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"Sem psicólogos, Ministério da Saúde manter-se-á um Ministério da Doença"

A importância dos psicólogos na sociedade é um dos temas abordados por Francisco Miranda Rodrigues, bastonário da Ordem dos Psicólogos Portugueses, na entrevista de hoje - Dia Internacional da Saúde Mental - do Vozes ao Minuto.

"Sem psicólogos, Ministério da Saúde manter-se-á um Ministério da Doença"
Notícias ao Minuto

10/10/18 por Patrícia Martins Carvalho

País Francisco Rodrigues

No mês passado realizou-se o quarto Congresso da Ordem dos Psicólogos Portugueses. Na reunião, que teve lugar em Braga e na qual estiveram presentes 1.800 profissionais nacionais e estrangeiros, discutiram-se vários problemas e desafios que os psicólogos enfrentam, em especial em Portugal.

Francisco Miranda Rodrigues, o bastonário da Ordem dos Psicólogos Portugueses, frisa ao Notícias ao Minuto que o consumo de embalagens de antidepressivos duplicou, o que significa que “algo está mal” e que é necessário “mudar este cenário”.

A palavra de ordem é, sem dúvida, a “prevenção”, pois é uma forma de poupar, não só a saúde mental dos portugueses - o Dia Internacional da Saúde Mental assinala-se esta quarta-feira -, como também a saúde das finanças dos utentes e até do Estado.

O especialista admite que existiu até há pouco tempo um estigma em relação à profissão e, principalmente, face a quem recorria a um psicólogo, mas este é um cenário que tem vindo a mudar, fruto da intervenção das grandes empresas que já perceberam que "colaboradores felizes são colaboradores que produzem mais e melhor".

Que temas foram discutidos no Congresso da Ordem dos Psicólogos Portugueses?

Debateram-se áreas emergentes da psicologia como o e-health, a inteligência artificial, qual o papel dos psicólogos na construção de locais de trabalho saudáveis, qual o papel dos psicólogos nos processos de envelhecimento, assim como a importância da psicologia e dos psicólogos na definição de políticas públicas. 

E temos vindo a observar uma ‘desmistificação’ da saúde psicológica e do papel do psicólogo na sociedade. Mas ainda existem alguns escolhos A psicologia ainda é o ‘parente pobre’ da Saúde?

Sim, mas embora ainda o seja, a verdade é que o paradigma está a mudar. Todos os dias há notícias sobre psicologia ou que contam com a opinião de um psicólogo. E temos vindo a observar uma ‘desmistificação’ da saúde psicológica e do papel do psicólogo na sociedade. Mas ainda existem alguns escolhos que terão de ser ultrapassados. 

Que obstáculos são esses?

Por exemplo, surpreende-nos que continuemos sem resposta na habilitação para a docência no Ensino Secundário da disciplina de Psicologia, a ainda não criação do psicólogo do trabalho à semelhança do médico do trabalho, ou, na área da saúde, outra valorização dos atos dos psicólogos e correspondente pagamento direto dos mesmos sem prescrição médica na ADSE ou noutros seguros de saúde. 

Qual é o grande objetivo da Ordem?

É garantirmos uma maior aposta na prevenção, no desenvolvimento das pessoas e na coesão social. Acreditamos que estamos no caminho certo e que os nossos objetivos estão a ser, ou virão a ser, atingidos. Agora, para continuarmos nesta senda, o Governo, partidos com assento parlamentar e demais entidades responsáveis têm de manter abertos os canais de comunicação com a Ordem. 

Que papel desempenha o psicólogo na sociedade portuguesa?

Ainda existe uma ideia de que o psicólogo só atua em situações limite, o que não corresponde à verdade. Os psicólogos são determinantes na prevenção e no desenvolvimento das pessoas. A verdade é que somos os profissionais mais aptos para trabalhar a mudança comportamental. 

O psicólogo está ainda muito preso às suas áreas tradicionais de atuação?

