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"Uma em cada 77 pessoas no planeta teve de fugir de casa"

Joana Brandão, a diretora nacional da Portugal com ACNUR, é a convidada desta terça-feira do Vozes ao Minuto.

"Uma em cada 77 pessoas no planeta teve de fugir de casa"
Notícias ao Minuto

21/03/23 por Ema Gil Pires

País Portugal com ACNUR

Quando falamos de crises de refugiados, o problema vai bem além do conflito que atualmente existe no leste da Europa, motivado pela invasão russa sobre a Ucrânia - ainda que a mesma tenha causado aquela que se diz ser a maior crise de refugiados no continente europeu desde a II Guerra Mundial.

Facto é que, segundo explicou ao Notícias ao Minuto Joana Brandão, a diretora nacional da Portugal com ACNUR, “uma em cada 77 pessoas no planeta teve de fugir de casa” devido a conflitos, catástrofes naturais ou, até, por motivos relacionados com as alterações climáticas, segundo o relatório semestral da agência das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), que apresenta dados referentes ao primeiro semestre de 2022.

Numa altura em que as consequências da mudança do clima em várias regiões do mundo começa a ser cada vez mais evidente, também se denotam os impactos diretos da mesma sobre muitas populações. Até porque, de acordo com dados de 2021 divulgados pelo ACNUR, contabilizavam-se já “21 milhões de pessoas” que foram “forçadas a fugir do seu país” devido a fatores relacionados com o clima.

No Vozes ao Minuto desta terça-feira, Joana Brandão realçou ainda que a literatura existente aponta para que “80% das pessoas que são forçadas a fugir” sejam “mulheres ou crianças”, trazendo um fator de “vulnerabilidade acrescida” a contextos que são, por si só, altamente desafiantes.

Por esse motivo, a solidariedade das populações a nível global apresenta-se fundamental para dar resposta à necessidade destes refugiados. Sobre esse tema, Joana Brandão elogiou a mobilização da sociedade portuguesa para ajudar e aderir às campanhas de angariação de donativos.

Existem cerca de 35 milhões de habitantes que escolheram permanecer na Ucrânia, e metade -  17,6 milhões - necessita de assistência urgente

Continuamos a ser, diariamente, bombardeados com as consequências derivadas do conflito que ainda decorre no leste europeu, motivado pela invasão russa sobre a Ucrânia. Que balanço é possível, de momento, fazer acerca do número de refugiados resultantes desta guerra?

Depois de um ano de conflito, aquilo que se vê é uma população muito afetada e muita gente em situação de vulnerabilidade na Ucrânia. De momento, existem cerca de 35 milhões de habitantes no país, que escolheram permanecer na Ucrânia, e metade -  17,6 milhões - necessita de assistência urgente. Ou seja, falamos de milhões de famílias. De referir ainda que existem oito milhões de pessoas refugiadas fora do país, como consequência do conflito, e 5,3 milhões de deslocados internos, no âmbito desta emergência na Ucrânia. O ACNUR está no país desde 1994, com muitas respostas ligadas à reconstrução de abrigos, a programas de habitação, e de proteção e assistência. Mas muito ligadas, também, a uma resposta de inverno, que é uma das preocupações do ACNUR, uma vez que as pessoas experienciam temperaturas muito baixas no país. Portanto, o ACNUR trabalha quer junto das pessoas que estão deslocadas internamente, quer de pessoas retornadas - que já ultrapassaram os quatro milhões -, e também a acompanhar os casos de pessoas que estão refugiadas noutros locais, sobretudo nos países vizinhos da Ucrânia.

Como explicou, o ACNUR tem trabalhado no sentido de prestar apoio às populações que ainda permanecem na Ucrânia. Este conflito, por si só, alterou o modo como está a ser feito esse mesmo trabalho no terreno? Surgiram novas necessidades e preocupações no decorrer deste período?

