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"A minha vida de seis em seis meses volta à estaca zero"

Fátima Lopes, estilista portuguesa internacionalmente reconhecida, é a entrevistada de hoje do Vozes ao Minuto.

"A minha vida de seis em seis meses volta à estaca zero"
Notícias ao Minuto

16/07/19 por Liliana Lopes Monteiro

Lifestyle Fátima Lopes

Medo não é uma palavra que se aplique a qualquer coleção ou criação da estilista. Conhecida pela sua excentricidade, estilo exuberante e disruptivo, a madeirense Fátima Lopes, que completou em fevereiro 20 anos de participação na Semana da Moda em Paris, jamais havia imaginado na sua juventude que a moda pudesse ser de facto uma profissão a 'sério'. 

Todavia, e como partilhou com o Lifestyle ao Minuto, a criatividade nasceu consigo. E por mais que a vida lhe tentasse mostrar outros rumos cedo se tornou claro que o único caminho estava para além da ilha onde nasceu ou da profissão de guia turística que desempenhou, entre os 18 e os 22 anos, e que foi a "escola" da sua vida. Estava, antes, no continente, na Europa e no Mundo - e no Universo da Moda. 

"Comecei com uma loja muito pequenina na Avenida de Roma, a Versus, com 40 metros quadrados, que vendia coisas importadas. Ou seja, o quê que eu fiz? Abri em 1990 uma das primeiras 'concept stores' em Lisboa (que agora estão tanto na moda)", explica a estilista sobre o começo da sua carreira. 

Todavia, e apesar do sucesso internacional, em Portugal, Fátima Lopes sentiu inicialmente alguma resistência às suas criações, numa altura em que o que era 'estrangeiro era sempre melhor'. "Só quando fui aceite em Paris é que de repente me tornei 'boa' cá", desabafa. 

Dos 40 metros iniciais 'A Criadora Portuguesa' ou 'La Creátrice Portuguaise' (como é conhecida em França) criou o seu próprio universo, tornando-se, duas décadas depois, a única sobrevivente portuguesa na Cidade das Luzes. Em fevereiro deste ano assinalou-se o 41.º desfile da estilista em Paris, onde apresentou uma verdadeira homenagem a Portugal. 

“Comecei em março de 1999, quando toda a gente dizia que era impossível. Teimosamente, vim e nunca mais parei”, afirma a designer.

Sem receios e com uma contínua vontade de inovar e de fazer sempre mais, melhor e diferente, mas mantendo sempre o seu cunho, Fátima Lopes falou com o Lifestyle ao Minuto acerca da sua jornada até ao topo daquela que é a sua "única paixão, a paixão": a moda. 

Quando é que começou a interessar-se pela moda? Foi um sonho de infância?

Acho que nasci para isto, não tenho memória de em criança gostar de alguma coisa que não fosse de roupinhas e bonecas. Tudo o que gostava tinha a ver com desenho de roupa, nunca tive paciência para brincadeiras ditas de ‘rapazes’ ou de jogos. Com cinco ou seis anos já chorava porque não queria vestir determinadas peças. Jamais fui aquela pessoa que não tinha noção do que queria.

Nunca divagou para outras áreas?

Tinha os pés assentes na terra e por isso decidi estudar turismo, fiz toda uma formação de línguas e de cursos técnicos. Tive sempre em mente que vivia numa ilha e que lá nunca seria o sítio para realizar esse sonho. Naquela altura era algo impensável, como tal nunca tive ideia que queria de facto trabalhar com moda, ou seja que isso poderia sequer ser uma opção de trabalho ou de carreira. Mas a verdade é que o estilismo nasce ou não nasce connosco, e eu acho que já nasci com uma mente criativa, mas direcionada, logo com um estilo muito próprio. A verdade é que nunca ninguém me conseguiria mudar ou me transformar em termos daquilo que é o meu estilo criativo e de moda. Tudo isto vem desde criança.

A Madeira será sempre a minha terra natal, onde está a minha família, o meu porto seguro, onde vou várias vezes por ano, mas para mim não era o sítio para viver, era um meio demasiado pequeno para tudo aquilo que eu queria conquistarChegou a trabalhar na área do turismo?

