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"Ainda existe algum estigma em as mulheres se afirmarem como feministas"

Quatro décadas de feminismo, quatro décadas de lutas, quatro décadas de vitórias… e um longo caminho ainda para percorrer. Quem o diz é Manuela Tavares, cofundadora da União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR). A propósito do Dia Internacional da Mulher, que se celebra esta quarta-feira, estivemos à conversa com um dos rostos do feminismo em Portugal.

"Ainda existe algum estigma em as mulheres se afirmarem como feministas"
Notícias ao Minuto

08/03/17 por Daniela Costa Teixeira

País Manuela Tavares

Manuela Tavares foi uma das mulheres que, apenas dois anos após a Revolução dos Cravos, trouxe a igualdade de género para o cerne das questões sociais ao aliar-se a um conjunto de mulheres para a criação da União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR).

E passados 40 anos de um feminismo comprometido socialmente e consciente de que o caminho é ainda longo, continua a ser uma das personalidades que mais luta pela igualdade de género.

O Vozes ao Minuto esteve à conversa com a cofundadora e atual membro da direção da UMAR e também investigadora no Centro Interdisciplinar de Estudos de Género.

O que tinha em mente quando, dois anos após a Revolução, se uniu a outras mulheres para fundar uma associação pensada para o sexo feminino?

Naquela altura, as mulheres participavam muito nos movimentos pelo direito a uma habitação digna, pelo direito a creches para os filhos, pelo direito a um salário igual. Toda essa movimentação suscitou a ideia de que as mulheres precisavam de organizar associações onde pudessem fazer ouvir mais a sua voz e onde se pudessem organizar para outro tipo de reivindicações.

Foi uma decisão fácil de tomar ou o receio de represálias obrigou-a a pensar antes de agir?

Não, estávamos no pós-25 de Abril, havia liberdade. Não fui eu que tomei apenas a iniciativa, é preciso dizê-lo. Colaborei com outras mulheres na criação dessa associação que foi [é] a UMAR, mas não fui eu a ter a principal iniciativa.

Como nasceu essa sua vontade de dar voz e cara pelo feminismo?

As pessoas mais novas talvez não compreendam a onda de participação que na altura se fazia sentir pelo país. As mulheres estavam em comissões de moradores, eu própria estive numa comissão de moradores, estavam em comissões de utentes de saúde, estavam no Alentejo nas ocupações de terra. Este movimento era de tal envergadura que era normal que todas nós, em especial as mais novas, estivessemos envolvidas.

Nessa altura era fácil explicar o que é ser feminista?

Na altura, eu não me identifiquei logo como feminista, só mais tarde vim a fazê-lo, embora tivessem existido associações com características feministas desde o início, como o Movimento Libertação das Mulheres, o MLM.

A UMAR, quando nasceu, não se assumia como feminista. Na prática, eramos, mas não tínhamos bem essa consciência, porque procurávamos que as mulheres ganhassem consciência por si próprias como sujeitos com direitos.

Claro que o MLM, ao qual pertenceu a Madalena Barbosa, a Maria Teresa Horta, a Maria Isabel Barreno e muitas outras mulheres, essas sim, identificavam-se com o feminismo e tiveram até represálias por causa disso quando houve uma manifestação, uma concentração, em 1975, no Parque Eduardo VII [Lisboa], onde procuravam apenas pôr em causa ainda uma certa mistificação que existia em torno da mulher do lar, em que procuravam que as mulheres se libertassem das amarras que ainda na sua vida privada se faziam sentir.

Temos de olhar para as conquistas adquiridas como algo que devemos defender, mas que também podem recuarEssa manifestação foi muito mal tratada pela comunicação social, pelos homens que lá apareceram, e realmente, como diziam jornalistas na altura, como o Adelino Gomes, Portugal parece que não estava preparado ainda para receber essas novas ideias do feminismo, porque estivemos 48 anos num regime isolado, fechado ao exterior. Foi difícil que as ideias do Maio de 1968, ideias feministas também entrassem em Portugal. Entraram por via de algumas mulheres mais intelectuais, mulheres que realmente tinham relacionamento com outras mulheres em França e noutros países.

O próprio livro da Maria Isabel Barreno, da Maria Teresa Horta e da Maria Velho da Costa, as ‘Novas Cartas Portuguesas’ foi proibido pelo regime em 1962. O livro foi apreendido, classificado como pornográfico e elas foram, efetivamente, incomodadas pela polícia política e houve várias sessões de julgamento até que na última, a seguir ao 25 de Abril, a 7 de maio de 1974, foram absolvidas, não havia matéria para que  fossem condenadas. E foi, aliás, a partir daí que surgiu o MLM em Portugal.

De forma mais ou menos eficaz, a sociedade tem evoluído num sentido de maior igualdade de género. Neste cenário, ser feminista tem sido mais ou menos difícil?

Digamos que ainda existe algum estigma em as mulheres se afirmarem como feministas, não é por acaso que algumas dizem que defendem os direitos das mulheres mas que não são feministas.