Começamos agora a verificar uma maior procura de psicólogos na área comunitária, na justiça, no marketing, no desporto, entre outras. Já nas organizações há uma maior aposta na psicologia e uma maior preocupação com o bem-estar físico e psicológico dos trabalhadores. No fundo, os líderes das organizações começaram a ganhar consciência de que colaboradores felizes são colaboradores que produzem mais e melhor. Mas ainda estamos no princípio de uma longa caminhada. 

A psicoterapia corresponde a um conjunto de técnicas e procedimentos, por isso, não pode ser entendida como uma profissão

Por que razão é contra a criação da profissão de psicoterapeuta?

A prática da psicoterapia está regulada, por isso não é necessária qualquer profissão, nem a mesma faz sequer sentido. A psicoterapia corresponde a um conjunto de técnicas e procedimentos, por isso, não pode ser entendida como uma profissão, mas sim como um método de intervenção utilizado por diferentes profissionais. 

Considera que há riscos na criação da profissão de psicoterapeuta?

A prática psicoterapêutica abusiva, inadequada e sem a devida formação e regulação por parte das respetivas Ordens profissionais acarreta riscos para a saúde mental dos utentes. Estes riscos não são acautelados pela facilitação económica e mercantilização do acesso através da criação da profissão ou atividade económica de psicoterapeuta. 

O que espera dos decisores políticos?

Com base nestes pressupostos, na defesa da saúde pública e de acordo com o disposto na lei, os decisores políticos irão, certamente, manter a prática psicoterapêutica sob a alçada das Ordens, como a dos Psicólogos e dos Médicos, e pelas próprias associações já existentes. Qualquer decisão contrária poderá colocar em risco a saúde pública e será muito complicado resolver este potencial problema. Esperamos também que haja coragem para o desenvolvimento da lei dos atos em saúde que viria a esclarecer muito neste âmbito e proteger mais os cidadãos no acesso aos cuidados de saúde. 

É preciso acelerar o passo e continuar a contratar psicólogos. Caso contrário, o Ministério da Saúde irá manter-se como o 'Ministério da Doença'  O Ministério da Saúde lançou, recentemente, concursos para a contratação de 40 psicólogos para os centros de saúde. É suficiente?

É um importante e primeiro passo, pois o último concurso foi há bastantes anos. Contudo, é preciso acelerar o passo e continuar a contratar psicólogos. Caso contrário, o Ministério da Saúde irá manter-se como o ‘Ministério da Doença’ - um termo utilizado pelo próprio ministro da Saúde. 

Qual é o cenário que se vive nos centros de saúde?

Na área dos cuidados de saúde primários há menos de 250 psicólogos, sendo que é necessário o dobro para ter uma cobertura que permita um trabalho adequado nos diversos programas preventivos. Mas acreditamos que o Orçamento do Estado para 2019 irá considerar a possibilidade da contratação de mais profissionais para o SNS, nomeadamente para os cuidados de saúde primários, como aliás foi assumido pelo ministro e pelo secretário de Estado-Adjunto da Saúde. 

O que representa, para a saúde pública, a existência de menos de 250 psicólogos nos centros de saúde?

Representa uma espera de muito tempo pela primeira consulta e até pelas sessões seguintes, que podem demorar até um ano. Ora isto não é apostar na prevenção, tal como pretende e apregoa o Governo. 

E em termos de custos?

A intervenção psicológica é custo-efetiva. A Ordem, inclusivamente, já apresentou um estudo com os valores de possíveis poupanças ao Ministério da Saúde. Depois, não é só a poupança financeira que defendemos, mas também a poupança do sofrimento dos portugueses, tal como já afirmava o meu antecessor. 

Há baixas médicas desnecessárias pagas pelo Estado. Algo está muito mal e temos de mudar este cenário.As doenças do foro psicológico pesam muito na carteira dos portugueses?