Sim, tinha muito jeito para línguas e numa ilha turística como a Madeira toda a minha formação foi direcionada para a área do turismo. A minha primeira profissão foi de agente turística, trabalhei na área durante quatro anos, mas sempre com a moda dentro de mim. Foi também este primeiro trabalho que me abriu os horizontes, porque com 19 anos comecei a viajar pelo mundo. O meu trabalho era na verdade, a profissão de sonho para qualquer miúda daquela idade.  Este 'papel' fez de mim várias coisas. Costumo dizer que foi a minha grande escola de vida porque naquela idade viajava pelo mundo e era responsável por grupos enormes, de 50 pessoas às vezes. Por vezes viajava para sítios onde nunca tinha estado antes e eu era a guia! Estudava em casa informação sobre o país, a cidade ou os monumentos e fingia que já lá tinha estado inúmeras vezes, quando tantas vezes era a primeira vez que lá ia. Está a imaginar? Simplesmente tinha que me desenrascar, aprendi a ser autónoma. E sim, adorei trabalhar em turismo tornou-me parte do que ainda sou, mas lentamente começou a desenvolver-se um bichinho por algo mais...

Quando começou a desenhar as suas criações?

Logo em criança. O desenho era uma coisa que sempre gostei, simplesmente nasci com jeito para o desenho, evidentemente que não tinha noção do que era uma coleção ou como se fazer uma coleção. Há coisas que não se explicam porque nem toda a gente nasce com a consciência daquilo que quer mas eu nunca precisei de fazer testes psicotécnicos para saber aquilo que gostava. 

Como teve início a sua carreira?

Ao viajar comecei a aperceber-me como era o mundo da moda e comecei a perceber que 'OK' na Madeira não era possível… foi assim que ao final de quatro anos decidi deixar a profissão de guia turística e começar do zero. Já tinha alcançado uma boa posição na empresa, tinha a minha vida completamente organizada e estável, e era feliz naquilo que fazia. No entanto, deixei tudo e vim para Lisboa. Os meus amigos brincavam comigo ‘o que vais fazer para Lisboa? Dou-te um mês’ diziam. Porque de facto ninguém acreditava que fosse maluca ao ponto de deixar tudo o que tinha e começar do zero. Seguir algo que era uma verdadeira incógnita, mas esse era o sonho! O meu sonho! Ou seja, a partir de determinada altura já não era um coisa impossível. À medida que comecei a conhecer o mundo que também comecei a entender que queria o mundo – fosse para o que fosse. Já não era opção ficar num meio pequeno. A Madeira será sempre a minha terra natal, onde está a minha família, o meu porto seguro, onde vou várias vezes por ano, mas para mim não era o sítio para viver, era um meio demasiado pequeno para tudo aquilo que eu queria conquistar. E naquele momento já nada me parava, fosse para trabalhar em turismo ou fosse para trabalhar no que fosse, na minha cabeça decidi sempre que iria tentar fazer tudo o que fosse possível para seguir o meu sonho que era a MODA.

E onde foi esse início? Em Lisboa? Não teve medo da mudança?

Apesar de tudo sempre fui uma pessoa muito sensata, desde muito nova tive consciência da realidade, nunca fui aquela pessoa lunática que se atira de cabeça sem pensar. Posso dizer que arrisquei bastante ao deixar tudo, mas também não tinha medo porque sabia que acontecesse o que acontecesse conseguiria trabalhar em qualquer parte do mundo numa coisa ou noutra. Sabia que tinha conhecimentos para fazer aquilo que quisesse. Nunca tive medo, a palavra medo nunca fez parte do meu vocabulário. Quando temos duas mãozinhas para trabalhar e uma cabeça não temos que ter medo – vamos à luta e as coisas acontecem. Também reconheço que provavelmente era demasiado destemida por ser algo típico da idade, quando se tem 20 anos não se tem medo de nada (risos), e acreditava que de uma forma ou de outra iria sempre conseguir realizar os meus objetivos. Contudo quando vim para Lisboa tinha consciência que não percebia nada de moda, percebia muito de turismo mas de moda não percebia nada.

Esse impacto com a realidade foi complicado?

Sabia uma coisa: tinha ideias, tinha um estilo que era só meu, ou seja nunca fui aquela pessoa que questionava o que devia fazer ou usar, na minha cabeça sabia tudo o que eu queria, mas também sabia que em termos práticos não sabia de facto nada do que era fazer moda. 'No mundo real como se constrói uma coleção?' Não fazia ideia e não tinha como, não tinha meios.

Como deu esse salto?

