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"'Maré alta' só torna a tarefa do Turismo de Portugal ainda mais difícil"

Eventos como a vitória de Portugal no Europeu de 2016, a eleição de António Guterres para secretário-geral da ONU ou a vitória de Salvador Sobral na Eurovisão tornaram Portugal um destino turístico cada vez mais apetecível. Luís Araújo, presidente do Turismo de Portugal, explica ao Notícias Ao Minuto de que forma este crescimento é benéfico para a economia portuguesa e quais as suas estratégias para aumentar cada vez mais o número de pessoas a visitar o país.

"'Maré alta' só torna a tarefa do Turismo de Portugal ainda mais difícil"
Notícias ao Minuto

14/07/17 por Andrea Pinto

Economia Luís Araújo

Diz que foi o facto de ter nascido num dos "principais destinos turísticos nacionais" que o fez abandonar Direito e querer ser uma mais-valia para o turismo nacional. Luís Araújo assumiu em 2016 as rédeas do Turismo de Portugal e, coincidência ou não, desde então os números têm vindo a aumentar.

Para Luís Araújo, a estratégia passa não só por atrair turistas, como investimento. E embora o excesso de turistas já seja motivo de descontentamento, o empresário defende que Portugal só tem a beneficiar com isso.

Como tal, destaca que os seus objetivos passam por descentralizar a oferta e garantir que a procura se mantém homogénea durante todo o ano. 

Licenciou-se em Direito, mas acabou por afastar-se um pouco da área, enveredando antes pela hoteleira e turismo. Porquê essa mudança?

Acredito que o facto de ter crescido num dos principais destinos turísticos nacionais contribuiu para cultivar este meu fascínio pelo turismo. Surgida a oportunidade, por que não conjugar as duas áreas que me interessam? Ambas colocam, ou deveriam colocar, o foco nas pessoas.

Assumiu a liderança do Turismo de Portugal em 2016 com que objetivo?

Com o objetivo de contribuir ativamente para o reforço da competitividade de Portugal enquanto destino turístico. E acredito que estamos no caminho certo. O ano passado (2016) fomos considerados o 14.º país mais competitivo do setor turístico no Índice de Competitividade das Viagens & Turismo do Fórum Económico Mundial. Subimos uma posição relativamente a 2015.

Nos últimos anos temos vindo a assistir a progressos extraordinários no que se refere à qualidade das infraestruturas turísticas, à melhoria da formação profissional, ao desenvolvimento de novos produtos e à transformação dos modelos de negócio. Com a estratégia que temos para os próximos 10 anos bem delineada e assente em objetivos realistas, ainda vamos conseguir desenvolver mais a competitividade de Portugal.

Trata-se de um trabalho conjunto onde o envolvimento de todos os agentes públicos e privados tem concorrido para se alcançarem este resultados.

O facto de estarmos em 'maré alta' só torna a minha tarefa e o trabalho do Turismo de Portugal ainda mais difícil e o desafio muito maiorFala em progressos extraordinários no setor. Que caminho tem traçado para não os deixar esmorecer?

É um facto que os resultados do turismo em Portugal têm vindo a atingir máximos históricos. O facto de estarmos em 'maré alta' só torna a minha tarefa e o trabalho do Turismo de Portugal ainda mais difícil e o desafio muito maior. Como conseguir ultrapassar estes resultados, já de si tão positivos?

Na realidade, terminámos 2016 com todos os indicadores a crescer. Registámos 19 milhões de hóspedes - crescemos 9,7% - e, pela primeira vez, o número de estrangeiros ultrapassou o número da população portuguesa: recebemos 12 milhões de hóspedes estrangeiros. Naturalmente, os aumentos refletiram-se também nas receitas, com um crescimento de 10,4%, para 12,7 mil milhões de euros. A estratégia que delineámos em articulação com todo o sector, assente em objetivos tangíveis, está a revelar-se eficaz e há que continuar a implementá-la.

É fundamental fazer do empreendedorismo e do apoio à inovação duas prioridades absolutas na estratégia para o futuro do turismoE que estratégia é essa?

