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Ser drag queen. "No futuro, talvez não estejamos só nos espaços noturnos"

No mês em que se comemora o Pride e se celebra os direitos que a comunidade LGBTQI+ já conquistou, a drag queen Sylvia Koonz conta um pouco da sua história ao Vozes, do Notícias ao Minuto.

Ser drag queen. "No futuro, talvez não estejamos só nos espaços noturnos"
Notícias ao Minuto

01/06/22 por Beatriz Maio

País Mês Pride

Pedro Delgado, conhecido como Sylvia Koonz, é uma drag queen icónica do nosso país. Em 2020, participou em vários programas televisivos, interpretou ‘The Edge of Glory’ de Lady Gaga no The Voice, participou no Got Talent Portugal com mais três drag queens e foi jurada do All Together Now. Em 2017, ano em que pisou um palco pela primeira vez como Slyvia, venceu o concurso Miss Drag Lisboa.

Com 26 anos, é natural de Abrantes, onde viveu até aos 18 anos, altura em que se mudou para Lisboa para estudar Sociologia. Cresceu num meio pequeno onde a comunidade LGBTQI+ não fazia parte do seu dia a dia - apenas sabia que existia através da Internet.

"Achava giro, fascinava-me, mas nunca foi algo que pensei que queria fazer ou que queria saber mais sobre", revelou, ao contar que se refugiava "no computador", onde fez amigos virtuais, através de jogos online, que mais tarde conheceu em Lisboa. Nessa altura, a sua vida "mudou muito", deixou de passar tanto tempo na Internet e começou a explorar mais ao seu redor.

Em conversa com o Notícias ao Minuto, contou a sua história e recordou o contacto que teve, em 2015, com a arte drag na primeira vez que saiu à noite em Lisboa, no Trumps, local onde agora trabalha.Lembro-me de entrar, olhar e ver a Rebecca Bunny no palco a atuar. Fiquei muito fascinado e disse a uma amiga 'um dia vou estar ali'

Como criaste a identidade da Sylvia? 

Foi no final de 2016, quando conheci o João Caeiro, que também faz drag. Ele é Cher No-Billz e fazia show no ‘Lugar Às Novas’, às segundas-feiras, no Finalmente Club, outro espaço de drag queens, onde qualquer pessoa que quisesse pisar o palco podia atuar no próprio dia - o que deixou de existir com a pandemia, mas era muito giro. Ele atuava todas as segundas-feiras, era uma boa forma de ganhar experiência e de dar a conhecer o trabalho ao público, no início. Quando o via, ficava com muita vontade de experimentar, mas nunca tinha tido coragem, até que um dia, ele e outros amigos disseram-me: "Na próxima semana vais fazer drag, vais-te maquilhar e vais pisar o palco".

Maquilhei-me pela primeira vez com a Cher No-Billz, que é a minha 'mãe drag', porque foi a que me ajudou no início (era das minhas maiores referências porque, na altura, era-me das pessoas mais próximas). Acabei por pisar o palco, mas não esperava gostar tanto.

Notícias ao MinutoPrograma The Voice© D.R.  

Quanto tempo demorou até chegares à drag que hoje Portugal conhece como Sylvia Koonz? Foi um processo ou soubeste logo as caraterísticas que a Sylvia teria?

No início era muito feio... Fazia as sobrancelhas quase no final da testa. Foi tudo uma adaptação e evolução, desde a maquilhagem a todo o visual, das perucas à roupa. A identidade que tenho hoje não tem nada a ver com a que tinha na primeira vez que subi a palco. Usei uma peruca preta, o que hoje em dia já não faço, e a minha maquilhagem… Posso dizer que estava horrível.

Acho que não há a Sylvia Koonz de hoje porque estamos sempre a evoluir, mas talvez tenha sido em 2019 que comecei a pensar ''ok, isto sou mesmo eu'.

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© D.R.  

