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"Em 2015, PS convidou Bloco para Governo. Dissemos que não era o momento"

Pedro Filipe Soares, líder parlamentar do Bloco de Esquerda, é o convidado desta quinta-feira do Vozes ao Minuto.

"Em 2015, PS convidou Bloco para Governo. Dissemos que não era o momento"

O líder parlamentar do Bloco de Esquerda, Pedro Filipe Soares, faz eco do discurso do partido na rejeição da possibilidade de uma maioria absoluta para o Partido Socialista (PS), nestas eleições legislativas, mas, ao contrário do apontado pelo primeiro-ministro, numa entrevista à RTP1, mantém a porta aberta para uma solução de governo que garanta estabilidade. Não pode é acontecer numa relação unilateral.

"Sabemos que só faz sentido entrar num Governo para influenciar de forma determinante a condução desse Governo", sustentou o bloquista, explicando que foi essa prioridade que os levou a rejeitar fazer parte do Governo com o PS, em 2015, para fazer antes o seu trabalho a partir do Parlamento, numa solução que, quatro anos depois, provou funcionar. 

Em entrevista ao Notícias ao Minuto, Pedro Filipe Soares debruçou-se ainda sobre as oportunidades falhadas desta Geringonça, nomeadamente as cativações e o seu impacto no investimento público, mas também sobre o seu sucesso mais visível: "Termos vencido a narrativa de que era a austeridade que salvava o país".

Na semana em que entraram em vigor as alterações ao Código de Trabalho, o deputado voltou a lembrar as questões laborais que acusa o PS de esquecer. "O primeiro-ministro disse recentemente que só faltava eliminar um corte da troika, (...) o que é uma lavagem de um conjunto de medidas da legislação laboral que falta desfazer", disse, elencando horas extraordinárias, dias de férias ou trabalho por turnos.

Sobre o ambiente, o político alertou para a importância de perceber que as responsabilidades individuais, embora importantes, não são suficientes. "É importante que se deixem de utilizar palhinhas e sacos de plástico? Sim, é importante. É isso que vai alterar a crise ambiental que vivemos? Não é".

PS não precisou de uma maioria absoluta para alcançar estabilidade, nem sequer de vencer as eleiçõesO primeiro-ministro disse recentemente que se solidariza com a posição do Bloco de Esquerda e do PCP quanto à maioria absoluta, mas não sem apontar que nenhum dos dois partidos “se comprometeu até agora em assegurar condições de governabilidade durante os próximos quatro anos”. É verdadeiro?

Há uma frase que o primeiro-ministro tem dito - ‘um voto no PS pode ser ou não um voto para a maioria absoluta’ -, dizendo que não é um voto em si que faz uma maioria absoluta, mas que pode contribuir. Agora, diz ele, não há um governo do PS sem votos no PS. Creio que essa análise tem uma parte de verdade, mas tem uma outra face que convém realçar: é que um voto no Bloco de Esquerda é uma ajuda para que não haja uma maioria absoluta. E quando olhamos para a história do país, para o que vivemos das maiorias absolutas, não existe na nossa opinião uma vontade as ressuscitar.

O modelo que tivemos, de diálogo alargado, foi mais positivo para a vida das pessoas do que qualquer maioria absoluta do passado. Perante essa afirmação do primeiro-ministro, podemos é dar a garantia de que um voto no Bloco não serve uma maioria absoluta, é antes o melhor antídoto para as maiorias absolutas. Por outro lado, o que já demonstrámos desde 2015 é que o Bloco tem sido uma força que garantiu estabilidade à vida das pessoas, que é mais importante, mas também a estabilidade política e o PS não precisou de uma maioria absoluta para a alcançar, nem sequer de vencer as eleições.

Essa conversa é fruta da época, do período eleitoral, e não interpretamos como mais do que isso. As pessoas sabem que o voto no Bloco de Esquerda é o que combate uma maioria absoluta que não é desejada por ninguém e sabem também que é um voto que garante estabilidade às suas vidas. Esse é que é um dos pontos mais importantes para o que vamos disputar agora a partir do próximo domingo.

A luta aqui é contra a maioria absoluta mas não contra a continuidade, por exemplo, da atual solução governativa?

