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"O meu corpo está cheio de cicatrizes, mas o amor pelo surf mantém-se"

'Lobo do Mar' é a primeira obra de Garrett McNamara, o surfista que parou o mundo ao surfar uma onda gigante na Nazaré.

"O meu corpo está cheio de cicatrizes, mas o amor pelo surf mantém-se"
Notícias ao Minuto

02/03/17 por Luís Moreira e Francisco Amaral Santos c/ Carlos Pereira Fernandes

Desporto Garrett McNamara

Garrett McNamara prepara-se para enfrentar um novo desafio. Desta vez, sem ondas gigantes nem prancha de surf. O norte-americano lança, no próximo sábado, o seu primeiro livro.

'Lobo do Mar', título da obra, promete contar as memórias e histórias de um surfista que fez parar Portugal - e o mundo, diga-se - quando enfrentou as temíveis ondas gigantes da Nazaré, em 2011 e 2013. 

Em entrevista ao Vozes ao Minuto, McNamara explicou o que o motivou a escrever uma obra. A mensagem principal é tão curta como elucidativa: "Tudo é possível". 

Na verdade, McNamara já se sente um bocadinho português, apesar de nos ter pedido desculpa pela entrevista ter sido feita em inglês. 

Acredita que o nosso país tem coisas extraordinárias, que a qualidade vida é muito superior aos EUA e que os portugueses podem trazer uma medalha no Jogos Olímpicos de 2020.

É mais natural andar pelas ondas gigantes, são a minha casaPorquê as ondas gigantes?

Sinto-me mais confortável, sinto que pertenço lá... [pausa]. Para mim, é mais natural andar pelas ondas gigantes, são a minha casa. No entanto, tenho de assumir que as ondas pequenas assustam-me...

Quando é que apareceu a paixão pelo surf nestas condições?

O amor pelas ondas gigantes cresceu em mim quando tinha apenas 16 anos. Comecei aos poucos e de forma gradual. No início, eram ondas de seis metros, depois passei para nove, 12 e por aí em diante, até ao momento em que surfei a famosa onda na praia da Nazaré.

Qual é o segredo para dominar esse tipo de ondas? 

Não desafio as ondas, tento elogiá-las e surfá-las o melhor que conseguir, como se estivesse a 'dançar' com elas. Quanto mais tempo estiver a 'dançar' e a divertir-me na onda, melhor. Quando estou a fazer surf, não penso nos perigos ou nos recordes, apenas tento desfrutar o momento em que estou a surfar.

Esse respeito pelo mar é o mesmo do que quando começou?

Quando era mais novo, não queria saber se as condições atmosféricas eram boas ou más, ia de qualquer das formas. Mas, com a idade, fui tornando-me mais seletivo e metódico. Se achar que as condições não são as melhores, não entro no mar. Faço surf pelo amor ao desporto, tão simples quanto isso. 

Não sente medo? Nunca sentiu que iria perder o controlo da situação?

Medo? Não tenho medo, mas já perdi o controlo várias vezes, milhares até. Por causa disso, já tive a minha perna toda arranhada, parti os meus dois pés, parti três costelas… por aí fora. O meu corpo está cheio de cicatrizes, mas o amor pelo surf mantém-se intacto.

Portugal tem um cantinho especial no meu coração. Foi aqui que concretizei todos os meus sonhos

Como é que um norte-americano acaba a surfar numa vila tão pequena e pacata como a Nazaré? 

Alguns habitantes da vila entraram em contacto comigo para vir a Portugal surfar e, também, para os ajudar a criar um concurso para promover a Nazaré no panorama internacional, dizendo-me que as ondas daquela localidade eram grandes e de qualidade. Aceitei o convite que me foi proposto e disse-lhes ainda que já tinha um concurso [de surf] só meu. Ou seja, já tinha todos os contactos necessários para os poder ajudar. Entretanto, cheguei a Portugal e vi que as ondas eram enormes e fantásticas. Perante esta realidade, decidimos contactar a WSL [World Surf League] – o maior evento do surf – e conseguimos aquilo que queríamos, que era colocar a Nazaré no topo do mundo. Atualmente é um sucesso, toda a gente quer lá ir!

Sente-se responsável por elevar o nome da Nazaré?

Fico muito orgulhoso, porque quanto mais surfistas internacionais vierem à Nazaré surfar, melhor. Tento convidar toda a gente a visitar esta bela vila portuguesa. Vários surfistas vêm surfar as famosas ondas gigantes e depois tornam-se grandes estrelas nos seus países de origem, como por exemplo o Alessandro Marcianò [de Itália] - que antes apenas surfava ondas pequenas - ou o Sebastian Steudtner [da Alemanha] – que agora é uma super estrela no seu país. 