Em Lisboa comecei literalmente do zero. Inicialmente abri uma loja muito pequenina na Avenida de Roma, a Versus, com 40 metros quadrados, que vendia coisas importadas. Ou seja, o que é que eu fiz? Abri em 1990 uma das primeiras concept stores em Lisboa (que agora estão tanto na moda). E o que é que eu fazia? Viajava, que lá está era algo a que já estava habituada. Ia a Paris, a Milão ou a Londres comprar peças que ninguém tinha. Tinha as peças mais originais, peças que em Portugal só existiam na Versus, desde ténis de salto alto do Jean Paul Gaultier, a óculos de high tech design, a tudo o que pudesse imaginar. Naquela altura havia uma grande carência em Portugal por moda, não havia nada. Pode dizer-se que havia uma sede e fome de moda. E de certa forma a Versus era um ponto de referência e estava completamente à frente do seu tempo Durante os dois anos que tive a Versus tirei aquilo a que eu chamo o 'meu curso de moda'. Ia buscar informação a tudo o que pode imaginar às principais capitais de moda, visitava todo o tipo de feiras de moda em Paris, Londres e Milão.

Não disse a ninguém que aquelas peças eram desenhadas por mim e quando as pendurei nos cabides, vendeu-se tudo quase de um dia para o outro!Quando se apercebeu que seria finalmente capaz de criar as suas próprias coleções?

Ao fim de dois anos senti que já era capaz. Percebia de tecidos, já conseguia imaginar e criar uma coleção. E então o que fiz? Confecionei uma mini coleção de 20 peças e não lhe chamei ‘Fátima Lopes’ não tive coragem (risos), chamei-lhe Versus e coloquei à venda na Versus no meio das outras peças importadas para ver qual era a reação dos clientes. Não disse a ninguém que aquelas peças eram desenhadas por mim e quando as pendurei nos cabides, vendeu-se tudo quase de um dia para o outro! E foi aí que eu percebi mesmo ‘Ok, está na altura’. A partir daí em vez de viajar para comprar peças, sapatos e acessórios, comecei a viajar para ir comprar tecidos. E comecei também a preparar o meu primeiro desfile que aconteceu no Convento do Beato em setembro de 1992.

Como foi a receção do público a esse primeiro desfile?

Eu já era conhecida pela Versus, portanto na altura já se falava de mim porque tinha a loja mais ‘estranha’ de Lisboa, até revolucionária vá (risos). A Moda Lisboa tinha decorrido um tempo antes e foi naquele interregno que apareceu a Fátima Lopes. O desfile no Convento do Beato foi uma apresentação completamente fora da caixa: em vez de ser uma passarelle tinha sete pódios espalhados pela sala e o espaço estava todo em 'blackout', apenas os pódios estavam iluminados. As pessoas estavam sentadas todas viradas umas para as outras e de repente aparecia uma manequim ali e depois surgia outra acolá. Na altura foi algo completamente revolucionário, nunca ninguém tinha feito nada igual. Comecei por fazer coisas que nunca tinham sido feitas no nosso país e o sucesso foi imediato. Nessa altura o meu mundo mudou e não me consigo imaginar a fazer outra coisa.

Havia quem odiasse e quem amasse. Mas ninguém ficou indiferente, e a verdade é que nunca tive a intenção de agradar a todosA crítica foi favorável?

Enfim, havia quem odiasse e quem amasse. Mas ninguém ficou indiferente, e a verdade é que nunca tive a intenção de agradar a todos. Tinha o meu estilo e não queria nem saber, quem não gostava, aliás até me ria – acho que era a inconsciência da juventude (risos). Não tinha preocupações porque se vendia muito naquela altura, não tinha que me preocupar comercialmente. Às vezes chegava de Paris e passado uma semana já tinha vendido tudo e tinha que me enfiar de novo num avião e voltar. Nos anos 90 era assim, não havia absolutamente nada, as pessoas compravam tudo e era tudo caro. Ou seja, este foi o meu início e, de uma certa forma, acabou por ser fácil, porque foi numa altura em que não havia nada e acabei por trazer uma lufada de ar fresco para Lisboa.

Em algum momento sentiu que as coisas se tornaram mais difíceis?

Se calhar foi mais difícil depois. Quando a ‘máquina’ começou a crescer, porque inicialmente era uma coisa pequenina, só eu e uma funcionária, portanto era negócio certo. Depois assim que a ‘máquina’ começou a expandir tornou-se tudo mais complicado, a responsabilidade cresceu. Tal como cresceram as expetativas e financeiramente também se tornou mais pesado.

Contudo, e apesar da resistência inicial a Fátima sempre vendeu bem as suas peças.