Sim, porque se há um ano as pessoas estavam em fuga e era preciso um apoio mais imediato e de emergência no que dizia respeito à sua deslocação, agora falamos de milhares e milhares de casas que estão destruídas ou parcialmente danificadas. O ACNUR tem, de momento, um programa de habitação, que se chama ‘Home’, em conjunto com o governo da Ucrânia. Isto quer dizer que há agora ajuda para as pessoas retornadas, que fugiram do país e que agora, no regresso, depararam-se com as suas casas destruídas e, por isso, não têm onde dormir de forma segura. Nesse aspeto a ajuda do ACNUR tem sido importantíssima, pois já ajudou na reconstrução de mais de seis mil casas recentemente. Na resposta de inverno, devido ao frio que se sente no país, mais de um milhão de pessoas foram apoiadas, também. Mas os desafios ainda são muitos. Ainda há muitas necessidades e as pessoas podem continuar a apoiar. E é esse, também, o papel da Portugal com ACNUR, ou seja, servir de intermediário para as pessoas poderem apoiar quem está a ser afetado por esta guerra e por muitas outras emergências. E podem fazê-lo no nosso ‘website’. 

Falamos de pessoas que precisam de uma casa alternativa temporária, de pessoas que dormem com temperaturas abaixo dos 20 graus negativos

E quais têm sido, de um modo concreto, os maiores desafios relatados à ACNUR por parte deste povo, numa altura em que permanecem ‘a braços’ com os esforços militares russos?

Muitas destas pessoas têm as suas casas danificadas. Falamos de pessoas que precisam de uma janela, de uma casa alternativa temporária enquanto a sua casa está a ser reconstruída, de pessoas que dormem com temperaturas abaixo dos 20 graus negativos. Estamos a falar de famílias e de crianças. Há também dificuldades no acesso à eletricidade. Uma das respostas que o ACNUR dá, por exemplo, passa pela criação de geradores que sejam de acesso público e coletivo, onde as pessoas possam aquecer a comida. Ou até mesmo ter acesso à Internet, que parece que é uma coisa irrelevante, mas as pessoas querem manter contacto com a família que, muitas vezes, está noutros países, preocupada. É importante lembrar que, quando a luz falta, durante horas e horas, as pessoas também ficam incontactáveis. 

Por outro lado, o escritório do ACNUR em Kyiv, por exemplo, tem mesmo um ‘bunker’, ou seja, uma cave onde os próprios colaboradores, quando há alarmes aéreos, têm de se refugiar durante várias horas. Isto faz parte do dia a dia destas pessoas, esta instabilidade relacionada com a falta de água e de luz, ou com um frio como não conhecemos aqui. A nossa temperatura não chega a estes graus negativos e lá é já, de facto, muito vulnerável a situação destas pessoas.

A ONU tem vindo, em algumas ocasiões, a relatar dificuldades na prestação de ajuda aos civis na Ucrânia, algo motivado também pelas limitações que um normal contexto de guerra impõe. Quais são, assim, os maiores obstáculos com que as equipas humanitárias no terreno se têm deparado?

Nós tivemos contacto com colegas que estiveram no terreno e que nos deram algumas informações sobre isso. De facto, depois de um ano de guerra, existem muitas estradas danificadas e muitas localidades com infraestruturas destruídas, como as centrais energéticas, que impactam todas as questões relacionadas com a eletricidade e a água. No caso das estradas, isso exigiu por parte do ACNUR um esforço extra para fazer mais do que aquilo que geralmente era feito, e para ir além dos obstáculos que existiam antes. Houve um esforço do ACNUR nesse sentido, de tentar chegar às localidades mais escondidas, àquelas que não são tão fáceis de aceder. Os elementos do ACNUR referiram exatamente isso, que existiram esforços grandes para dar resposta a esta situação. 

Os próprios combates no terreno apresentaram-se, também, como um obstáculo a ter em conta? Também dificultaram a prestação de auxílio?

Sim, no que toca à segurança dos colaboradores, das organizações e de parceiros do ACNUR, é, sem dúvida, uma situação muito delicada. 

Sentimos que as pessoas se mobilizaram, foram generosas e estavam recetivas, que sentiram empatia para com os ucranianos

Aquela que tem sido considerada a maior crise de refugiados na Europa desde a II Guerra Mundial levou a que muitos ucranianos fugissem para Portugal, local onde muitos deles tinham já familiares. Têm surgido relatos de que muitos destes refugiados têm dificuldades em encontrar alojamento ou trabalho, bem como em muitas outras matérias. Considera que o país pode trabalhar de outra forma para facilitar a integração destes indivíduos?

