.

Outra realidade é a necessidade de informar. Recordo que o direito de informação é um direito fundamental de toda a gente. Não podemos ignorar uma realidade com a importância e o impacto que tem o terrorismo tentando evitar falar dele. Pelo contrário. Existe esse dever dos órgãos de comunicação social que até agora tem sido tratado de forma bastante consciente e importante para ajudar as pessoas para que tenham conhecimento do que realmente se passa porque o terrorismo tem sido um fenómeno que se tem universalizado. E se as pessoas julgam que isto é apenas um tipo de criminalidade como qualquer outro, estão com uma ideia errada do fenómeno.

Recuso aquelas teorias que dizem que não devemos dar importância aos jihadistas porque isto é alimentar a ideia deles. Isto não apoia a criminalidade. Isto ajuda a sociedade a compreender o que de facto está por trás do crime de terrorismo. Quais são as motivações? É importante as pessoas saberem. Há ligações entre uns atentados e outros? O que é que esteve por trás e na origem daquele ataque? Tudo isto é fundamental. O que se sugere? Que não se dê atenção aos crimes de violência doméstica? Que não falemos nele para as pessoas não o cometerem? Isso está fora de hipótese.

Que soluções apresenta para se combater o terrorismo?

Uma das primeiras que tenho defendido, e que subscrevo no livro, é a revisão das agendas externas dos países, em particular dos países europeus e ainda mais aqueles que integram alianças militares como a NATO. Se repararmos, onde é que estão concentrados e de onde são originários os grupos terroristas como o Daesh? É de países que foram alvo de intervenções externas, e muitas vezes alimentadas pelos Estados Unidos e pela NATO. Parece um pouco um discurso de Esquerda contra as alianças militares, mas não é essa a mensagem que quero passar até porque não me revejo nessas ideologias. É importante existirem alianças militares defensivas, o problema é quando essas alianças acabam por assumir uma locação mais ofensiva justificando-a com a necessidade de se defenderem. A partir daí é que temos subvertida toda a génese e natureza das alianças militares porque acabam por interferir em países de modelos políticos e socialmente instáveis e a partir dali criando e instituindo uma anarquia, como aconteceu na Líbia, Tunísia, Síria e no Iraque. Estamos exatamente a dar força a agendas nacionalistas que querem combater o que entendem como sendo o invasor. E não sou o único que o diz. Gosto de remeter para a obra de Malala Yousafzai, que foi prémio Nobel, e em que ela justifica exatamente o crescimento dos talibãs no Paquistão com intervenções externas no país. Isto é fundamental.

Numa primeira linha é preciso rever as agendas externas tanto da União Europeia como do Ocidente em geral. Depois, numa segunda linha, os países europeus têm de rever as suas políticas migratórias porque não é responsável fechar a porta a todos os que são estrangeiros só porque vêm de determinados países, mas também não é muito menos responsável defender a política de manter as portas abertas para toda a gente entrar porque essa entrada massiva e esse fluxo de migrantes acaba por desequilibrar a organização e estabilidade social desses países. Acaba por afetar o mercado de trabalho, condições económicas, e a qualidade de vida das pessoas que já lá residem.

Lisboa foi, alegadamente, alvo de um alerta terrorista. Até que ponto este alerta foi real?

Já tive acesso à fonte e já pude esclarecer esta história e posso elucidar como tudo aconteceu até àquele dia. Aquilo que acontece num serviço de informações, e eu sei porque lá trabalhei e cruzei-me com este tipo de informação, é: quando existe algum atentado ou um ato que tem algum peso e influência para a agenda global, é natural que serviços congéneres tentem lançar alguns avisos aos Estados-membros no sentido de os alertar para a possibilidade de haver uma réplica em algum outro país. Mas isto é completamente abstrato. O que se diz a um serviço congénere é que aconteceu um atentado e é possível acontecer noutras áreas da Europa, inclusive Portugal. E depois diz-se: “os possíveis alvos são: embaixadas, grandes fluxos de concentração de pessoas...”. Aquilo que aconteceu foi que um serviço de informação português difundiu informação que não foi tratada e de uma forma relativamente alarmista para os outros parceiros. Quando houve a famosa reunião antes daquela difusão das mensagens, a própria UCAT  (Unidade de Coordenação Antiterrorismo) – e os seus membros como a PSP, PJ e outras forças, perguntaram: “vocês dizem que vai haver um atentado, digam quando e com quem e de que forma, porque temos de tomar medidas”.

Os serviços de informação disseram que não podiam dizer mais do que isso e foi o suficiente para gerar um clima de desconfiança entre todos os que estiveram presentes na reunião e ao mesmo tempo lançar alarmismo porque a PSP não quis ser responsável por um atentado que ocorresse por não ter tomado medidas, tal como as restantes forças de segurança.

Em termos concretos não existe nenhuma ameaça direta a Portugal, existe uma ameaça abstrata pelo facto de Portugal estar inserido na Península Ibérica, ou seja, no âmbito do contexto do Al-Andalus e pelo facto de estar inserido no solo europeu, mas concretamente não há ameaça direta, ainda, a Portugal.

E como é que essa mensagem chega de repente ao telemóvel das mais diversas pessoas, cidadãos comuns?