Os meus clientes faziam parte de um nicho. Eram os jovens com uma mentalidade aberta e cultos, que tinham sobretudo uma cultura de moda. Havia na altura uma ‘movida’ muito grande. Tínhamos uma juventude que tinha sede de conhecimento, pessoas viradas para as artes e esses eram os meus clientes. O meu núcleo duro era a onda do Bairro Alto, das noites áureas da 'movida' portuguesa.

De que modo surgem as ideias e inspiração para as várias coleções que produziu nas últimas décadas?

A inspiração vem de tudo. De mim própria, as minhas vivências, as viagens, tudo aquilo que me acontece no dia a dia. Por exemplo, para a última coleção o tema era evidente. Eu fazia 20 anos em Paris, e sendo o primeiro e único português a desfilar lá há 20 anos, na minha cabeça só havia um tema possível, que era Portugal.

E a entrada no mundo da moda em Paris, como foi?

Quando comecei ser português era um grande ‘handicap’, em Paris as pessoas não acreditavam que eu era portuguesa e diziam sempre ‘c'est pas possible, não há portuguesas assim em Portugal’ e é claro que eu dizia que há, achavam que de portuguesa não tinha nada. Havia uma ignorância tão grande relativamente a Portugal que a ideia dos franceses e que hoje em dia mudou muito (atualmente estão todos histéricos e querem todos viver no nosso país) era apenas a da empregada da limpeza, das porteiras e dos homens das obras. Eles acreditavam que todas as portuguesas tinham bigode e pelos nas pernas, literalmente – chegaram-me a dizer isso e olhavam para mim e pensavam que estava a brincar.

A reação portuguesa a essa tentativa de entrar no mundo da moda em França foi encorajadora?

Quando decidi que ia começar a desfilar em Paris, cá em Portugal, ninguém acreditou. As pessoas pensaram que era impossível um português entrar assim no mundo da moda, não era aceitável. Porque os franceses são snobs, porque os franceses nunca iriam aceitar e isso não é verdade. Nós temos que primar pelo profissionalismo, pela diferença e a partir daí em Paris a moda é internacional, a moda não é francesa, nunca foi. Paris é a capital da moda porque recebe todas as nacionalidades e porque estão lá criadores do mundo inteiro. Mesmo relativamente às marcas francesas a maioria dos criadores não são franceses e, claramente, a moda não tem nacionalidade.

Sempre exigi ser reconhecida como portuguesa! Coisa que na altura era rara, muitos portugueses que estavam em França fingiam que eram estrangeiros, tinham vergonha de ser de cá, havia uma sensação de inferioridadeSentiu algum tipo de preconceito?

Posso dizer que quando cheguei a Paris fui muito bem recebida, nunca fui descriminada, sempre fui respeitada. Mesmo assim como já lhe disse achavam que eu de portuguesa não tinha nada e é claro que eu achava que sim. Sempre exigi ser reconhecida como portuguesa! Coisa que na altura era rara, muitos portugueses que estavam em França fingiam que eram estrangeiros, tinham vergonha de ser de cá, havia uma sensação de inferioridade. Eu sempre me senti orgulhosa do meu país. Sempre exigi que se escrevesse Fátima Lopes com ‘s’ e não com ‘z’ (na terminação de ‘Lopes’), porque o francês não é capaz de dizer Lopes sem lhe dar aquela pronúncia espanhola. Sempre me chamaram ‘La creátrice portuguaise’ ('A Criadora Portuguesa'). E porque sempre fui 'A Criadora Portuguesa', lá está o tema tinha que ser Portugal. 

Como correu esse icónico desfile e o que significou para si?

Pela primeira vez desfilei na embaixada de Portugal, pela primeira vez coloquei Fado como banda sonora – o tema era Portugal, a inspiração era Portugal, desde a calçada portuguesa aos azulejos, tudo de uma forma muito subtil, muito moderna – o ‘meu’ Portugal. E o meu Portugal é um país moderno, não é o país antigo do 'xaile e da desgraçadinha', o meu Portugal é um Portugal moderno e atual. O país do sol, das praias, da simpatia, do calor humano e que tem inovação. No desfile tentei dar um toque de modernidade à tradição, era Fado mas Fado com house (risos). E foi muito engraçado porque tive alguns portugueses a assistirem ao desfile, o que também não é habitual, mas como era na embaixada muitos foram convidados. Inclusive houve um senhor que escreveu na minha página de Facebook algo que jamais esquecerei, disse-me que chorou de emoção e de orgulho por ser português em França, porque estava no Salão Nobre da Embaixada e o mundo naquele momento estava todo ali, toda a imprensa internacional, todos se rendiam em homenagem a Portugal. Algo que para quem é emigrante lá há muitos anos é muito complicado. A maioria infelizmente passou por muito, e eu não porque a mim viam-me como a ‘exceção’ daquilo que é ser português. Quis homenagear esses portugueses. 