A aposta na inovação é fundamental para assegurar a sustentabilidade do setor. O turismo é uma das atividades mais digitalizadas e dinâmicas do mundo e o Turismo de Portugal foi pioneiro nesta aposta tendo, hoje, toda a sua estratégia orientada para o digital. Desde a promoção à gestão do conhecimento, passando pela aposta na tecnologia. A digitalização do turismo é essencial ao seu crescimento, se queremos posicionar Portugal como um polo de referência na inovação, no empreendedorismo e na produção de bens e serviços para a indústria. No entanto, e apesar da sua crucial importância, o digital não é tudo. É por isso fundamental continuar a aposta nas acessibilidades, na visibilidade do pais e na estratégia de parcerias com a distribuição.

A sustentabilidade desta atividade depende, em muito, da reinvenção sistemática das experiências nos destinos e melhoria dos sistemas de suporte. Para que isso possa acontecer é fundamental fazer do empreendedorismo e do apoio à inovação duas prioridades absolutas na estratégia para o futuro do turismo.

Estamos prestes a inaugurar o Centro de Inovação do Turismo, projeto âncora do Programa Turismo 4.0, que tem como missão a identificação das tendências internacionais de inovação no turismo e o apoio à promoção internacional da inovação feita em Portugal. Com os objetivos a serem concretizados através da experimentação de projetos e da capacitação das empresas no domínio da inovação e da economia digital.

Para a consolidação da competitividade é, também, essencial a qualificação dos recursos humanos. O Turismo de Portugal tem estado a reformular a sua oferta formativa e a rever os seus currículos, no sentido de integrar nos seus cursos as competências assinaladas pelo mercado. 

Noutra vertente é fundamental continuar a apostar em iniciativas de estruturação de produtos ajustados a diferentes segmentos da procura, em que se incluem produtos específicos, designadamente para famílias, seniores, jovens, surf, turismo equestre.

Outro objetivo prende-se com a captação de rotas aéreas. Em 2016 surgiram 64 novas operações aéreas, o que nos tem permitido uma maior diversificação de mercados, com crescimentos expressivos do mercado norte-americano, polaco e brasileiro. Agora contamos, também, com uma ligação direta à China, o que nos abrirá portas a um dos principais mercados emissores de turistas.

Queremos que nos vejam como um destino autêntico e seguro, que prima pela simpatia e hospitalidadeO Turismo de Portugal lançou, recentemente, a iniciativa 'Can’t Skip Portugal'. Qual a mensagem transmitida lá fora sobre o nosso país?

A campanha mostra, pelos olhos de terceiros, o país como um destino único, composto por várias regiões, que pode ser visitado ao longo de todo o ano. Apresenta um país seguro e estável, que prima pela simpatia e pela arte de bem receber. Queremos que nos vejam como um destino autêntico e seguro, que prima pela simpatia e hospitalidade, que pode ser visitado ao longo de todo o ano e onde há experiências para todos os gostos e motivações. 

Agora temos um rumo, somos reconhecidos e é visível o nosso contributo para o crescimento do paísDe que forma é que esta iniciativa se diferencia das já feitas pela instituição? 

Destinada exclusivamente a meios digitais, a campanha será exibida ao longo de dois anos em 20 mercados, nomeadamente nos mercados tradicionais – Reino Unido, Espanha, Brasil, França, Holanda e Alemanha –, mercados em crescimento – Rússia, Polónia e Itália –, mercados de aposta – Estados Unidos, China e Índia – e mercados de aposta seletiva – Japão e Coreia do Sul –, entre outros. Permitir-nos-á chegar aos turistas que consomem mais e que trazem mais riqueza para o país que, acreditamos, serem os que vão proporcionar a estabilidade e a sustentabilidade que queremos também garantir em termos de turismo do futuro.

É preciso continuar, de forma criativa, a alargar a atividade turística a todo o ano, reduzindo os efeitos da sazonalidade e apostar neste segmento dos eventos. Acabámos, também, de lançar a plataforma Meetings in Portugal que, em rede com a oferta dos Convention Bureaux, agrega toda a informação relevante sobre eventos no território nacional. 

Todos estes objetivos estão inscritos no nosso plano estratégico para dez anos: a Estratégia Turismo 2027. Agora temos um rumo, somos reconhecidos e é visível o nosso contributo para o crescimento do país.

Não é por acaso que o World Economic Forum nos considera o 14.º país mais competitivo, do ponto de vista turístico, de um total de 140 paísesQuais as potencialidades de Portugal para atrair mais investimento?