Neste âmbito posso dizer que sentimos que as pessoas em Portugal se mobilizaram, foram generosas e estavam recetivas, que sentiram empatia para com os ucranianos, que receberam as crianças nas escolas e estas pessoas nas suas localidades. Eu acho que, no caso desta emergência, houve aqui uma proximidade que, de certa forma, facilitou o processo de integração. Ao nível da sensibilização, uma das nossas áreas principais, como parceiro nacional do ACNUR, passa por fazer ações em escolas - ou seja, trabalhar com crianças, jovens, professores e auxiliares, e partilhar um pouco daquilo que são estes conceitos, estas vivências, o contexto e realidade destas pessoas refugiadas. Mas também o trabalho do ACNUR, para as pessoas poderem aceder a informação credível, a casos reais, àquilo que são as respostas existentes, e até à forma como podem ajudar.

A Portugal com ACNUR desenvolve, em território nacional, algumas iniciativas para dar resposta a várias emergências de teor humanitário, como acontece com a guerra na Ucrânia. No que toca a este conflito no leste europeu, que ações estão em curso?

Falamos de respostas de proteção de assistência, e respostas que envolvem, não só, uma ajuda monetária, que é uma resposta importantíssima para quem ficou com o emprego limitado, para quem ficou com muitos mais obstáculos na sua vida. O ACNUR tem esta resposta importantíssima de assistência monetária, para ajudar com as despesas do dia a dia destas pessoas, mas também apoio legal, apoio psicossocial, e a tal resposta de inverno - que é, de facto, uma das mais importantes nesta fase -, e de reconstrução de habitações. 

Na população da Síria, com cerca de 21 milhões de pessoas, mais de 70% das mesmas precisam de assistência humanitária

Outra situação humanitária bastante problemática vive-se na Síria, mesmo já antes dos terramotos que assolaram o país, mas também a Turquia. Que balanço podemos fazer da realidade atual nesse país, e que perspetiva temos para a evolução da mesma?

O cenário é muito dramático, porque, de facto, se acabámos de falar de uma guerra que dura há um ano, aqui falamos de uma crise que dura já há 12 anos. Datas que são tudo menos para comemorar, antes pelo contrário, mas nós assinalamos para recordar as pessoas de que a Síria, já vinha, há 12 anos, a sofrer uma situação gravíssima, que afetou milhões de pessoas. Posso partilhar que na população da Síria, com cerca de 21 milhões de pessoas, mais de 70% das mesmas precisam de assistência humanitária. Estamos a falar de 15,3 milhões de pessoas, o que é dramático. São muitas famílias. Nós aqui falamos de números, mas a verdade é que aqui em causa estão pessoas: crianças, adultos ou idosos. A representante do ACNUR na Síria referia isso mesmo: que são 12 anos de um conflito de medo, de desespero, de frustração, de 6,8 milhões de deslocados internos, ou seja, de pessoas em fuga dentro do país, que se deslocaram das cidades onde viviam para outras cidades na Síria. Em causa está o número maior de deslocados internos no mundo. São números muito dramáticos e a verdade é que as pessoas continuam a fugir. 

O número de que falei, de 15,3 milhões de pessoas que precisam de assistência humanitária, é o número mais alto desde que começou a crise na Síria, e este número foi registado em janeiro, portanto ainda nem sequer tinham acontecido os terramotos. Portanto, imagine-se como deve estar a situação agora. Estamos perante uma dupla crise. 

Podemos dizer que esses terramotos que assolaram a Síria, mas também a Turquia, complicaram a situação no terreno e fizeram nascer novas necessidades de assistência humanitária?

Só na Síria, quase nove milhões de pessoas foram afetadas por estes terramotos. Falamos de zonas onde já viviam milhões de pessoas deslocadas, nomeadamente no noroeste do país, onde vivem 4,4 milhões de pessoas que já estavam dependentes de ajuda humanitária. São, portanto, pessoas que vivem em abrigos muito frágeis, pessoas que já sofreram muito, porque vivem há anos com uma esperança que, entretanto, ficou perdida: a de poder regressar a casa. Estas pessoas sofreram agora as consequências destes abalos - tal como aconteceu na Turquia, onde existem também muitas pessoas refugiadas, que é um dos países que mais acolhe. 

