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"MEO Kalorama funciona como o último grande festival de verão europeu"

Andreia Criner, diretora de comunicação do MEO Kalorama e da Last Tour Portugal, é a convidada desta quinta-feira do Vozes ao Minuto.

 "MEO Kalorama funciona como o último grande festival de verão europeu"
Notícias ao Minuto

31/08/23 por Daniela Filipe

Cultura Meo Kalorama

Pelo segundo ano consecutivo, aquele que se assumiu como o "último grande festival de verão" está de regresso ao Parque da Bela Vista, em Lisboa. De 31 de agosto a 2 de setembro, o MEO Kalorama voltará a 'dar música' à capital, com um reforço em todos os seus grandes pilares: curadoria musical, arte e sustentabilidade.

Na verdade, e de acordo com a diretora de comunicação do evento e da Last Tour Portugal, Andreia Criner, uma das grandes novidades desta edição passa pela introdução de um quarto palco totalmente dedicado à música eletrónica – o Palco Panorama. Ainda assim, o "fio condutor programático" evidente no arranque do MEO Kalorama permanece, dando voz não só ao talento da associação 'Chelas é o Sítio', como à "equidade entre artistas masculinos, femininos, e com representatividade LGBTQ+".

Em conversa com o Notícias ao Minuto, Andreia Criner não deixou de realçar que, neste momento, 40% da "grande festa da rentrée" é composta por mulheres e por membros da comunidade LGBTQ+, ao mesmo tempo que ressalvou ser necessário "dar algum tempo ao mercado para que tenha mulheres em quantidade suficiente". Isto porque, na sua ótica, "importa dar passos sólidos no sentido de ter este tipo de curadoria com a preocupação da representatividade", sem perder "de vista a programação em si".

Já no campo da arte, a responsável garantiu que o projeto "é muito mais ambicioso", não fosse a aposta no dobro dos artistas envolvidos em cada ponto das mostras no recinto. Na sustentabilidade, por seu turno, a grande ambição é reduzir o uso do plástico, da água e do consumo de energia, sob o compromisso de o MEO Kalorama continuar a ser "um evento com 0% de resíduos orgânicos em aterro".

Os festivais portugueses – o MEO Kalorama incluído – têm preços de bilhetes muito inferiores à esmagadora maioria dos festivais na Europa, porque têm em conta a nossa realidade socioeconómica

Quais as novidades (e as diferenças) desta segunda edição do MEO Kalorama?

Uma das grandes novidades que temos é a existência de um quarto palco, o Palco Panorama, que é o primeiro a entrar em funcionamento e o último a fechar, porque termina quando encerra o recinto. É um palco para dançar – dança-se desde que começa até que encerra e é totalmente dedicado à música eletrónica, e essa é uma das grandes novidades no ponto de vista da curadoria musical.

Em termos dos outros dois pilares do evento, que são a arte e a sustentabilidade, no ano passado tivemos o ‘Temple of Sound’, um workshop com a artista visual Madalena Pequito, e uma mostra de vários artistas do coletivo Underdogs. Portanto, fizemos três pontos de arte. Este ano, temos o dobro e envolvemos um artista em cada um desses pontos, sendo que vamos revelar o projeto de arte, que é muito mais ambicioso, na véspera do festival [à data da realização desta entrevista].

Uma das diferenças identificadas foi o preço dos bilhetes diários e dos passes de três dias. A que se deveu o aumento dos respetivos valores?

Os preços dos bilhetes são determinados de acordo com vários critérios. Tem a ver com o próprio cartaz musical, com os custos envolvidos com a parte artística, com o crescimento da arte urbana e, depois, com todos os custos que estão relacionados com o que se está a passar de uma forma geral devido à disrupção causada pela guerra ainda em curso. Isso sente-se de uma forma geral no tecido económico dos vários países; nem sequer é uma realidade portuguesa. E, portanto, o que acontece é que a indústria musical não está a salvo e há essa reflexão proporcional nos bilhetes.