A partir daqui importa saber de onde partiu. Mas a partir do momento em que embaixadas e infra-estruturas hoteleiras recebem um alerta para ter alguma cautela com a forma como vão operar a sua atividade, é o suficiente para lançar preocupação porque não é comum. A partir daí, é o efeito viral do envio de mensagens e a falta de autoridades que permitam esclarecer as situações. Se reparar, esta questão da mensagem acalmou depois da secretária-geral do Sistema de Segurança Interna dizer que não havia nenhuma mudança no nível de ameaça terrorista, apesar de ter havido desconfiança de que mesmo assim as autoridades é que não queriam esclarecer o público. Na prática acaba por ser o efeito viral e o facto de não ter havido esta partilha de informação total e esclarecimento entre as forças de segurança e depois com o público. Foi aí que falhou.

Neste momento, Portugal serve apenas para concentração de indivíduos e para circulação e acesso a determinados grupos de crime organizado

Recentemente o Estado Islâmico lançou um vídeo a ameaçar o Al- Andalus. Haverá perigo de essa ameaça abstrata se tornar em algo concreto em breve?

O Estado Islâmico, uma vez mais, voltou a lançar um vídeo onde tinha uma parte do seu texto em castelhano já de propósito para se dirigir a Espanha porque o enfoque principal no ISIS no Al-Andalus é desde logo a Espanha. Portugal acaba por ter uma importância secundária, mas ainda assim alguma importância. Recordo que há pouco mais de um ano houve outro vídeo em que se disse que a Península Ibérica não é nem portuguesa, nem espanhola. É da população árabe. Isto aumenta por si só o interesse que se possa ter por Portugal. Mas neste momento Portugal serve apenas para concentração de indivíduos e para circulação e acesso a determinados grupos de crime organizado que acabam por fornecer equipamento e material para a condução da sua atividade.

Mas quando eu vejo a preparação de outros ataques na Europa, inclusive em países e localidades que não teriam grande relevância jihadista, como a Alemanha, a Dinamarca e mesmo a França, cidades secundárias sem qualquer significância, aí Portugal acaba por ter mais interesse do que teria habitualmente. Mas não devemos entrar em alarmismos. Basta analisar relatórios de segurança interna para ver que a presença de jihadistas em Portugal é uma realidade, mas ao ponto de se virem a materializar em ataques parece que ainda estamos relativamente afastados. Mas não tanto como estaríamos há um mês.

A mesquita de Odivelas nunca pode ser esquecida pela proximidade à ideologia sunita, que é a que está mais relacionada com agendas terroristas

A comunidade islâmica residente em Portugal deve preocupar-nos?

Estamos a falar de cerca de 40 a 50 mil pessoas no máximo. É uma população muito reduzida. O que preocupa efetivamente são aquelas pessoas que estão aqui transitoriamente e outras que integrem algumas mesquitas que possam merecer e justificar alguma preocupação.

Por exemplo, a mesquita de Odivelas nunca pode ser esquecida pela proximidade à ideologia sunita, que é a que está mais relacionada com agendas terroristas. Também temos outras situações em que foram abordadas algumas pessoas à saída de uma mesquita em Lisboa, e algumas delas manifestaram a sua concordância para com a agenda terrorista do Daesh. A partir desse momento, deve ser alvo de preocupação e de acompanhamento, mas existem dificuldades das nossas forças de segurança em conseguir a fonte dentro das comunidades muçulmanas e que consigam colaborar indicando alguma informação útil para evitar que um caso destes possa acontecer agora.

Mesmo com a população muçulmana reduzida e até aparentemente controlada, porque regra geral é moderada, temos sempre o problema das pessoas que se auto-radicalizam sem acompanhamento de nenhuma mesquita, sem acompanhamento de algum imã relacionado com o terrorismo. Isso é uma preocupação e é quase impossível identificar estes casos.

Existe em Portugal a política das capelinhas, em que cada um tenta obter a informação para si, para poder mais tarde brilharComo ex-oficial do SIED, acha que as autoridades portuguesas estão a acompanhar estes casos?

Acredito que ao nível da presença física e da reação física dos agentes, caso exista notícia desse possível atentado, as forças de segurança estão devidamente preparadas. 

Mas o nível de colaboração entre as forças que compõem a UCAT é de facto deficiente e existe em Portugal a política das capelinhas, em que cada um tenta obter a informação para si, para poder mais tarde brilhar. Esta ideologia, esta forma de estar ainda existe muito e isto impede um combate ao terrorismo eficaz.

No caso destas mensagens, posso dizer que um dos serviços de informações pretendeu manter para si o seu ponto de vista e não quis revelar nada aos outros porque se surgisse alguma coisa queriam ser eles aqueles que partilharam a informação. Existe muito essa filosofia em Portugal. Todos querem ser o centro de tudo e não estão de facto a funcionar e espero que, se isto continuar desta maneira, um dia que aconteça algum incidente desta natureza, depois não venham culpar e encontrar um bode expiatório como se fosse um novo SIRESP.

SIS tratou a informação de uma forma relativamente deficiente e alarmista É possível revelar quem foi essa fonte?

Posso dizer que foi o SIS [Sistema de Informação e Segurança]. O SIS recebeu a informação através de um serviço congénere que prefiro não dizer. Tratou a informação de uma forma relativamente deficiente e alarmista, porque estes relatórios são recebidos com muita frequência sempre em termos abstratos e assustou os restantes parceiros para este facto.

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