[É uma posição] de luta numa lógica de oposição à maioria absoluta, por um lado, e de construção do aprofundamento dos caminhos que nos trouxeram aqui, por outro, com mais direitos e devolução de rendimentos. Quanto a exemplos concretos, falamos do aumento do salário mínimo nacional, do reforço de direitos laborais, onde temos de ter força para fazer uma mudança face ao que o próprio PS, junto com a Direita, fez ao longo destes últimos quatro anos. Falamos também do combate à precariedade, que está diretamente relacionado com as questões laborais.

E como é que se alcançam esses objetivos?

Com força ao BE, porque só assim é que essa agenda pode ser possível. E com abertura a todos os diálogos - não que tenhamos faltado no passado, desde 2015 até agora, nunca faltámos a nenhuma solução. Relembro que quando fomos ao Tribunal Constitucional (TC) salvar os salários e as pensões de cortes, fomos em todas as vezes com deputados do PS, e mesmo antes de 2015 não tínhamos essa dificuldade de diálogo.

Agora, creio que o que mudou em 2015 não foi a nossa predisposição ao diálogo, foi, isso sim, a vontade desse diálogo que decorreu de uma necessidade. E a chave dessa necessidade é o voto das pessoas, que em 2015 disseram ao PS que se queria ir para o Governo tinha de se entender à Esquerda e que agora terá de dizer o que pretende, sendo que, do nosso ponto de vista, a ideia que temos é que um programa à Esquerda precisa de força à Esquerda e por isso precisa de força do BE.

Notícias ao MinutoPedro Filipe Soares é candidato por Lisboa em segundo lugar© Notícias ao Minuto/Anabela Dantas

O primeiro-ministro disse, também, que não se revê nas afirmações de Catarina Martins, quando diz que a “história desta legislatura foi um combate entre a Esquerda e o PS”. Porque é que há memórias diferentes depois de quatro anos de governação?

É natural que quando olhamos para trás haja sempre uma avaliação dos momentos consoante o ponto a partir do qual fazemos a análise. Isso é natural e não me parece que seja sequer um reescrever da história. A frase da Catarina Martins, creio eu, tem uma razão de ser para a larguíssima maioria das pessoas, porque parte de um primeiro pressuposto, nomeadamente o facto de a Direita ter ficado sem programa, sem agenda, ao longo destes últimos quatro anos e as disputas que existiram foram as que estavam a influenciar a governação. Essa constatação não é um ataque ao PS, creio que é factual face aos debates que tivemos na praça pública. E todos esses debates aconteceram entre o PS e o BE ou forças à Esquerda, e não entre o PS e a Direita.

Analisemos exemplos concretos, como é o caso da Taxa Social Única (TSU), a alteração do pagamento do IVA de caixa. Nesse debate não existiu Direita. A Direita não fez parte do confronto que existia das ideias em causa. Já quanto à Lei de Bases da Saúde e à Lei de Bases da Habitação, foram contra a Direita porque não quiseram fazer parte destes processos e os debates que existiram foram entre o PS e o BE. Por isso, a afirmação da Catarina Martins é, do nosso ponto de vista, um resumo do que aconteceu. E creio que é o resumo alargado ao país. Admito que possa haver outras interpretações.

Estará em causa uma sensibilidade acrescida do primeiro-ministro durante a campanha?

Existe necessariamente uma disputa eleitoral e essa disputa faz-se esgrimindo argumentos para poder puxar mais votos para o lado do primeiro-ministro. Vemos isso numa ideia de uma instabilidade que nunca aconteceu ao longo dos últimos quatro anos, mas que agora dizem que vai acontecer. Acontece na disputa da interpretação da história e é algo que não nos tira muito sono porque é o debate das questões concretas que achamos mais importante. E, desse ponto de vista, as pessoas percebem o que significa dar mais força ao PS, ou dar mais força ao BE. Acho que esta campanha eleitoral tem tido esse dom, nomeadamente por termos debatido as questões concretas.

Investimento falhou não porque não estivesse previsto no OE mas porque ficava sempre perdido numa ‘gaveta’ qualquer no Ministério das Finanças

Em que pontos acredita que a 'Geringonça' perdeu oportunidades, nos últimos quatro anos?