Quais são as tuas inspirações?

Em termos visuais e estéticos não tenho inspirações fixas, inspiro-me pelo que vejo, mas claro que todas as pessoas que trabalham comigo no Trumps, a Rebecca Bunny, a Lola Bunny, Lexa Black, a Marge Mellow são uma inspiração. Acabam por me influenciar muito porque tornamo-nos uma família, damo-nos mesmo muito bem. Maquilhamo-nos quase sempre todas juntas e vemo-nos durante a semana também, inspiramo-nos muito umas às outras.

As pessoas que me rodeiam são as que mais me inspiramFora do Trumps, considero que a Lady Gaga é uma inspiração muito grande, não em termos visuais, mas na garra e no espírito que tem, e é incrível. Também a Pablo Vittar porque é uma drag queen que é cantora tem conseguido conquistar muito, tendo sido a primeira drag a atuar no Coachella. Tenho ainda outras, gosto muito do humor da Trixie, gosto da Bianca Del Rio e da Sasha Velour.

Em Portugal, maioritariamente só se consegue trabalho como drag queen em casas noturnas e na noite. Infelizmente, durante o dia não há muitas opções

Quando soubeste que ser drag poderia ser uma profissão? 

Tinha noção, mas não sabia exatamente como, antes de vir para Lisboa. Sabia que existiam drag queens, mas nunca tinha aprofundado muito, apenas quando comecei a sair à noite é que me percebi que era possível. Por exemplo, nos Estados Unidos da América é completamente diferente do que no nosso país. Em Portugal, maioritariamente só se consegue trabalho como drag queen em casas noturnas e na noite. Infelizmente, durante o dia não há muitas opções.

Nós podemos sair da nossa bolha, da comunidade, podemos fazer outras coisas, mas às vezes parece que choca e não nos chamam por isso, por sermos drag queens. O que faz sentido visto que, se não é algo que é considerado comum, é normal que as pessoas fiquem chocadas ou que não percebam no início, mas acho que estamos no caminho certo, pode ser que no futuro já não estejamos só nos espaços noturnos.

O que representa para ti a Sylvia?

A Sylvia acaba por ser a diva pop que tenho dentro de mim. Lembro-me de ter 13 anos, estar obcecado pela Lady Gaga e, depois de tomar banho, meter a t-shirt na cabeça e a toalha à volta do corpo, como se fosse um vestido, enquanto fingia que cantava em frente ao espelho. Já era a minha diva pop a querer sair. Agora faço isso, mas faço-o a sério para um público.

O que sentes quando sobes a palco?

O que sinto em relação à Sylvia mudou muito desde o início. Sempre tive fobia de público e apresentações, lembro-me que na escola bloqueava e não conseguia fazer apresentações, então a primeira vez que subi a palco e atuei fiquei surpreso comigo mesmo. Senti que a Sylvia, no início, deu-me muita força e autoestima o que, com o tempo, foi mudando. Quando comecei a trabalhar no Trumps e a ficar mais conhecido, comecei a sentir que as pessoas gostavam mais da Sylvia do que do Pedro. Lembro-me até de desabafar com amigos e perguntar: 'O quê que a Sylvia tem a mais do que o Pedro?', mas entretanto percebi que é normal. 

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Penso que são fases, é normal acontecer porque damos muito de nós à nossa drag. Eu rapo as sobrancelhas, já não compro tanta roupa para mim, invisto mais na Sylvia. Comecei a sentir que estava a investir demais e que as pessoas a preferiam, mas hoje em dia já estou bem com isso, efetivamente não faço distinção entre a Sylvia e o Pedro. Dou o exemplo da Lady Gaga, que se designa assim para o público, mas para os amigos é a Stefani. Considero que é a mesma coisa comigo, eu sou a Sylvia e para os meus amigos sou o Pedro, não faço distinção, embora existam pessoas que separam, eu não o faço. A Sylvia tem os mesmos ideais que o Pedro, tem a mesma personalidade, se calhar um bocadinho mais 'loud' porque vestido como Sylvia fico mais confiante, é toda uma transformação.Ser drag já nem é vestir como diva ou de mulher, o conceito mudou muito. Drag é usar elementos femininos e masculinos e misturá-los