Não é por acaso que o World Economic Forum nos considera o 14.º país mais competitivo, do ponto de vista turístico, de um total de 140 países. Os bons resultados do setor comprovam que a estratégia delineada para o Turismo está a resultar. E essa estratégia passa, naturalmente, por captar turistas, mas também, investimento. 

Ano após ano, assente num trabalho articulado entre entidades públicas e privadas, essa estratégia leva-nos a atingir resultados históricos. 2016 não foi exceção e assistimos, novamente, ao crescimento de todos os indicadores - dormidas, receitas, hóspedes, emprego e exportações - com o Turismo a ser considerado a maior atividade económica exportadora do país, sendo responsável por 16,7% das exportações globais e 48,3% das exportações de serviços. 

O que queremos mostrar aos potenciais investidores são estes resultados, ou seja, que este é o momento certo para investir em Portugal. Mostrar-lhes a facilidade com que se abre uma empresa, a facilidade em recrutar mão-de-obra qualificada, a simplificação e desburocratização de todo o processo. Uma das nossas metas passa, precisamente, por agilizar o relacionamento da administração pública com as empresas do turismo, bem como reforçar e aproximar o Turismo de Portugal das empresas, no investimento, na capacitação, nos mercados e no conhecimento.

A nossa estratégia a dez anos posiciona Portugal como um destino para visitar, mas também, para investir, viver, estudar, investigar e criar empresasMas de que forma é que pretende transmitir essa confiança aos investidores?

Estamos a criar instrumentos financeiros específicos para o Turismo, com prazos e condições adaptadas ao investimento turístico. Falo, nomeadamente, da Linha de Apoio à Qualificação da Oferta (com uma dotação de 60 milhões de euros e capital de risco), do Programa Capitalizar (que visa a aceleração da execução do Portugal 2020) e do programa Valorizar (com linhas especificas para as acessibilidades, o Wi Fi grátis nos centros históricos e uma linha específica para projectos no interior do país). 

O Turismo de Portugal tem vindo a desenvolver também operações de estímulo para a captação ativa de investimento direto estrangeiro, através de ações nos mercados externos como roadshows, missões empresarias, elaboração de dossiês e instrumentos de prospeção de mercados e de atração de investimento. Apostamos em ações de suporte e acompanhamento ao investidor e ao empresário, com a disponibilização de informação completa, acessível e em interfaces que permitem uma comunicação eficaz, permanente e interativa, como uma plataforma específica para o investidor. Veja-se como exemplo o programa REVIVE em que 33 imóveis do domínio público serão concessionados para uso turístico.

A nossa estratégia a dez anos posiciona Portugal como um destino para visitar, mas também, para investir, viver, estudar, investigar e criar empresas. Um país onde se valorizou e investiu nas pessoas e nas suas qualificações, atraindo talento. Um país de referência na produção de bens e serviços para a atividade turística à escala mundial. Queremos mostrar que as oportunidades de investimento em Portugal vão além do mercado imobiliário. 

Apesar dos benefícios a nível económico, há quem também critique o excesso de turismo, sendo a cidade de Lisboa o principal rosto destas queixas [o presidente do CCB disse, por exemplo, que Lisboa parecia Bombaim porque estava sobrecarregada]. Concorda com esta crítica?

De todo. Assistimos atualmente a uma crescente qualificação da oferta turística. Nunca houve um investimento tão significativo em infraestruturas, em equipamentos, em formação na área do turismo. E o país, como um todo, só tem a beneficiar com isso. 

Queremos que a procura turística se distribua pelo país de forma mais homogéneaMas como se pode descentralizar essa procura? Que outros destinos dentro de portas podem e devem ser promovidos?

A nossa estratégia passa por promover Portugal enquanto território coeso, queremos que a procura turística se distribua pelo país de forma mais homogénea. Claro que Lisboa, Madeira e Algarve ainda são as regiões mais procuradas, mas começa a assistir-se a uma descentralização com outras regiões - Norte, Centro, Açores e Alentejo - a criarem produtos estruturados, diferenciadores e com qualidade.

Criámos, por exemplo, no ano passado, um departamento no Turismo de Portugal especializado na captação de grandes eventos e uma linha de apoio a eventos estratégicos para o país. Qualquer região ou qualquer cidade se pode candidatar, mas decidimos dar prioridade de apoio a regiões menos turísticas e, nas mais turísticas, privilegiar o apoio na época baixa. Há todo um trabalho em rede muito significativo de identificação de propostas e de criação de sinergias para que essas propostas sejam viáveis.