Sente responsabilidade por ser uma embaixadora do nosso país?

Sempre senti isso. Mesmo que inconscientemente porque mal cheguei a Paris, senti que tinha que mudar a imagem que tinham de Portugal, o que achavam de nós irritava-me, e revoltava-me profundamente também a vergonha que os portugueses que lá viviam acabavam por sentir da sua nacionalidade. 

Como é para si profissionalmente estar há 20 anos a representar lá Portugal anualmente?

Quando trabalho não penso ativamente nisso, não é importante, o importante é fazer um bom trabalho. Quero somente superar-me a mim própria. Possivelmente foi com este último desfile que senti mais pressão, com esta ideia do patriotismo, de ser um marco de 20 anos. Porque até então não pensava nisso, era sempre apenas uma coleção ou só mais uma, entre as de cento e tal criadores durante sete dias na Semana da Moda em Paris. Ou seja, ao fim de 20 anos e 41 desfiles quase que se tornou algo normal. O primeiro é aquela coisa, ao fim de 10 ou 15 anos já faz parte da minha vida. Quando termino um desfile, significa que o trabalho está feito e já estou a pensar no seguinte, com a consciência de que tenho que fazer melhor do que o anterior.

Só faz sentido apresentar coleções em Paris no sentido em que se trata de uma montra para ser vista pelo mundo inteiroO vestido preto, em seda, com fios prateados, que encerrou este último desfile foi encomendado pela cantora norte-americana Beyoncé, como se sentiu?

Lá está isso tem muito a ver com aquilo que se passa lá fora e há 20 anos que digo isto, que vou a Paris para apresentar a coleção ao mundo porque senão ficava quieta em casa. Ou seja, só faz sentido apresentar coleções em Paris no sentido em que se trata de uma montra para ser vista pelo mundo inteiro. A coleção chegou à Beyoncé através da imprensa internacional e aconteceu, depois do desfile encomendou-o, o vestido foi feito à medida dela e enviado. Posso dizer que apesar dessa ter sido nos últimos tempos a ‘grande’ noticia sobre a Fátima Lopes, para mim significou muito mais estar a desfilar há 20 anos em Paris, 41 desfiles depois. Porque gosto de desenhar tanto para cidadãos anónimos como para estrelas. Aliás, nem gosto da palavra ‘estrela’.

Até ao momento tem alguma coleção favorita?

Tenho a sorte de gostar quase sempre mais da atual. Porém, tenho uma predileção pelas coleções de inverno. E é claro que há coleções que, por um ou outro motivo, vão ficar para sempre na minha memória para o resto da vida. Por exemplo, a coleção que integrou o já mítico biquíni de diamantes ficará para a história. Lembro-me também de uma coleção em que todas as peças eram brancas, o desfile foi todo branco, as manequins todas brancas, uma passarelle branca, com luzes led brancas, acessórios brancos e tudo mais que possa imaginar - um conceito que à partida seria monótono e que acabou por ser extremamente criativo, porque se traduziu em mil cores de branco. Recordo ainda uma outra coleção em que o tema era o corpo humano e cujo desfile se realizou no Museu do Armamento, onde está sepultado Napoleão e de outra que decorreu no topo da Torre Eiffel. Sem dúvida, há coisas que serão eternas.

A Fátima também desenha para homem. Esse processo difere das coleções femininas?

Desenhar para homem é mais fácil, acaba por ser menos criativo, mas gosto. Digo mais fácil no sentido de que a roupa de homem diferencia-se mais por detalhes subtis de design, porque quando se exagera acho que se estraga, enquanto que em termos de feminino não há limites para a imaginação, para o homem isso não acontece. Prevalece uma maior descrição. E é verdade que acaba por ser mais normal e natural desenhar para mulher porque no fundo estou a desenhar para mim, aquilo que eu gosto de vestir.

É critica do seu trabalho?

Sim, aliás acho que sou a pessoa mais critica quando se trata de avaliar aquilo que desenho e produzo. Por vezes, há coisas que não são tão bem conseguidas e antes dos outros criticarem, estou cá eu para fazer isso. Não sou aquele tipo de pessoa que se acha a melhor e que supostamente não comete erros, de todo. Sou humana e obviamente que cometo erros, e é claro que estou sempre a aprender.