Há vários. Devemos ser realistas na análise dos problemas, dos méritos e dos defeitos. E há vários defeitos que podemos apontar nos últimos quatro anos. Há um grande chapéu que explica depois alguns dos problemas parciais que é o do investimento público. Falhou investimento público, e como percebemos cada vez mais pela passagem do tempo, esse investimento falhou não porque não estivesse previsto no Orçamento do Estado mas porque ficava sempre cativado ou perdido numa ‘gaveta’ qualquer no Ministério das Finanças. E isso teve repercussões diretas nas qualidades dos serviços públicos, na saúde em particular, não demos um salto ainda maior na qualidade da nossa economia porque o investimento público é reprodutor da economia, como provámos. E algumas das falhas destes últimos quatro anos decorrem diretamente dessa falta de investimento.

Há uma outra vertente que é uma falha para quem criou uma expectativa de reverter todos os ataques que a troika fez, nomeadamente em relação às questões laborais. Chegámos ao final destes quatro anos e mantém-se ainda na lei laboral uma grande parte do que a troika lá colocou. Isso implica rendimento dos trabalhadores, pagamento de horas extraordinárias, respeito pelo trabalho por turnos, reposição de dias de férias. E estamos a falar de rendimento, do bolso das pessoas, mas também de dignidade de quem trabalha. Quando se diz que se quer reverter todos os males que a troika fez, começa-se com os quatro feriados, eliminam-se os cortes nos salários, cortes nas pensões, eliminam-se as penalizações que existiam em alguns dos trabalhadores das empresas públicas, percebe-se que há aqui a possibilidade de na agenda do trabalho ver algo diferente. Ora, essa esperança não se materializou ao longo destes últimos quatro anos. Creio que esse é outro dos defeitos que podemos apontar.

Qual foi a maior vitória que esta solução governativa permitiu alcançar?

A grande vitória é termos vencido a narrativa de que era a austeridade que salvava o país, que era sacrificar salários, pensões e empregos que salvava o país. E mostrámos exatamente o contrário, que através de uma política de redistribuição de riqueza, de reposição de rendimentos, temos uma boa economia que equilibra as contas públicas. Quanto a materializações concretas, falamos do aumento do salário mínimo nacional, da eliminação dos cortes nas pensões, tudo política de distribuição de riqueza.

Estas diversas medidas cimentam todo um outro programa económico que confronta diretamente com o que a Direita fez e até com o que o PS se apresentou nas eleições de 2015. Passámos quatro anos em que se dizia que o investimento público e, acima de tudo, o mercado interno eram prejudicais para as contas públicas e para a economia. E em nome disso cortaram-se salários e pensões, o país entrou em recessão profunda, destruíram-se postos de trabalho, tivemos uma emigração elevada e não tivemos nenhum equilíbrio sério que poderíamos ter tido.

Quando se mudaram essas políticas tivemos uma criação de postos de trabalho e uma economia a crescer como não há memória no país. Essa vitória mostra que poderíamos e deveríamos aprofundar esse caminho. Infelizmente, à medida que as eleições se foram aproximando, não tivemos do lado do PS a vontade de dar esses passos na parte da matéria laboral, e vemos que o PS continua a não aprender a lição e a ter nas cativações um dos pilares da execução orçamental.

Também não acredita que um PS com maioria absoluta possa negociar com outros partidos?

O que é uma negociação? É verdadeiramente haver vontade dos dois lados para haver uma negociação. Quem precisa de negociar? Quem tem alguma dependência do outro lado da mesa. Quem tem maioria absoluta não tem dependência absolutamente nenhuma. Poderá haver um teatro, uma ideia de que se está a fazer algum tipo de diálogo, mas na prática o exemplo que temos das maiorias absolutas passadas é que não deixava de haver reuniões com os outros partidos, mas era a imposição do mais forte, não havia uma negociação. Creio que, enquanto país, temos a memória do que são as maiorias absolutas, e essa é uma página para a qual não queremos regressar.

Para nós, as ideias e as nossas propostas são mais importantes do que lugares à mesa do Conselho de Ministros

O Bloco de Esquerda estaria disponível para integrar o Governo, se convidado pelo PS?