Os movimentos radicais dos anos 60 e 70, que tiveram um papel muito importante em colocar na agenda política as questões da violência, da despenalização do aborto, da sexualidade, foram muito importantes, fizeram algumas roturas na sociedade da época. Ora, hoje, ainda existem alguns fantasmas que assombram esta expressão do feminismo ou dos feminismos. Eu gosto mais de falar dos feminismos, porque existem várias correntes.

Aproveitamentos existem sempre nestas questões de igualdade de género e, se quer que lhe diga, irritam-me solenementePodemos dizer que a comunicação social está mais recetiva, que há muitas jovens mulheres na rua, mesmo em manifestações, que se identificam com o feminismo e jovens que nas universidades já fazem trabalhos sobre estas questões. Existe ainda um estigma, embora não seja tão evidente. Existe menos receio.

Mesmo com os passos que se têm dado, a conquista pelos direitos das mulheres ainda não é uma realidade em todo o mundo. Será algum dia uma questão definitiva e unânime?

Sabe que temos de olhar para as conquistas adquiridas como algo que devemos defender, mas que também podem recuar. Vejamos agora a situação nos Estados Unidos, com o Donald Trump. Ele tem políticas claramente anti-feministas, racistas, homofóbicas, procura cortar direitos, corta mesmo apoios financeiros a organizações dos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres que, por todo o mundo, procuram que tenham meios contracetivos, deixem de abortar ilegalmente.

Os homens também podem ser feministas, desde que reconheçam que existem direitos que as mulheres têm ainda de alcançarExistem 50 mil mulheres a morrer todos os anos por abortos clandestinos e é nesta situação que este senhor [Donald Trump] corta esses apoios. Não é por acaso que na altura da sua posse se organizou aquela marcha de mulheres a nível mundial, que percorreu o mundo e teve imensa adesão.

Isto quer dizer que as conquistas alcançadas também podem recuar e que é preciso estar sempre sob vigilância, estar sempre na predisposição para lutar contra esses recuos.

Mesmo com o aumento do número de mulheres na política e até em altos cargos de algumas empresas, porque é que a desigualdade laboral e salarial é ainda uma questão? O que está a falhar?

É uma questão que ainda se coloca. Sabemos que as lutas das mulheres no 8 de março começaram pelo direito a um salário digno e a menos horas de trabalho. Houve uma grande evolução nos estatutos da mulher, é verdade, mas nós continuamos a ver discriminações salariais em função da maternidade, em função da carreira, etc. E, portanto, há lutas que se perpetuam no tempo.

No ano passado a Dior criou uma camisola que dizia 'Everyone should be a feminist' (todas as pessoas deveriam ser feministas). O movimento chegou facilmente a celebridades e, por mimetismo, a mulheres de todo o mundo, que vestem camisolas a enfatizar a causa. Estamos perante um falso feminismo?

O que nós sentimos é que o marketing está sempre disposto a aproveitar-se daquilo que tem maior notoriedade, maior adesão junto das pessoas para fabricar e dar apoio às suas próprias marcas, sabemos disso. São os aproveitamentos que existem sempre nestas questões de igualdade de género e que, se quer que lhe diga, me irritam solenemente. Mas é verdade que existe uma maior recetividade às ideias dos feminismos, que se vista uma camisola, e se coloque uma frase identificadora dessa luta.

Ao não entendermos o passado também somos capazes de, enfim, interpretar mal o presente e não ter os pés bem assentes no futuroHá maior facilidade e é preciso dizer que os homens também podem ser feministas, desde que reconheçam que existem direitos que as mulheres têm ainda de alcançar, que existem muitas discriminações a eliminar, e que sejam nossos aliados. Mas não podemos dizer que isso acontece em relação a todos os homens, basta ver as questões da violência sobre as mulheres. Em Portugal, no espaço de 13 anos morreram 454 mulheres às mãos de maridos, ex-maridos, companheiros, ex-companheiros, namorados… portanto, não andamos todos de braço dado, estaremos com alguns de braço dado.

As jovens mulheres dos dias de hoje têm consciência da luta feita pelos direitos que agora têm?

Penso que não. Falta um trabalho de memória, é preciso entender o percurso histórico desta longa luta pelo direito das mulheres. Ao não entendermos o passado também somos capazes de, enfim, interpretar mal o presente e não ter os pés bem assentes no futuro.

Não é que tenhamos de recompor a história ou que tenhamos de fazer o mesmo, mas a história também nos dá lições sobre os percursos existentes, sobre os avanços e recuos e, portanto, falta às nossas gerações, nas escolas, que a história seja ensinada de outra maneira, que as mulheres não fiquem invisíveis na história como têm estado, que os movimentos sejam estudados, que as jovens da atualidade entendam que os direitos hoje adquiridos tiveram um enorme percurso e que se hoje os temos é porque existiram outras mulheres que lutaram por eles e há muitos anos.

*Pode ler a segunda parte desta entrevista aqui.

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