Como é que vê a moda em Portugal no geral? Acha que já está ao nível internacional de países como a França, Itália ou Estados Unidos?

Há 20 anos, se a indústria portuguesa tivesse tido a visão – como os italianos ou os franceses – que agarrando os criadores, os tais miúdos ‘malucos’ que na altura não respeitavam, podiam construir impérios, talvez hoje em dia Portugal fosse um país de referência mundial de moda, que não é. Nós somos um país de indústria, não somos um país de referência de design, porque a nossa indústria nunca o quis.

A minha vida de seis em seis meses volta à estaca zero. Tenho sempre de me reinventar e é isso que me faz acordar todos os dias com entusiasmo e com um sorriso na caraAcha que isso está a mudar?

Hoje em dia é fácil arranjar trabalho com muitas fábricas. Atualmente, os industriais já abriram os olhos e reconhecem que as marcas portuguesas são uma mais valia. Antigamente a indústria achava que era mais fácil trabalhar para os estrangeiros, queriam ganhar dinheiro, mas não queriam correr riscos. 

O que ainda não conquistou no mundo da moda e gostaria de realizar?

Falta-me fazer tudo, no mundo criativo ainda está tudo por inventar e ainda bem. A minha vida de seis em seis meses volta à estaca zero. Tenho sempre de me reinventar e é isso que me faz acordar todos os dias com entusiasmo e com um sorriso na cara. O mundo da moda tem tanto de difícil como de aliciante. Quero trabalhar para o resto da minha vida, pelo menos até poder. Não me quero reformar nunca. A não ser que me obriguem.

Considera-se uma mulher à frente do seu tempo?

Acho que sim, desde sempre e isso de certa forma acabou por prejudicar a minha carreira em Portugal, mas não lá fora – pelo contrário. Aliás, só tomei consciência de que estava no caminho certo quando comecei a desfilar em Paris. Mas cá estive sempre à frente do meu tempo. E como já disse havia quem amasse e quem odiasse. A verdade é que nunca quis ser uma criadora para agradar a toda a gente, se não faria t-shirts e calças de ganga. Sempre tive um estilo muito próprio e jamais me importei com a opinião dos outros.

Sentiu que o panorama da moda e da sociedade portuguesa estava preparada para a sua chegada no início dos anos 90?

Grande parte da imprensa portuguesa, só considerava bom aquilo a que chamavam as 'tendências'. E o que eram as tendências no início dos anos 90? As cópias do que os outros faziam lá fora. Eu nunca fui cópia de ninguém, sempre recusei esse papel. Como eu não era a cópia de ninguém muita gente achava que o que eu fazia não era relevante ou tendência. Para quem não tinha uma cultura de moda real, não percebia, simplesmente porque eu era diferente. Nessa época ser diferente não era bom.

Mas de algum modo acabou por beneficiar dessa diferença?

Sim. Todavia, foi essa diferença que me abriu as portas em Paris. Porque eu era única. Eu cheguei a Paris como uma criadora. Por si só ser criador de algo implica ser único, ter o seu estilo. Ser igual aos outros é cópia. E agora fazer com que as pessoas entendessem isso em Portugal… Só quando comecei a desfilar em Paris e fui aceite em Paris é que de repente me tornei ‘boa’ cá. Esta era a mentalidade da altura. Só era bom quem vencia e era reconhecido lá fora ou então quem copiava aquilo que os outros estilistas internacionais faziam. O que sempre me chocou. Tenho consciência que apresentei coisas em desfile que só passados dois anos as pessoas cá em Portugal queriam comprar.

Nunca se sentiu intimidada por de algum modo em Paris estar ao lado dos 'gigantes' da moda?

A marca Fátima Lopes estava tão mais enquadrada no panorama internacional do que propriamente no nacional. E a minha preocupação também sempre foi fazer uma coleção internacional que estivesse ao lado dos grandes, dos 'gigantes', das multinacionais. Sempre fui independente, dona do meu nariz, nunca pertenci a nenhum grupo, mas em termos criativos nunca tive medo de competir com os grandes ou de estar ao lado dos melhores, apesar de não ter o poderio financeiro dos outros. E ainda hoje em dia continuo a não ter medo. 

A Fátima dos anos 90 é a mesma atualmente?

Quando comecei admito que era muito exagerada, sobretudo antes de Paris. Hoje em dia até me rio de algumas coisas que fiz na altura. Realmente quando somos jovens não temos medo de nada. Achava que valia tudo. E é claro que a idade também nos torna mais sensatos e evoluímos, da mesma forma que os tempos também mudaram. Aquela loucura dos anos 90 fez parte de um momento especial na história da moda, em que se buscava novidade e havia uma fome insaciável pela diferença e pela ousadia.