O Bloco de Esquerda já teve possibilidade de o fazer. Uma das partes que é geralmente omitida é que, em 2015, o mesmo PS que diz agora ‘cuidado que o Bloco não pode ir para um Governo’, convidou o Bloco para ir para o Governo. Nós é que dissemos que não era o momento para o fazer. Não temos nenhuma ideia que um governo é algo tabu, não é. E apresentamos estas eleições com um programa para governar o país. Sabemos que só faz sentido entrar num governo para influenciar de forma determinante a condução desse governo e esse é o ponto fundamental. O Bloco não está disponível para ser o CDS do PS. Não vamos trocar aqui lugares para meterem depois no bolso as nossas ideias e valores. Para nós, as ideias e as nossas propostas são mais importantes do que lugares à mesa do Conselho de Ministros, secretários de Estado, o que for. Agora, temos a consciência que o objetivo final se queremos transformar o país é chegar ao Governo. Mas isso só sendo consentâneo com um programa que temos de ter a força para o implementar.

O Bloco posiciona-se contra a atual estrutura da economia, ambicionando uma sociedade onde os bens comuns sejam públicos, por exemplo, mas sublinha que não é algo que possa ser imposto de um dia para o outro. Como é que o Bloco planeia redirecionar a agulha?

Há várias formas de o fazer. Em primeiro lugar, temos uma economia que tem já problemas anteriores e um desafio enorme: responder às alterações climáticas. E percebemos que estamos pertíssimo da meta que os cientistas dizem que será o limite de não retorno, e a nossa economia continua a não ter as alterações estruturais que deveria. Essa é a urgência nova à qual temos de responder e para isso temos um programa que aplica esta ideia em medidas concretas, tentando fazer uma descarbonização da economia, fazendo investimento público de forma a garantir a mobilidade mais sustentável.

Há problemas da nossa economia anteriores, que tem diversos setores absolutamente monopolistas, reféns de interesses privados. Basta ver a energia. Vieram os reguladores dizer que a EDP andou a lucrar centenas de milhões de euros indevidamente. Isso é um problema da nossa economia e atrasa-nos na competitividade e, regra geral, empobrece-nos. Se olharmos para onde esses rendimentos são atirados, percebemos que vão todos para fora do país porque é aí que estão instalados os centros económicos dessas grandes empresas. Aqui temos pontos de análise com alguns liberais, que também chegam a esta conclusão, que a economia está demasiado dependente de três ou quatro grandes grupos, que são dominantes nas suas posições e também têm um conjunto de benefícios indevidos.

O problema é que a consequência que dão é mais do mesmo, isto é, que vamos ter de arranjar uma forma de trazer mais concorrência à economia, tentando trazer novos ‘players’. Essa é a mesma narrativa que nos trouxe aqui. Foi exatamente para dizer que precisávamos de ter uma economia mais competitiva que se foi privatizando um conjunto larguíssimo de empresas. E nós temos uma visão diferente, achamos que devemos aprender com os erros e que as empresas estratégicas devem estar sobre a alçada de uma decisão democrática, que é sobre a alçada do Estado.

Há algumas que são óbvias para todos. Falamos do coração da nossa rede energética, a REN, que está na mão de um estado estrangeiro e isso é um problema de soberania inequívoco. Quando percebemos que a nossa rede de aeroportos está quase toda na mão de uma empresa privada... Isto é estratégico numa economia que vive do turismo e, por isso, percebemos aqui setores onde temos de atuar. E como é que isso se faz? Há várias formas: ainda recentemente o Governo assumiu uma posição maioritária da TAP, através de um acordo com os acionistas privados. É uma forma de o fazer. Há outras que são mais fortes e temos o poder enquanto país de nos defendermos dessa falta de soberania e, acima de tudo, desses atrasos na economia que nos impedem de termos o desenvolvimento com a plenitude que desejávamos.

Isto é não é um plano de nacionalização alargada da banca

Nesse leque de serviços inclui-se também a nacionalização da banca.