Há muito trabalho ainda por fazer, mas, unindo esforços entre regiões, entre entidades públicas e privadas, acredito que os resultados serão muito positivos.

E como olha para as novas plataformas de alojamento como o Aibnb? São uma mais valia para o setor?

Sem dúvida. Se existem, é porque têm procura e fechar a porta à procura é perder competitividade. 

Importa agora regulamentá-las e certificarmo-nos que contribuem positivamente para a qualificação da nossa oferta. Ambicionamos crescer, sim, mas em qualidade.

Portugal tem sido, por diversas vezes, elogiado lá fora. Mais do que o é por quem cá vive. Por que razão considera que isso acontece? Não sabemos dar valor ao que temos?

Não estou de acordo. Tenho a perceção de que tanto somos elogiados no estrangeiro como 'cá dentro'. Acho é que os acontecimentos dos últimos meses - e falo, naturalmente, do facto de sermos campeões europeus de futebol, de termos um secretário-geral das Nações Unidas português e vencedores do Festival Eurovisão da Canção – nos deram uma projeção internacional a que não estávamos habituados. 

O mesmo se pode dizer do sector Turismo: em 2016 tivemos 16 mil referências e artigos internacionais sobre Portugal. No primeiro semestre de 2017 ultrapassamos este valor com 16.350 artigos publicados. 

Como é a relação do Turismo de Portugal com o Governo? Os apoios do Estado para esta área são suficientes?

Trabalhamos para objetivos comuns, logo, diria que temos uma relação de confiança e perfeita simbiose não apenas com a nossa tutela (Secretaria de Estado do Turismo e Ministério de Economia) como com todos os gabinetes ou demais organismos públicos. 

Claro que, na sua essência, os recursos são sempre escassos. Se tivéssemos mais recursos, poderíamos fazer muito mais. E ambicionamos ter sempre mais. Mas considero que estamos a fazer o nosso melhor com os recursos existentes e com as regras de funcionamento e os condicionalismos que existem na administração pública. E o balanço é muito positivo. Acreditamos que o retorno está à vista não apenas no volume de receitas para o país como na criação de postos de trabalho e valorização de outras atividades. 

Acredita que o turismo pode ser a principal fonte de receita a aproveitar pelo Estado para ultrapassar as dificuldades financeiras vividas recentemente?

Creio que os números e os bons resultados do setor, a nível nacional, têm vindo a comprovar que o turismo é, e pode ser cada vez mais, um fiável gerador de emprego. O turismo é atualmente uma das atividades económicas mais dinâmicas em Portugal, posicionando-se como o maior exportador de serviços no país.

O peso do saldo turístico sobre o PIB atingiu, em 2016, os 4,8%, tendo o total das receitas turísticas um peso de 6,9% sobre o PIB – dados que confirmam a tendência de crescimento verificada nos últimos anos e a importância que esta atividade detém na economia nacional.

Estes resultados são a demonstração da forte competitividade do turismo e das empresas do setor em Portugal, que evidenciam a vitalidade do setor e reforçam o papel fundamental do turismo para a estratégia de crescimento e de criação de emprego no país.

E quanto à TAP, continua a ser o maior parceiro de Portugal no Turismo?

É um parceiro indispensável, sem dúvida, como todos são. É graças a este esforço conjunto, entre todos os parceiros, que conseguimos alcançar resultados tão positivos.

Daqui a uns anos, espero olhar para trás e ver que a minha contribuição para o crescimento sustentado desta atividade foi positivaCom apenas 46 anos, já trabalhou com grandes nomes da hotelaria internacional e é hoje líder da principal organização dedicada ao Turismo em Portugal. Era uma meta ambicionada?

Não diria isso, de todo. A única ambição que sempre tive foi a de aprender, cada vez mais. Nunca deixar de aprender e ser feliz a fazer o que faço.

E o que se segue?

Seguem-se tempos de muito trabalho. Para fazer do Turismo de Portugal um organismo ainda mais reconhecido pela sua competência e inovação e para fazer do turismo em Portugal uma opção top-of-mind não só para visitar, mas também para estudar, investir, ou, até, morar.

Daqui a uns anos, espero olhar para trás e ver que a minha contribuição para o crescimento sustentado desta atividade foi positiva.

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