Pensa continuar a viver lá? 

A Nazaré será sempre a minha casa, mas agora estou interessado em rumar aos Açores e à Madeira. Quero dar maior destaque à Ilha da Madeira, porque tem uma temperatura mais quente… É simplesmente perfeita para o surf. Tem as condições atmosféricas certas e pouca gente sabe disso no panorama internacional. Já o arquipélago dos Açores tem muitas ilhas e um clima muito irregular, o que não ajuda na prática do surf.

E em Portugal Continental? Que outras praias recomendaria?

Não posso dizê-lo, porque não quero que as praias que regularmente utilizo fiquem cheias [risos].  Contudo, posso dizer que gosto muito da Praia das Conchas [Torres Vedras], tem ondas de grande qualidade. Mas em Portugal, de Norte a Sul, há inúmeras praias com excelentes condições que ninguém conhece. Toda a gente vai para a Nazaré e esquece toda a costa portuguesa. No entanto, como me considero um explorador, e uma vez que gosto de procurar novos sítios e novas ondas para surfar, confesso que em Portugal encontrei locais incríveis!

O McNamara já deu workshops de surf a crianças... É por aí que passa o seu futuro?

Como tive uma infância complicada, quero contar a minha história às crianças, quero passar a ideia de que tudo é possível. A minha paixão é, sem dúvida, trabalhar com crianças. Nos próximos três anos é apenas isso que vou fazer, vou andar pelo mundo a passar a minha mensagem aos mais novos. Além disso, vou ensiná-los a surfar e dar-lhes a conhecer o universo do surf. É engraçado que, quando chegam à praia, eles pensam que conseguem alcançar todos os seus sonhos, que tudo é possível. As crianças têm razão: se olharmos para Portugal vemos que tudo é possível, uma vila como a Nazaré conseguiu tornar-se num importante circuito do surf mundial...

Quando digo que tudo é possível é porque é. Olhem para o caso dos EUA...Donald Trump é o novo presidente

O que é os portugueses podem esperar deste livro? A mesma emoção que viveu naquela onda gigante na Nazaré em 2011?

Com o meu novo livro, quero passar aos portugueses a mensagem de que tudo é possível. Podemos alcançar aquilo que queremos. Quero que vejam de onde vim e que percebam que sou muito parecido com as pessoas deste país. A minha vida foi sempre entre altos e baixos, com muita luta à mistura, mas houve um dia em que decidi focar-me num objetivo e consegui alcançar aquilo que queria. Quando digo que tudo é possível é porque é. Olhem para o caso dos EUA...Donald Trump é o novo presidente!

Foi difícil passar todas as suas estórias para o papel?

Nesta obra contei pelo menos uma estória de cada marco importante da minha vida e ainda tenho milhões de estórias que ficaram por contar. Pode ser que, no final da minha vida, publique outro livro com algumas das estórias mais caricatas que passei ao longo da carreira, já que nessa altura não estarei importado com o que as pessoas poderão dizer sobre mim (risos). Além desta obra, estou a preparar um pequeno livro dedicado à vila da Nazaré [ainda sem data de lançamento].

Tem alguma estória caricata desde que chegou ao nosso país?

Na primeira vez que estava a vir para Portugal, fiz escala em Londres e decidi mandar um e-mail às pessoas que me convidaram, a dizer que tinha perdido o voo. No entanto, antes de entrar no avião para Portugal, mandei novo e-mail a dizer que tudo não passava de uma brincadeira [risos]. Quando cheguei ao país decidiram levar-me a conhecer as ondas gigantes, através de uns jet skis, mas deram-me um… sem motor [risos]. Foi a vez de eles me pregarem uma partida. Isto tudo, logo no primeiro dia.

Tem quatro filhos. Algum deles já manifestou a intenção de seguir as suas pisadas? 

Acredito que o meu filho mais novo poderá ser um surfista profissional. No início, ele só praticava bodysurfing, mas desde que fiz uma viagem grande, começou a fazer surf na minha ausência. Ele tem andado ‘obcecado’ com a modalidade. 

Uma última questão, sente-se português?

Claro que sim, Portugal tem um cantinho especial no meu coração. Foi aqui que concretizei todos os meus sonhos.

*Pode ler a segunda parte desta entrevista aqui.

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