A Caixa Geral de Depósitos (CGD) tem um peso fundamental. Sempre estivemos ao lado do Governo no plano de recapitalização da CGD porque é essencial que tenhamos uma CGD forte. A CGD e o Novo Banco – quase metade do mercado bancário nacional - poderiam ter aqui um papel cooperante para ter uma ação pública do Estado. Um dos problemas que nós identificamos na CGD é que, demasiadas vezes, imita os privados, ao invés de haver uma política de apoio à economia, utilizando, por exemplo, a CGD também como banco de investimento capaz de garantir que temos uma banca que não está só a extorquir dinheiro da economia e que ajuda a economia a desenvolver-se. O Novo Banco podia completar a CGD neste contexto e, acima de tudo, não nos trazia as faturas que agora nos tem trazido – são quase mil milhões de euros por ano, desde 2017.

Está aqui um dos aspetos mais desastrosos desta governação do PS, colocar tanto dinheiro em escolhas erradas do ponto de vista da gestão do sistema financeiro e, acima de tudo, sempre debaixo do mesmo pressuposto, que o Estado não pode ter um papel estrutural no sistema financeiro, que deve ser só a CGD. Nós consideramos que quem paga deve mandar.

Isto é não é um plano de nacionalização alargada da banca, creio que é um plano com o mais simples bom-senso de quem percebe que a CGD é fundamental, deve ser pública, bem gerida e ter um papel diferente de outros bancos para ajudar a economia e que o Novo Banco, ao invés de se tornar sempre num sorvedouro de dinheiro, deveria ter também ter um serviço para o país.

Clima: Muitos adolescentes se têm comportado como adultos e muitos adultos se têm comportado como adolescentes

O ambiente está agora na agenda de uma forma inédita. Há quem esteja a 100% ao lado daquilo que defende Greta Thunberg (energia limpa, renovável, controlo do lucro nos recursos naturais) e há quem acredita que esse trabalho começa com a poluição e a reeducação da sociedade. Onde se situa o Bloco?

Eu creio que mais próximo da primeira exposição. Há um debate geral na parte ambiental sobre a questão da responsabilidade, se é individual ou coletiva. Regra geral, tem-se posto mais o ónus na responsabilidade individual do que na coletiva. É importante que se deixem de utilizar palhinhas e sacos de plástico? Sim, é importante. É isso que vai alterar a crise ambiental que vivemos? Não é. Temos que partir para o combate às alterações climáticas com esta consciência das responsabilidades individuais que devemos assumir, mas também da insuficiência que elas representam para atacar o problema como um todo. Desse ponto de vista, um dos problemas fundamentais é que nós temos uma economia global que é altamente desrespeitadora do planeta.

É certo que a questão do lucro é fundamental, porque em nome do lucro se fazem as maiores barbaridades, mas também é certo que o lucro faz parte do regime de economia de mercado em que vivemos. Por isso, para mudarmos esta forma de pensar temos que ter uma consciência geral mais elevada do ponto de vista da salvaguarda dos nossos interesses enquanto espécie, enquanto seres vivos. E temos que ter ações concretas para limitar a ação de grandes empresas que são dos maiores poluidores mundiais. Ter uma descarbonização da economia implica, por exemplo, uma eletrificação da mobilidade, etc. Isto ataca muitos dos interesses instalados, isto é o combate a que temos assistido.

Creio que, numa grande proporção dos jovens, muitos adolescentes se têm comportado como adultos e muitos adultos se têm comportado como adolescentes. Em grande proporção dos jovens, nós vemos que há uma consciência global que está a mudar. Agora, isso só acontece com uma maior pressão ainda. Um dos desafios que nós temos é que essa pressão chegue ao voto. Aquilo que disse é verdade, o papel de uma pessoa em particular, Greta Thunberg, foi catalisador de uma consciência global e felizmente deu corpo ao alertas que inúmeros cientistas já tinham feito anteriormente.

Nós, o Bloco de Esquerda, já em 2007 fizemos um congresso sobre as questões climáticas e tínhamos um conjunto de propostas, mas uma das dificuldades que encontrámos era que não tínhamos eco no diálogo com a sociedade nessa área em concreto. Agora é diferente, felizmente, porque ainda estamos a tempo de fazer alguma coisa.