 Ser empresário em Portugal é ser maluco. Nunca foi fácil, nem seráReferiu que nunca pertenceu a nenhum grupo ou multinacional. Sempre foi fácil manter o seu negócio?

Nunca foi fácil, nem nunca será. Ser empresário em Portugal é ser maluco. Ser empresário é estar constantemente a arriscar, porque é sempre responsável por tudo - quando corre bem e sobretudo quando as coisas correm mal. Atualmente para mim ainda é mais difícil, porque no início não há comparação e agora já há uma ‘máquina montada’, com dezenas de funcionários.

A grande crise de 2008 teve um impacto no seu negócio?

Claro, também passei dificuldades. Fui obrigada a fechar uma fábrica e foi duro, mas felizmente sempre soube tomar as medidas certas e necessárias para poder continuar. Porque às vezes temos que tomar medidas que não gostamos.

Na sua opinião Portugal poderá algum dia ser uma referência no mundo da moda?

Portugal só não será uma referência no mundo da moda se não quiser, porque temos indústria de qualidade. Ninguém tem melhor indústria do que nós. Não me venham dizer que Itália é melhor porque não é. Temos a melhor qualidade de preço e temos criadores. Todavia, é necessário que haja vontade e que haja sobretudo visão, mas eu digo isto há quase 30 anos e naquela altura ainda se riam da minha cara. Lá está acabei por abrir uma fábrica porque não tive alternativa ou abria a fábrica ou não fazia nada. Sozinho, ninguém neste mundo faz nada. E é verdade que na moda para que tudo corra bem, temos que ter as parcerias certas, tem que ser ‘win, win’ - temos que ser vencedores dos dois lados, há que haver uma sinergia entre indústria e moda. 

Hoje em dia quem é que compra Fátima Lopes?

Atualmente é muito transversal, vai da neta à avó, da adolescente à empresária, a adeptos de alta costura. Vendo desde ténis a sapatos altos de agulha, desde t-shirts muito ‘casual’ para todas as idades até t-shirts para empresas (atualmente estou a fazer uma coleção para a TAP), ao vestido de gala ou ao ‘tailler’ para a executiva. Ou seja, os meus clientes não têm idade, têm sim o estilo – o meu estilo.

Falando da TAP, a Fátima chegou a fazer a dada altura uma coleção para a Seleção Nacional de Futebol, como é que isso aconteceu?

Fiz durante anos. Aconteceu depois do Euro 2004 e para ser honesta nem sequer gostava de futebol, odiava. Mas durante essa competição o Paulo Sousa, da Federação Europeia de Futebol, e a mulher dele, a Cristina Muller, convidaram-se para ir para um camarote assistir a todos os jogos e surpreendentemente dei por mim pela primeira vez a vibrar por futebol. O Paulo Sousa tinha jogado em Itália, país onde a imagem até no desporto é extremamente importante, todos os jogadores italianos são vestidos por criadores. Como tal perguntou-me se eu gostaria de desenhar os uniformes, a minha única condição foi que pudesse desenhá-los à minha maneira. A partir daí vesti durante sete anos a seleção Nacional.

Há três anos fiz os polos da Repsol de todo o país, e também me dedico a móveis ou têxteis de lar, etc.Um criador de moda pode ter então vários projetos?

Completamente. Neste momento estou a fazer as fardas de todos os futuros funcionários do novo hotel Savoy Palácio que vai abrir brevemente na Madeira – desenhei para este hotel mais modelos do que produzo para um desfile de moda e está a dar-me um gozo enorme. Mas não é o único, também faço as fardas do hotel Conorado, do Hilton, e de outros. Por exemplo, há três anos fiz os polos da Repsol de todo o país e também me dedico a móveis ou têxteis de lar, etc. O meu mundo não é estanque, criar é uma coisa que faço facilmente. Desde que me deem liberdade para criar à minha maneira estou feliz. 

O que ainda está por fazer?

Acho que um dia gostaria de escrever um livro sobre todas as pessoas únicas e momentos que fui conhecendo nesta trajetória. De episódios hilariantes e de viagens que fiz. Já desfilei na Coreia do Sul logo a seguir ao 11 de Setembro em 2001, fui daqui com uma equipa de dezenas de pessoas e fomos todos completamente aterrorizados. Já desfilei também no Brasil, em Angola, em Moçambique, por toda a Europa, na Turquia, fiz as primeiras ‘fashion-weeks’ na Grécia… há histórias para a vida e todas elas me enriqueceram de alguma forma e fazem parte de mim. Todas as coisas que fiz ao longo dos anos tornaram-me a pessoa que sou hoje.