Mas, no caso da Síria, estão em causa pessoas que passam por uma situação de frio muito rigoroso. Nesse âmbito, o ACNUR acionou, em setembro do ano passado, a campanha de assistência ao inverno. Mais de três milhões de pessoas necessitam de resposta a este nível e 1,8 milhões de pessoas já receberam apoio neste âmbito - e falamos aqui de cobertores térmicos, camas, lonas, colchões, muitas vezes ‘kits’ de roupa de inverno. Ou seja, tudo aquilo que possa ajudar estas pessoas que ficaram, novamente, com a sua vida destruída, e que estão agora ainda mais vulneráveis devido a uma conjuntura política e económica muito afetada. É importante referir que se registou, novamente, um surto de cólera, e que serviços básicos que temos como garantidos em Portugal estão lá destruídos, portanto as pessoas não têm acesso a muitos serviços. 

É uma situação sem um fim à vista. Decorreram 12 anos e há toda uma geração de crianças que nunca foram a sua casa, que sempre viveram em fuga. É um sofrimento gigante e, de facto, resta-nos a nós, que temos uma situação mais ou menos estável, ajudar e estar atentos. Ou seja, saber destas situações e que temos um papel muito importante na ajuda a estas pessoas, bem como ao ACNUR e às organizações parceiras no terreno.  

80% das pessoas que são forçadas a fugir são mulheres ou crianças, portanto há aqui uma vulnerabilidade acrescida neste contexto

A violência de género é, em termos concretos, uma das principais preocupações em emergências humanitárias. Quais os principais desafios que existem nesse âmbito, e que intervenção no terreno tem existido para combater esses casos?

No âmbito dos terramotos, e no contexto da Síria, só este ano foram reportados mais de seis mil vítimas de violência de género. É um dos desafios, por parte do ACNUR e destas organizações, quer nos campos de refugiados, quer nos contextos de abrigo, para garantir que as pessoas têm privacidade, que se sentem seguras e que não há, por exemplo, sobrelotação dos campos e dos espaços onde as pessoas acabam por ficar. Uma das coisas que o ACNUR faz, por exemplo, e que é tão simples, passa por distribuir fechaduras, ou ‘kits’ de higiene, e de proteção e redução de risco, porque, de facto, as mulheres são vulneráveis a estas situações. Estes contextos de deslocação também aumentam as ameaças de tráfico, de violência e abuso sexual, pelo que é de facto uma preocupação e uma das áreas em que o ACNUR atua. Refira-se ainda que 80% das pessoas que são forçadas a fugir são mulheres ou crianças, portanto há aqui uma vulnerabilidade acrescida neste contexto.

Como podem os portugueses, então, ajudar o ACNUR a prestar auxílio ao povo afetado por estes terramotos e, também, pela crise que existia já na Síria? Que iniciativas estão em curso?

Relativamente aos terramotos, nós acionámos logo, a 6 de fevereiro, uma campanha de angariação de fundos para as pessoas poderem contribuir, com o valor monetário que tivessem capacidade, através do nosso ‘website’. As pessoas que possam dar mais, nós agradecemos, quem só puder dar menos, que dê menos, e aqui falamos até de valores simbólicos que permitem a doação de um cobertor térmico a uma família, de vestuário de inverno, ou de meios de aquecimento, para as pessoas terem uma noção e poderem equiparar o montante que vão doar àquilo que possa ser, depois, entregue no terreno. Os fundos recolhidos em Portugal são, finalmente, enviados para o ACNUR com a indicação das emergências a que se destinam. E o ACNUR precisa, de facto, destes apoios, pois os desafios são enormes.

É importante também dizer que há muitas organizações no terreno, o que é importantíssimo, e que o ACNUR está na Síria desde 1991, portanto tem muita experiência e conhece muito bem este país e esta realidade, porque já atuava na crise dos refugiados e dos deslocados. Conta com mais de 400 colaboradores, portanto, atuou, no caso dos terramotos, desde o primeiro dia, porque já estava no país. 