Notícias ao MinutoPedro Filipe Soares é presidente do grupo parlamentar do Bloco de Esquerda desde 2012© Notícias ao Minuto/Anabela Dantas

Na terça-feira passada entraram em vigor as alterações ao Código do Trabalho, que foram alvo de fiscalização sucessiva ao Tribunal Constitucional (TC) por parte do Bloco, PCP e PEV. Quais são as prioridades do Bloco, neste âmbito?

A prioridade é o período experimental. É aquele que mais abertamente ataca a Constituição e achamos de mau tom que o PS tenha terminado a legislatura atacando acordos do TC, particularmente no período experimental. Não foi a única matéria que levamos ao TC mas é aquela que é mais relevante.

Em matéria laboral, que propostas concretas fazem parte do programa do Bloco para melhorar as condições dos trabalhadores do público e do privado?

Nós começamos por desfazer as maldades que a troika fez e é relevante que se perceba que elas ainda existem. O primeiro-ministro disse recentemente que só faltava eliminar um corte da troika, que era o corte sobre os rendimentos dos salários dos políticos ou dos cargos de nomeação política, o que é uma lavagem de um conjunto de medidas da legislação laboral que falta desfazer. Não temos hoje, por exemplo, o mesmo número de férias que tínhamos anteriormente, isso é retirar rendimento ao trabalhador. Nós não temos agora o respeito pelo trabalho por turnos e o respeito pelas horas extraordinárias que deveríamos ter. É por isso que ainda não se criam tantos postos de trabalho como devíamos criar, porque há uma permissividade na lei, no pagamento da hora extraordinária, que compensa ao patrão recorrer a horas extraordinárias ao invés de contratar alguém. Desse ponto de vista, há aqui cortes concretos que não foram desfeitos e é estranho que se diga que o único que falta é o corte nos salários dos políticos. É uma visão auto-centrada que desvaloriza aqui o corte dos rendimentos dos trabalhadores que existiram.

Há outras matérias para além destas, que para nós são também estruturais, como o trabalho temporário e o trabalho por turnos. Nós propusemos nesta legislatura que, quer uma matéria quer outra fossem alvo de alterações. No caso do trabalho por turnos, valorizar essa atividade como uma atividade que tem efeitos inequívocos na vida das pessoas e então tem que ter como resposta quer uma melhoria de rendimentos, para compensar esses efeitos na saúde e sacrifício de vida, quer melhorias no acesso a reforma. No que toca ao trabalho temporário, acima de tudo call-centers e esse tipo de trabalho que é altamente precário e explorador, colocamos também aqui restrições, particularmente no que toca ao número de trabalhadores que uma empresa pode ter subcontratados ou de trabalho temporário. Há um conjunto de medidas que propomos que pretendemos levar adiante.

A Direita ficou sem programa. Radicalizou-se em função de que a austeridade era inevitável

Acredita que a atual solução governativa trouxe mais espaço para o Bloco à esquerda do PS, consolidando-o como a terceira força política nacional?

A terceira força política já vem desde 2015, essa parte conseguimos em 2015 e é um reconhecimento que nos tem sido dado até hoje.

Desde que eu entrei para o Bloco, há alguns anos, nós sempre discordamos muito de outros partidos quando falavam como se fossem eles os proprietários dos votos das pessoas. Nós não temos um eleitorado, temos pessoas que nos deram confiança em determinados, e a nossa consciência é que em todos os momentos temos que lutar por essa confiança. Não damos por adquirido quem confiou em nós em determinado momento vá confiar para sempre. Os votos são das pessoas e são propriedade das pessoas. Nós temos consciência, e isso sente-se nos contactos que temos tido nestas eleições, que há uma maior respeitabilidade da forma como falam connosco.

Em 2015, havia alguma condescendência: diziam que as nossas ideias eram boas, mas que ainda não tinham sido provadas, que ainda não tínhamos tido capacidade de influenciar a governação. Agora reconhecem que as ideias são boas e são concretizáveis, reconhecem que tivemos um papel nestes últimos quatro anos que influenciou a governação e que teve impacto positivo na vida das pessoas. Por isso, a forma como olham para nós agora é com uma maior respeitabilidade, se isso levará a votos ou não… Temos tido bom feedback nesses contactos, esperemos que sejam transformados em votos, mas volto à mesma questão: os votos são das pessoas.