Só para ter uma ideia, entre 2013 a 2016, o consumo de embalagens de antidepressivos duplicou, enquanto foram diagnosticadas perturbações depressivas em 9,3% dos utentes. Só em 2016, os portugueses gastaram mais de 200 milhões de euros com antidepressivos. Entretanto, e para piorar, quase 65% de pessoas com perturbações mentais moderadas e 33,6% com perturbações graves não receberam cuidados de saúde mental adequados. E isto para não falar nas baixas médicas, por vezes desnecessárias, e pagas pelo Estado. Algo está muito mal e temos de mudar este cenário.

Como?

Os psicólogos serão tão mais eficazes quanto mais cedo e preventivamente puderem atuar. A Ordem está a fazer o seu trabalho - vide, por exemplo, a proposta que apresentámos de um Programa Nacional de Prevenção da Depressão. Agora cabe ao Governo dar seguimento aos passos que já foram dados e, não só contratar mais psicólogos para o SNS, como também definir bem a sua distribuição face às necessidades regionais existentes. 

E nas escolas? Qual é o panorama em termos de número de psicólogos?

Se nas escolas privadas já se verifica uma forte aposta nos serviços de psicologia, nas escolas e agrupamentos de escolas públicas ainda temos um longo caminho pela frente. Contudo, também aqui têm sido dados importantes passos. 

Que passos são esses?

No último ano foi possível aumentar o número de psicólogos (já existem mais de mil) nas escolas e agrupamentos de escolas públicas, tendo havido a recondução de centenas destes profissionais nos dois últimos anos letivos. Refira-se ainda que há espaço para a contratação de 100 novos profissionais (o ano letivo passado entraram 204 novos).

Por que motivos é necessário haver psicólogos nas escolas?

Não só porque são eles que fazem o diagnóstico e acompanhamento das crianças com Necessidades Educativas Especiais, que ajudam a combater o abandono escolar, que tratam questões relacionadas com o bullying e cyberbullying e que fazem também todo um trabalho de desenvolvimento de carreira e orientação vocacional, como também porque quanto mais rápida e eficazmente um psicólogo atuar junto de uma criança, menor será a probabilidade de se desenvolverem problemas psicológicos potencialmente graves. 

O que se está a assistir agora é à dinamização do papel dos psicólogos em áreas menos conhecidas ou exploradas 

Considera que ainda existe um estigma relativamente aos psicólogos?

O estigma está a desaparecer gradualmente e a sociedade já reconhece o papel do psicólogo. Para isto contribui a presença de psicólogos nas escolas e, de forma pontual, em algumas empresas. Também é cada vez mais comum encontrarmos psicólogos nos mais variados contextos, como no desporto, em lares e centros de dia, na área comunitária, entre outros. Mas o que se está a assistir agora, e que a Ordem tem vindo a trabalhar, é à dinamização do papel dos psicólogos em áreas menos conhecidas ou exploradas. 

Que áreas são essas?

São áreas como como o e-health, a literacia financeira, a inteligência artificial, as fake news, o marketing e comunicação… E o que é facto é que cada vez mais organizações destas áreas estão a explorar as ciências psicológicas para desenvolver o seu negócio e produtos, pois os psicólogos são os profissionais mais aptos para trabalhar a mudança comportamental. 

Os portugueses têm a noção do quão importante é um psicólogo? 

Sim, acredito que sim. É encarado com cada vez maior normalidade o trabalho desenvolvido por um psicólogo e contarmos com o contributo dos psicólogos em diferentes momentos do nosso ciclo de vida, quer para minimizar problemas ou apoio em crise, quer para nos desenvolvermos.   

Quais são os principais problemas de quem procura um psicólogo?

Anteriormente, eram mais aqueles problemas que as pessoas relacionavam diretamente com a psicologia: depressão, ansiedade, ataques de pânico. Atualmente, as pessoas já procuram os psicólogos pelas mais variadas razões. A título de exemplo, posso destacar o trabalho dos psicólogos no coaching de carreira, no desenvolvimento de competências específicas, no treino de competência parentais, na avaliação no que se refere à habilitação para a condução, na seleção e rectutamento de colaboradores para as organizações e na gestão dos recursos humanos e dos talentos nas empresas, entre outros. 

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