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Casa Pia: "Transformar vidas é o que nos alimenta a alma"

Está há sete anos à frente dos destinos da Casa Pia e é com "orgulho" que assume que o que lhe "alimenta a alma" é a capacidade da instituição de "transformar vidas" de crianças e jovens desprotegidos. Cristina Fangueiro admite, em entrevista ao Notícias ao Minuto, que houve "uma lição" a retirar do processo em torno dos abusos sexuais e que está "muito, muito atenta" aos direitos das crianças, hoje mais salvaguardados.

Casa Pia: "Transformar vidas é o que nos alimenta a alma"
Notícias ao Minuto

27/04/17 por Goreti Pera

País Cristina Fangueiro

Acolher e educar são as palavras de ordem numa instituição com mais de 200 anos de história. Na Casa Pia de Lisboa vivem duas centenas de crianças institucionalizadas e estudam mais de três mil alunos.

É uma das maiores instituições de solidariedade a nível nacional e poucos lhe conhecem a dimensão. Tem 16 casas de acolhimento e escolas que vão da creche ao 12.º ano. Os cursos de formação profissional (30 no total) são uma das fortes apostas e o de relojoaria é o ex-libris, por ser o único curso a ser lecionado na Península Ibérica.

Em entrevista ao Notícias ao Minuto, a presidente do conselho diretivo ‘abriu as portas’ da instituição e teceu elogios ao lado humanista do Presidente da República. “Foi convidado por um grupo de jovens para ir jantar à casa de acolhimento e aceitou o convite. Não imagina o significado que o jantar teve para aqueles jovens. (…) O país precisava de um Presidente assim”, congratulou-se.

Cristina Fangueiro garantiu ainda que o Processo Casa Pia, que decorreu na justiça no seguimento do escândalo de pedofilia, é “completamente passado” e que foi possível tirar “uma lição”. “Hoje, crianças têm os seus direitos mais salvaguardados”.

A Casa Pia tem mais de 200 anos de história e valências que passam não só pelo acolhimento como pela educação.

A Casa Pia tem 3.200 crianças e jovens na educação e formação e tem 220 crianças no acolhimento. Ao todo, são 16 casas de acolhimento (mistas) dispersas pela cidade de Lisboa, onde não vivem menos de 12 nem mais de 15 meninos/as, que tanto podem frequentar as escolas da Casa Pia como outras escolas públicas da zona onde residem. Há ainda casas de pré-autonomia, que na prática são apartamentos onde os jovens vivem sozinhos, apenas com uma equipa de suporte. E para futuro temos a pretensão de abrir uma casa para jovens mães.

Em Lisboa, as instituições que recebem crianças em maior número são a Santa Casa da Misericórdia e a Casa Pia, sendo que a Santa Casa recebe as crianças mais novas e nós recebemos essencialmente crianças a partir dos 12 anos. Aqui, a média de idades situa-se nos 14,8 anos.

No campo do acolhimento de crianças e jovens, que processos vos chegam às mãos? Há um padrão ou tendência?

São crianças com percursos de vida muito complicados, com vidas muito difíceis e sofridas. Agora estamos a enfrentar uma situação nova para nós, que são adolescentes refugiados. A última jovem refugiada que chegou à instituição nasceu na Serra Leoa e veio refugiada do Egito. Sabe um dialeto e só fala um bocadinho de árabe muito esquisito, pelo que estamos a ter muita dificuldade em comunicar.

Quanto à tendência, estamos a receber crianças mais velhas do que recebíamos antes, o que é um desafio porque é mais difícil trabalhar com adolescentes. Mas temos equipas de acolhimento fortes e instrumentos de planeamento muito consistentes. Há uma espécie de Bíblia que tem descritos todos os procedimentos que devem ser aplicados assim que a criança chega à casa.

Recebemos crianças mais velhas do que recebíamos antes, o que é um desafio

Que procedimentos são adotados sempre que uma criança nova chega à instituição?

Em primeiro lugar, há uma preparação prévia antes de a criança chegar. A equipa tem de conhecer o processo e de preparar as restantes crianças, a quem é explicado que vem um novo colega. É selecionado um amigo para fazer a apresentação da casa ao menino que chega, e é selecionado um educador de referência para a criança (que ocupa, de certa forma, o papel do pai/mãe). Cada criança da casa tem um Plano de Desenvolvimento Pessoal (PDP), ou seja, um plano de vida que é revisto a cada seis meses.

Como é que se prepara o processo de desinstitucionalização?

Embora a nossa ambição seja que a criança esteja institucionalizada o mínimo tempo possível, há situações em que prevemos que não seja possível. Dificilmente as crianças que vêm para a Casa Pia têm processos de adoção, porque já vêm crescidas para aqui. Desde que estou cá (sete anos) não foi concretizado nenhum projeto de adoção.

O processo termina com autonomização ou nova institucionalização, se estiverem em causa, por exemplo, pessoas com deficiência ou défices cognitivos que não conseguem promover a sua autonomia. A nível nacional, há uma lacuna neste aspeto. Não há instituições suficientes para acolher, por exemplo, um jovem de 28 anos com ligeira deficiência, que não se enquadre num lar residencial para deficientes mas que também não consiga ser autónomo.

Dificilmente as crianças que vêm para a Casa Pia têm processos de adoção

Ainda que praticamente não haja processos de adoção, as crianças têm famílias amigas. O que é preciso para que uma família se torne amiga de uma criança ou jovem?

Precisa de se inscrever e cumprir uma série de critérios. A seleção é cuidadosa para não frustrar as crianças. Não é um processo tão complexo como a adoção, mas os nossos técnicos têm de ter segurança de que a situação vai ser confortável para a família e que beneficia a criança.