Acho que o conceito de drag evoluiu muito. No meu círculo de amigos e a maioria das drag queens com quem trabalho também não considera que é uma personagem, consideramos que é uma parte de nós, a nossa parte artística, de performer, mas há drag queens que são mesmo personagens. Há drag queens que são mais masculinas e outras mais femininas. Drag é sobre explorar o género e até fazer uma paródia com o que sociedade defende como o que é ser homem e mulher. Acabamos por explorar um bocadinho isso e fazer com que o cérebro das pessoas dê um nó.

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Como surgiu a oportunidade de ser jurada no All Together Now? O que significou poder representar a comunidade drag num programa nacional? 

Antes do All Together Now participei no The Voice e, embora não tenha passado na prova cega, deixei a minha marca. Apesar de só ter lá estado dois dias, o dos ensaios e da prova cega, foi uma experiência que marcou-me muito. A produção, que era a mesma do All Together Now, gostou de mim e convidou-me para ser jurada.

Tinha-me inscrito para participar no programa e fui ao primeiro casting. Passado uma semana, quando me ligaram achei que seria para informar que tinha passado, mas era a convidar-me para ser jurada e disse logo que sim! Foi uma experiência muito gratificante, apesar de serem muitas horas, o dia de gravações durava entre 9 a 12 horas, porque gravávamos dois programas. Gosto muito de trabalhar em televisão, acho que é uma experiência muito boa, conheci pessoas que não estava à espera, que cresci a ver em programas televisivos. Foi muito giro!

No The Voice senti muita responsabilidade de representar as drag queens, o que afetou-me muito porque não queria 'desapontar a minha comunidade’. No All Together Now já não pensei assim, disse até aos meus amigos que quem quisesse que se sentisse representado por mim, porque acho que não somos todos iguais. Sinto que fiz um bom trabalho e não fiz nada que envergonhasse a comunidade drag ou as pessoas que gostam de mim.

Notícias ao MinutoPrograma All Together Now© D.R.  

Que mensagem acreditas que a Sylvia transmite?

Embora soe a cliché, a mensagem da Sylvia é para que não se pense muito no que os outros dizem, a vida é só uma. Não devemos estar preocupados com o que os outros podem ou não dizer ou se os outros vão ou não aceitar ou respeitar. O mundo é feito da diferença, não gosto de dizer que somos todos iguais, acho que somos todos diferentes e não há nada de errado nisso. A diversidade deve ser celebrada e não censuradaQual é a importância de se celebrar o mês Pride?

Este é um mês não só para celebrar o que já conquistamos e relembrar que ainda existe muito por lutar na nossa comunidade, como também prestar homenagem a todos os que sofreram e até perderam a vida a lutar pelos direitos LGBTQI+. Embora muitos pensem que a homofobia, transfobia, bifobia, entre outros, já não existe, é uma realidade. Nunca fui violentado fisicamente por ser homossexual ou por ser drag queen, mas ouço muitos comentários e tenho amigos que, por terem uma expressão de género mais feminina ou usarem roupas mais extravagantes ouvem muitos comentários, portanto é importante relembrarmos que há ainda muito a fazer, não só na nossa comunidade como no mundo, em geral.

A comunicação social, principalmente as televisões, transmitem uma ideia muito errada da marcha porque só filmam as drag queens ou as pessoas mais excêntricas, para chocar. Mas a marcha não é só isso, estão lá todo o tipo de pessoas, desde a pessoa mais discreta à mais extravagante. Acho que a comunicação social deveria abordar a razão de se realizar a marcha e não só mostrar certas partes.

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