O ACNUR calcula que, só para apoiar na Síria as 380 mil pessoas que, de momento, precisam de ajuda, são necessários 48 milhões de euros. É, de facto, importantíssimo as pessoas perceberem que têm do seu lado uma força para dar esperança a cada uma destas pessoas. Muitos de nós também temos muitos problemas graves, mas é importante saber e lembrar que estão milhões de pessoas a depender destas organizações. São pessoas que acordam de manhã e precisam de qualquer coisa para se aquecerem, algo para comer, apoio psicológico ou legal, ou assistência monetária, que também é prestada na Síria. As pessoas, quando ficam sem casa, precisam de dinheiro para poder voltar a tratar dos seus assuntos, para voltar a reerguer-se e levar a sua vida em frente, para ganhar esperança quando a mesma está quase apagada nas suas vidas.

Falamos de mais de 100 mil famílias, só na Síria, que foram deslocadas devido aos terramotos

Qual o impacto destas campanhas de angariação de fundos? Quantas pessoas foram já auxiliadas graças às mesmas em território sírio?

Com os donativos recebidos, falando aqui do apoio a nível global, já foram apoiadas 280 mil pessoas. Falamos aqui de pessoas que receberam itens de primeira necessidade (quase 200 mil), de pessoas que receberam tendas e abrigos (quase 20 mi)l, de pessoas que receberam serviços de proteção, ou até mesmo fraldas. São detalhes em que às vezes não pensamos, mas existem por lá idosos, pessoas com deficiência. Estas pessoas também são afetadas e o ACNUR trabalha com as entidades parceiras, na medida do possível, tendo em conta a oposição e a situação de conflito no país. Com algumas limitações, claro, mas tem feito chegar ajuda a muita gente. O que falta? Para a assistência de inverno, falta continuar a apoiar as pessoas que ficaram com as casas destruídas e deslocadas. Falamos de mais de 100 mil famílias, só na Síria, que foram deslocadas devido aos terramotos. 

Também demos assistência a mais de 10 mil crianças com atividades didáticas - pois há muitas crianças que acabaram por perder o acesso à escola. Até porque este tipo de situações acaba por afetar cidades inteiras, pois falamos de milhares de casas e edifícios que foram destruídos. 

Como classifica a adesão dos portugueses a todas as iniciativas que a Portugal com ACNUR tem em curso? Tem sido considerável ou fica ainda aquém daquilo que seria de esperar?

Cabe-nos a nós, entidades que trabalhamos nestas áreas da angariação de fundos, saber chegar rápido às pessoas com a informação e os apelos certos. Temos de ser rápidos no contexto destas emergências, e temos de fazer um trabalho sério, transparente, empático, e fornecer dados atuais. Como nós existimos só há pouco mais de um ano, esta foi a primeira campanha de emergência que fizemos, pois quando começou o conflito na Ucrânia nós ainda não tínhamos capacidade para receber donativos. E, nesse momento, houve um misto de sensações, porque nós também somos pessoas e sofremos com as notícias que nos chegam destes cenários - e, de repente, temos de parar todo o nosso trabalho, acionar a campanha, articular com os outros países, e falar com os colegas da Síria e da Turquia, para sabermos que dados podemos avançar ao público e, diariamente, atualizá-los em todas as fontes. Mas assim que acionámos a resposta, recebemos, nos primeiros dias, centenas de donativos. Portanto, também ficámos felizes, porque temos conseguido trabalhar em equipa e reagir rápido, e pela generosidade das pessoas, porque ela existe. 

É, de facto, comovente ver tantas pessoas a doarem valores elevados, ou a doarem valores pequeninos, ou a quererem dar outro tipo de ajuda. E ver, ainda, empresas a contactar-nos. Tudo isto foi muito intenso e ficámos com muita esperança, de facto, porque as pessoas ajudam. E nestas emergências o nosso coração bate mais rápido. Ver as famílias, pessoas que perderam uma vida inteira. É muito difícil, mas pelo menos sabemos que estamos do lado da ajuda. A única coisa à qual nos podemos agarrar nestes dias de sofrimento é saber que, pelo menos, quem sobreviveu pode contar com algum tipo de ajuda a todos os níveis.