Que leitura faz, tendo em conta só as sondagens, claro, desta nova configuração das preferências políticas nacionais? Assiste-se a uma mudança definitiva na relação de forças eleitorais?

É difícil responder a essa pergunta. Creio que podemos dizer, até pelo número de partidos que nasceram, que há uma alteração da composição à Direita. Acho que isso é factual face ao número de partidos que existiram. Quanto ao resto, é mais difícil de avaliar. O Bloco de Esquerda, é verdade, tem-se afirmado como a terceira força e percebemos – há líderes do CDS que materializam essa ideia – que em vários distritos onde o CDS elegeu no ano passado, correm o risco de perder o deputado para o Bloco de Esquerda. Isso percebemos pelos contactos que vamos tendo e até pelas sondagens que vão existindo.

Que é que isso significa na prática? Creio que, em primeiro lugar, que a Direita ficou, de facto, sem programa. Radicalizou-se em função de uma ideia de inevitabilidade, que a austeridade era inevitável e o único programa que podia ser seguido. Nós conseguimos mostrar o contrário nestes quatro anos. Conseguimos mostrar que a austeridade não era uma inevitabilidade, era uma escolha, e a Direita ao longo do tempo foi sempre apostando que o caminho seguido ia trazer o diabo: ia trazer problemas nas contas públicas, problemas na economia, o que fosse. Ora, esse mal não chegou e isso, conjuntamente com a ideia de que a austeridade era uma escolha, desacreditou o programa da Direita. Agora, essa crise da Direita explica essa fragmentação dos partidos.

No caso do PS, e no caso dos partidos à Esquerda, estão a ser a cimentadas as confianças que foram cultivadas no passado, do ponto de vista das pessoas, porque as dúvidas que existiam sobre se este caminho era possível dissiparam-se e não existe, ao contrário do que foi vaticinado no passado, uma erosão dos partidos à Esquerda do PS. Existe uma sedimentação do espaço de confiança, esperamos que assim continue.

Sobre a questão dos 26 militantes que saíram: Existe uma hostilização de divergência interna no Bloco?

Não, muito pelo contrário. O Bloco é um partido altamente democrático, todos os estudos científicos até dizem isso, que os nossos procedimentos internos são democráticos: forma de eleição, etc. Desse ponto de vista, a nossa democracia interna é boa. Se pode ser melhor? Como democrata, nós estamos sempre a pensar em como melhorar a democracia e se isso é para fora do partido também é para dentro do partido. É um desafio contínuo. Agora, que haja a ideia de que não há espaços de debate interno, isso parece-me exagerado. Desses 26, muitos deles temos encontrado nas lutas quotidianas e continuaremos a encontrar. A militância partidária não é o fim último de todo o ativismo. O ativismo é uma forma de estar na vida, pode passar pela militância partidária ou não. Os valores que temos, partilhamos com força e, por isso, vamos encontrar-nos sempre nessas lutas.

Tancos: Dados que tínhamos em cima da mesa não inocentaram ninguém

Que leitura faz das reações que têm surgido ao caso Tancos? Acredita que existem motivações políticas, por ter sido deduzida acusação durante a campanha eleitoral?

Sobre os ‘timings’ do Ministério Público (MP): este existe com toda a independência do poder político e acho que é assim que deve continuar. Não nos compete a nós dizer nada mais sobre isso. Sobre se existiu ou não algum conhecimento do primeiro-ministro, que é essa a acusação que está a ser feita, nós – do que foi possível provar da comissão de inquérito – não tínhamos nenhum indício desse conhecimento. Se a comissão de inquérito teve acesso à verdade… Creio que o MP coloca aí alguma dúvida razoável nessa pergunta e, por isso, o que temos que avaliar, e isso só se faz depois de concluído o julgamento, é se há provimento ou não dessa acusação.

Da parte do Bloco do Esquerda, nós votamos as conclusões da comissão de inquérito de acordo com os dados que tínhamos em cima da mesa e os dados que tínhamos em cima da mesa não inocentaram ninguém, apenas disseram que com os dados conhecidos não foi possível provar o encobrimento. Qualquer facto novo que venha alterar esta realidade, cá estaremos para avaliar com toda humildade. Este é um debate que vai passar para a próxima legislatura.

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