Acho que é percetível desde o ano passado, na primeira edição, que há um fio condutor programático que anda muito naquele triângulo do Indie-Pop-Rock e que tem um equilíbrio entre nomes consagrados e nomes emergentes

Mas muita atenção: os festivais portugueses – o MEO Kalorama incluído – têm preços de bilhetes muito inferiores à esmagadora maioria dos festivais na Europa, porque têm em conta a nossa realidade socioeconómica, e é para isso também que trabalhamos de perto com as nossas marcas patrocinadoras.

Como é que foi feita a seleção dos artistas a pisar os palcos desta edição?

A curadoria de música é central nos três pilares do MEO Kalorama. Acho que é percetível desde o ano passado, na primeira edição, que há um fio condutor programático que anda muito naquele triângulo do Indie-Pop-Rock e que tem um equilíbrio entre nomes consagrados e nomes emergentes – novas apostas, novas tendências que podemos partilhar, e que acreditamos que vão marcar o futuro da música.

Entre os vários nomes de peso anunciados, qual é o concerto que consideram ser imperdível?

É difícil, é muito difícil escolher. Temos 17 portugueses, dos quais quatro são da associação ‘Chelas é o Sítio’ – Pongo, Scúru Fitchádu, Dino D’Santiago, EU.CLIDES, e Capitão Fausto, que estão a gravar um disco novo e não sabemos se vamos ter um ‘cheirinho’.

Quando chegamos aos internacionais, nos emergentes destacava Ethel Cain, Tamino, Shygirl. Dos consagrados, acho que é impossível resistir a vê-los a todos – Blur, The Prodigy, Florence + The Machine, Arcade Fire. E depois temos os coheadliners, que são extraordinários. Logo no primeiro dia, só para abrir e ainda antes de chegarmos aos The Prodigy e aos Blur, temos M83, Yeah Yeah Yeahs, Metronomy. É um cartaz de luxo.

Estamos a ser felizes e isso está a possibilitar, inclusive, assistirmos pelo segundo ano a um fenómeno interessante: artistas que terminam as suas digressões europeias no MEO Kalorama. Isso enche-nos de felicidade, porque mesmo que quem já tenha visto alguns destes concertos previamente, vai ver um concerto diferente

E em comparação com o ano passado, considera que há mais 'peso' nos nomes que conseguiram para esta edição?

Acho que fomos felizes no ano passado – o cartaz foi extraordinário e acho que foi mais ou menos consensual – e voltámos a ser felizes este ano, ainda por cima numa fase em que estamos a criar um novo calendário de festivais. Tradicionalmente, setembro já não tinha grandes festivais de verão na Europa, e a Last Tour está a fazer esse trabalho nos seus dois festivais simultâneos, que são o MEO Kalorama e o Cala Mijas, em Málaga, que partilham uma parte do cartaz, nomeadamente os headliners.

Isto para dizer que estamos a criar este novo espaço de música nesta altura do ano e, apesar de estarmos a programar numa altura em que tradicionalmente não há festivais, estamos a ser felizes e isso está a possibilitar, inclusive, assistirmos pelo segundo ano a um fenómeno interessante: artistas que terminam as suas digressões europeias no MEO Kalorama.

Há um elemento muito importante no MEO Kalorama, que sentimos no ano passado, que é um espírito festivo de fim de verão, antes de se começar a trabalhar e o retorno das aulas. É a grande festa da rentrée no coração do país

Isso enche-nos de felicidade, porque mesmo que quem já tenha visto alguns destes concertos previamente, vai ver um concerto diferente. Por exemplo, os Blur vão apresentar uma nova atuação, porque editaram um disco em julho, o primeiro em vários anos, e vão ter um alinhamento novo.

Por isso, acho que fomos muito felizes no ano passado e voltámos a ser muito felizes este ano, e isso prova que estas datas são acertadas. Até porque há um elemento muito importante no MEO Kalorama, que sentimos no ano passado, que é um espírito festivo de fim de verão, antes de se começar a trabalhar e o retorno das aulas. É a grande festa da rentrée no coração do país, na capital, que se faz numa altura em que estão 40ºC [temperatura à data da realização da entrevista]. Vamos ver como é que vão ser as noites. No ano passado, as temperaturas estavam incríveis e foi muito agradável estar no Parque da Bela Vista em três dias de música, arte e sustentabilidade.

É um pouco um fim e um arranque, sendo assim.