Há famílias amigas em diferentes dimensões: podem só dar apoio à criança dentro da casa de acolhimento, podem levá-la durante o dia ou podem levá-la aos fins de semana ou férias. É uma relação de voluntariado.

Aponte-me alguns casos de sucesso no processo de desistitucionalização.

Um dos nossos alunos do curso de cozinha, o Filipe Pina, é sub-chef do Grupo José Avillez e tem imenso orgulho em dizer que estudou na Casa Pia. Temos ainda o exemplo da Lura, uma cantora cabo-verdiana com uma carreira internacional. E entre as grandes vedetas da relojoaria (Patek Philippe, Omega, Rolex) há alunos da Casa Pia de Lisboa, alguns do acolhimento e outros só da educação.

Há outras provas de sucesso que merecem ser mencionadas. Só este ano, a Casa Pia já recebeu um segundo e terceiro prémios na robótica, a exponoivos já premiou duas alunas do curso de design de moda, temos um aluno das infantis que foi convocado para a seleção nacional de luta greco-romana e os estudantes de restauração venceram um primeiro prémio num concurso em que competiram com veteranos. É um orgulho enorme.

Temos 30 cursos profissionais. A relojoaria é o ex-libris, é o único na Península Ibérica

No campo da educação, os cursos de formação profissional são a forte aposta?

Além de creche, pré-escolar, primeiro ciclo, segundo ciclo (escolas públicas que são frequentadas por alunos externos, que não estão institucionalizados), na Casa Pia temos 30 cursos profissionais que dão equivalência ao 12.º ano. A relojoaria é o ex-libris, porque é o único na Península Ibérica e é de enorme futuro para quem consegue entrar. Todos os alunos encontram emprego, quer seja em Portugal quer seja em empresas de renome no estrangeiro.

Aliás, todos os nosso cursos têm uma boa empregabilidade. Temos um belíssimo curso de desporto, com uma procura brutal todos os anos. Os cursos de cozinha/pastelaria e restaurante/bar estão sempre cheios e os alunos estagiam nos melhores restaurantes e hotéis.

De resto, apostamos sempre em atividades complementares. Apostamos com muita força no ensino integrado de música. Tanto que no dia 22 de março os alunos que compõem a Orquestra de Cordas da Casa Pia de Lisboa darão um concerto no Teatro Tivoli, em Lisboa, em que participará também Simone de Oliveira, Rita Redshoes e Pedro Moutinho. É um momento de grande orgulho para nós.

Os efeitos da crise afetaram a sobrevivência da instituição?

Não. Esta é uma casa forte, cheia de recursos e que sabe dar a volta. É evidente que não vivemos ‘à fartazana’, mas os senhores ministros souberam sempre ter cuidado por relação à Casa Pia. Temos mantido o orçamento.

O povo português é solidário, mas ser voluntário acarreta responsabilidade

Nota que atualmente a sociedade está mais consciencializada para a prática do voluntariado?

Eu penso que está. O povo português é um povo solidário, só que às vezes não está consciente de que ser voluntário acarreta algum nível de responsabilidade. Um voluntário não pode sê-lo só quando quer, mas sim de forma consciente, com sentido de compromisso. Porque ser voluntário exige algumas obrigações, especialmente com crianças, que são muito exigentes depois de ter vivido tantas frustrações.

O Presidente da República tem dado o exemplo nomeadamente junto dos sem-abrigo. É um incentivo que fazia falta?

É, sim. Nós temos o privilégio de ser vizinhos do Presidente da República, que tem tido um carinho fantástico para com os jovens da Casa Pia. Há dias, foi convidado por um grupo de jovens para ir jantar à casa de acolhimento e aceitou o convite. Não imagina o significado que o jantar teve para aqueles jovens. Eles fizeram até apostas sobre o jogo de futebol que decorria no dia seguinte. Os três meninos que ganharam receberam um telefonema do Presidente depois do jogo e foram ao Palácio de Belém receber os prémios (bilhetes para um jogo de futebol e um concerto musical). Uma das meninas fazia anos e teve até direito a um bolo de aniversário na residência oficial. É um momento especial que fica para a vida. Só mesmo com o Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa.

O país precisava de um Presidente assim

Como é que olha para este lado tão humanista do Presidente?

Acho que o país precisava de um Presidente assim, com esta vertente humanista que ele tem. Portugal está a ganhar.

Em 2002 a Casa Pia viveu um dos períodos mais críticos da sua história. A instituição já se conseguiu demarcar do escândalo de pedofilia?

Eu acho que isso é completamente passado, está perfeitamente ultrapassado. Tenho o privilégio de ser presidente desta casa desde 2010 e desde essa hora que sinto o sentido de pertença e o orgulho que as pessoas têm em trabalhar cá em casa. O processo está terminado e a justiça disse o que tinha a dizer. Entrem na Casa Pia e conheçam o que aqui se faz. É uma casa que faz muito bem a Portugal, às crianças e jovens que por aqui passam. Transforma muitas vidas. Costumo dizer que é o que nos alimenta a alma.

Hoje as crianças têm os seus direitos mais salvaguardados. Processo Casa Pia foi uma lição

O Processo Casa Pia abriu a porta a que mais denúncias fossem apresentadas e a que as autoridades e a sociedade prestassem maior atenção ao crime de abuso sexual de menores?

Essa foi, digamos, a parte positiva da questão. Os direitos das crianças e jovens passaram a ser salvaguardados e hoje as crianças têm os seus direitos mais salvaguardados, sem dúvida nenhuma. Foi uma lição. Hoje estamos muito, muito atentos. Temos vindo a trabalhar no sentido de a Casa Pia demonstrar à sociedade portuguesa que é uma instituição forte, capaz de fazer o que está no seu ADN: acolher bem, educar crianças e jovens, preferencialmente as que estão mais desprotegidas.

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