Essas ‘aventuras’ também lhe servem de inspiração e moldaram a sua forma de estar como criadora e patroa?

Sempre fui uma pessoa simples, não tenho paciência para arrogâncias, para estrelatos, para pessoas que têm a mania que são importantes. Longe de mim. Por que acho que quanto mais nós andamos neste mundo mais percebemos que não somos donos de nada. Hoje em dia o meu objetivo de vida é ser feliz, fazer aquilo que eu gosto, que é um privilégio, para mim trabalhar é uma excitação, animação e emoção diária. Eu gosto realmente disto. Gosto de conviver com as pessoas, por exemplo aqui no atelier eu e a equipa comemos todos os dias juntos. Gosto de estar ao lado das pessoas e detesto ser a patroa, gosto de ser a líder porque são os líderes que inspiram. Sou incapaz de dar uma ordem, se tiver que dar uma ordem já não quero, não trabalho com pessoas a quem tenha que dar ordens. Há pessoas que querem ser as melhores do mundo, ora eu nunca quis ser a melhor do mundo até porque acho que na moda isso não existe. Acho que existem pessoas diferentes, há criatividade e muitos estilos e agora tenho consciência que é tudo um misto de 50% talento e 50% de muito trabalho.

É esse também o segredo do seu sucesso?

Sim é necessário ter algum talento, mas é sobretudo preciso muito trabalho. E trabalho com prazer e com gosto. Para mim vir trabalhar todos os dias é um verdadeiro prazer, o meu trabalho não é nem nunca foi uma chatice. 

Há alguma personalidade que ainda não vestiu e que gostaria de vestir?

Costumo dizer que para mim toda a gente é importante, tanto o anónimo que ninguém sabe quem é como figuras públicas. Mas tenho a sorte de já ter vestido muita gente, seja em Portugal, seja lá fora.

E há alguém que já vestiu e que a marcou?

Ter sido escolhida, por exemplo, pela Jane Birkin que teve 20 anos sem cantar e que quando regressou aos palcos há 15 anos me escolheu para a vestir. Desde essa altura até agora a Jane Birkin nunca mais usou roupa em espetáculo algum que não fosse Fátima Lopes, ou seja a Hermés homenageou a ela com a icónica mala Birkin e ela de uma certa forma homenageou-me a mim. Na altura disse a toda a imprensa que o vestido da Fátima Lopes lhe tinha dado vontade de cantar, coisa que ela não tinha a 20 anos. Fiz-lhe uma série de vestidos todos iguais, ela só quer aquele vestido em vermelho de seda comprido e posso dizer que para mim tudo isto foi absolutamente fantástico. 

Durante a minha carreira só fui verdadeiramente fã de um criador: Alexander McQueen (...) Fiquei destroçada quando ele morreu, porque foi e continua a ser a única pessoa da qual fui verdadeiramente fã incondicionalmenteJá está a pensar na próxima coleção?

Sim, já estou a pensar nela. Estou neste momento a desenhar sapatos, até porque a época começa com a Feira de Calçado em Milão e em simultâneo estou a criar para dois hotéis.

E sabe o que vai apresentar para o ano em Paris?

Ainda não, mas está na hora de avançar para a parte criativa das coleções. Sou muito organizada e escolho trabalhar por objetivos, sempre em frente. Quando acabo uma coisa estou já pronta para avançar para o próximo projeto – next!

Tem outros criadores que admire, ídolos até?

Antes de começar no mundo da moda era uma grande fã do Jean Paul Gaultier e da Vivienne Westwood, não me revia propriamente no estilo deles mas naquela ‘loucura saudável’ que emanavam, ou seja apreciava-os pela sua irreverência. Já durante a minha carreira só fui verdadeiramente fã de um criador que infelizmente já morreu o Alexander McQueen, e que para mim foi o génio do século. Fiquei destroçada quando ele morreu, porque foi e continua a ser a única pessoa da qual fui verdadeiramente fã incondicionalmente.

Projetos para o futuro?

Continuar e continuar. Trabalho e mais trabalho. Quero criar até morrer, se deus quiser. Enquanto tiver saúde quero continuar, porque no fundo é isto que me faz viver. É a minha grande paixão. É a paixão.

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