Uma em cada 77 pessoas no planeta teve de fugir de casa porque era perseguida, por conflitos, ou por catástrofes naturais

Facto é que esta questão dos refugiados é um problema de caráter global, que vai bem mais além das situações vividas na Ucrânia, Síria e Turquia. Contas feitas, quantos refugiados existem, de momento, internacionalmente? E, para além destas que já abordámos, que outras situações se apresentam como as mais problemáticas?

Os dados mais atualizados constam do relatório semestral do ACNUR relativo ao primeiro semestre do ano passado, que dão conta de que se registaram 103 milhões de pessoas forçadas a fugir em todo o mundo. Isto quer dizer que uma em cada 77 pessoas no planeta teve de fugir de casa porque era perseguida, por conflitos como o da Ucrânia, ou por catástrofes naturais como a da Turquia e da Síria, ou a do Paquistão que ocorreu no ano passado. Ou até, por exemplo, em Moçambique, onde há muito furacões e outras situações muito complicadas. Portanto, este foi um número recorde tem por base aquilo que é o registo do ACNUR nos mais de 70 anos da sua operação. A situação é muito dramática, porque já teríamos história suficiente para conseguir que a população vivesse uma situação mais segura e menos arriscada, para que as pessoas não tivessem de fugir. O que preocupa, então, o ACNUR? A questão do clima, por exemplo, que é cada vez mais importante. O relatório global do ACNUR, relativo a 2021, reportava 21 milhões de pessoas que fogem da sua casa e são forçadas a fugir do seu país devido ao clima. Ao nível de exemplos práticos, temos o caso de países como a Somália, em que se registam fenómenos de seca. A seca não rega as hortas, e são as hortas que alimentam as populações. Portanto, as pessoas têm de agarrar nos filhos e andar a pé, dias e dias, em busca de uma vida e de uma nova casa. Estamos a falar de necessidades básicas. Aqui nem falamos de um conflito ou de outro tipo de perseguição, falamos simplesmente da própria terra que não permite às populações viverem. Essa é uma das grandes preocupações.

De facto, o alto-comissário da ONU para os Refugiados, Filippo Grandi, alertou no final do ano passado que a pobreza, a escassez de alimentos e as alterações climáticas serão fatores agravantes das crises que estão agora em curso, prevendo, assim, que a situação de refugiados pudesse piorar ao longo deste ano. Os dados começam a apontar já neste sentido? E o que podemos nós fazer, enquanto comunidade, para dar resposta a tal cenário?

Os dados mostram isso mesmo. E, de facto, o alto-comissário da ONU, até na Cimeira do Clima do ano passado, mencionou algo que é muito importante: as pessoas mais afetadas pela crise climática são aquelas que menos contribuem para a mesma. Por isso, o que eu acho que as pessoas podem fazer é informar-se e acompanhar estas organizações. Acompanhar os conteúdos das organizações como o ACNUR e outras que trabalhem nesta área da crise climática é importante, porque estas organizações conhecem o terreno, investigam, fazem relatórios. Nós também disponibilizamos conteúdos, fazemos ações de sensibilização sobre esta temática. 

Aproveito para dizer, também, que vamos lançar em breve uma campanha sobre o clima e a fome, duas crises que ‘andam de mão dada’, porque é, precisamente, um tema importantíssimo para as pessoas mais novas, para as mais velhas, e essencialmente para as crianças, que ainda têm o futuro pela frente - para poderem mudar aquilo que ainda é possível mudar e, sobretudo, para terem acesso à informação e conhecerem a realidade destas pessoas. Isto porque, para nós, pode não ser ainda muito claro o que é isso de não ter água ou de sofrer uma tempestade como numa antes vista e que, de repente, desloca uma ou várias cidades inteiras.

[Notícia atualizada às 12h50 com a alteração de que "uma em cada 77 pessoas" - e não "uma em cada 67 pessoas" - se encontram em fuga em todo o mundo]

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