Já há festivais anunciados depois do MEO Kalorama e já começam a ser festivais indoor, com outro posicionamento e de outra natureza. Nós funcionamos como o último grande festival de verão europeu porque, de facto, de França para cima as temperaturas começam a estar mais fresquinhas, e aqui fazemos praia até quase ao final de outubro. É, de facto, essa celebração do fim do verão, e tem esse sabor festivo.

Quais as expectativas para este ano? Quantos festivaleiros é que são esperados na Bela Vista?

O recinto tem a mesma capacidade do ano passado. Portanto, neste momento estamos à espera, até ao último dia, de ver até onde podemos chegar a nível de afluência do público, pelo que está tudo em aberto.

No ano passado, afirmaram que pretendiam "estar cá muitos bons anos e fazer da música, arte e sustentabilidade os vértices para mostrar que [são] uma nova era de festivais". Consideram estar no caminho certo?

Sim. Temos uma política de sustentabilidade, e a sustentabilidade passa pelos vetores ambiental e socioeconómico. Portanto, trabalhamos em todas essas frentes com a organização e com os artistas, no sentido de os sensibilizar a não terem determinadas ações e a não usarem determinados materiais a nível cénico e de interação com o público que sejam poluentes ou que não aportem algo ao espetáculo e possam ser evitados.

Por exemplo, a grande instalação de arte do ‘Temple of Sound’ no Palco MEO, no ano passado, foi transformada numa ação de upcycling. Essas toneladas de lonas foram transformadas em pequenas obras de arte e oferecidas às pessoas que compraram os primeiros mil bilhetes para a edição de 2023.

Há um plano de cada um dos parceiros do que é que vai acontecer com os materiais. Muitos deles são reutilizáveis, ficam armazenados, já foram utilizados noutros festivais. Outros são reciclados, outros doados. Portanto, existe uma planificação a nível dos materiais e dos resíduos. É um evento com 0% de resíduos orgânicos em aterro; todos têm tratamento.

Temos quase 40% de mulheres e de representatividade LGBTQ+ – não falamos só de vocalistas e de artistas, mas de todas as mulheres que estão envolvidas no festival. Para nós é importante e não é deixado ao acaso. Temos isso em conta quando estamos a programar

No ano passado, conseguimos reciclar mais de sete toneladas de plástico. Este ano, queremos reciclar o mesmo ou menos ainda, pela simples razão de que estamos a tentar usar menos plástico. Tentamos também sensibilizar as pessoas para uma redução da utilização da água e do consumo de energia. No ano passado, doámos 4.100 refeições numa parceria com a Refood, que mantemos este ano. Portanto, a comida que não for consumida ou vendida será doada. Ou seja, a questão da sustentabilidade passa muito pela comunicação de comportamentos responsáveis, e essa comunicação é feita em todas as plataformas do festival.

Temos dois vetores importantíssimos dentro da sustentabilidade e, aí sim, a nível socioeconómico. Empregamos mais de 200 pessoas daqui do bairro como staff do festival, damos palco ao talento daqui do bairro, e temos uma preocupação a nível de programação quer na música, quer na arte de ter uma espécie de equidade entre artistas masculinos, femininos, e com representatividade LGBTQ+. Temos quase 40% de mulheres e de representatividade LGBTQ+ – não falamos só de vocalistas e de artistas, mas de todas as mulheres que estão envolvidas no festival. Para nós é importante e não é deixado ao acaso. Temos isso em conta quando estamos a programar.

Até porque ainda há um grande domínio do masculino na indústria da música, – e não só –, pelo que é quase uma lufada de ar fresco.

Sim. Por exemplo, temos uma headliner feminina, que é a Florence [Welch], mas os Arcade Fire também têm mulheres. Também é preciso dar algum tempo ao mercado para que tenha mulheres em quantidade suficiente, porque temos de ser realistas em como programamos. Obviamente que aspiramos a que este número seja crescente e cada vez mais equitativo, mas importa dar passos sólidos no sentido de ter este tipo de curadoria com este tipo de preocupação de representatividade, que não seja algo que perde de vista a programação em si. No fundo, temos de respeitar a parte da curadoria pura com a parte da representatividade. Fomos felizes no ano passado e ainda mais este ano.

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