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Psico-Oncologia. Cuidar da mente quando o corpo luta para viver

Mente sã em corpo são. A expressão não existe em vão e parece fazer ainda mais sentido nos dias que correm, em que a saúde mental se assume cada vez mais como causa e consequência de algumas patologias clínicas graves. É o caso do cancro. Naquele que é o Dia Mundial da Luta contra o Cancro, o Notícias ao Minuto foi procurar saber o que é a Psico-Oncologia e qual o papel da saúde mental nas várias fases da doença.

Psico-Oncologia. Cuidar da mente quando o corpo luta para viver
Notícias ao Minuto

08:15 - 04/02/18 por Daniela Costa Teixeira

País Dia contra o Cancro

Stress, ansiedade, depressão. Cancro. Antes, durante, depois. Stress, ansiedade, depressão e cancro, um quarteto que pode andar de ‘mão dada’ e que precisa de toda a atenção possível e imaginária. Agora.

“Existem fatores psicológicos, nomeadamente o stress, que estão relacionados com taxas de incidência mais elevadas de cancro e isso é algo para o qual olhamos menos no dia a dia”, diz-nos Francisco Miranda Rodrigues, bastonário da Ordem dos Psicólogos.

Além de poderem ser a causa do aparecimento de uma patologia oncológica, os fatores psicológicos são “determinantes para as pessoas conseguirem ter uma resposta que evite a reincidência, que melhore a taxa de sobrevivência”, continua. Mas também para que os pacientes consigam cuidar da mente quando o corpo luta para viver e fica à mercê de todas as consequências físicas da doença e do tratamento.

“As emoções como ansiedade e stress, depressão e disforia (sensação de mal-estar) ou hostilidade são responsáveis por atrasos no processo de cura, dificuldades na adesão ao tratamento e deterioração da qualidade de vida”, lê-se no site Onco +, que revela que “as emoções negativas e depressivas são responsáveis pelo aumento de certas hormonas na circulação sanguínea. Estas hormonas são prejudiciais ao estado de saúde e, muitas vezes, pioram os episódios de dor seja ela aguda ou crónica”.

Desde o diagnóstico, ao primeiro tratamento, passando pelas várias fases da doença até à cura/estagnação ou chegando mesmo à temida fase final de vida, importa dar o devido acompanhamento psicológico aos pacientes oncológicos e respetivos familiares. Mas não só: Os próprios profissionais também precisam de apoio.

“As equipas que trabalham nestas áreas estão também sujeitas a um desgaste emocional acrescido e, portanto, a Psico-Oncologia tem também um importante papel no âmbito das próprias equipas, zelando pelo bem-estar e pela prevenção de riscos psicossociais”, destaca o bastonário, que, em entrevista ao Notícias ao Minuto salientou a importância de reforçar o número de psicólogos nos centros de cuidados primários para que a prevenção seja o melhor escudo protetor da saúde mental dos portugueses.

Os estudos indicam que cerca de 40% [dos pacientes oncológicos] vão precisar de um psicólogo e 20-25% vão mesmo adoecer com uma perturbação psiquiátrica que requererá acompanhamento psiquiátrico próprio e farmacoterapia", diz a médica Susana Sousa Almeida, do IPO-Porto

Psico-Oncologia. Corpo são à espera de uma mente sã

Desde o primeiro diagnóstico da doença, sentimentos como choque e negação (o eterno ‘porquê eu?’) dão origem ao medo, à ansiedade e ao pânico e mais tarde à culpa, à vergonha e à raiva. A tristeza apodera-se, assim como o stress passa a olhar para o corpo como o habitat perfeito. E eis que a depressão bate à porta e os sentimentos negativos passam a dominar a mente numa altura em que o corpo luta para viver – e precisa de uma mente sã e forte para o conseguir.

E é pela importância de trabalhar o corpo humano como um todo e sem deixar a saúde mental para trás que nasce a Psico-Oncologia, que é nada mais do que o resultado da fusão da Psiquiatria de Ligação, da Psicologia da Saúde e da Medicina Oncológica.

“A Psico-Oncologia é a área da Psicologia e da Psiquiatria dedicada à avaliação e facilitação do processo de sofrimento psicológico (em inglês ‘distress’) associado à vivência do cancro. Desdobra-se na identificação dos sinais precoces de adaptação não normativa, ou seja, indicadores de que o doente ou família estão a não conseguir gerir a doença e o seu diagnóstico do ponto de vista psicológico, com compromisso da sua qualidade de vida ou da sua capacidade de se manter em tratamento e se projetar num futuro, de manter uma esperança realista perante a sua doença, de recrutar os seus mecanismos de gerir a adversidade”, começa por nos explicar Susana Sousa Almeida, assistente hospitalar de Psiquiatria no Serviço de Psico-Oncologia do Instituto Português de Oncologia (IPO) – Porto, desde 2009, e também médica psiquiatra na CUF.

“Felizmente”, salienta, “a maior parte das pessoas consegue adaptar-se de forma adequada, sem sofrimento patológico, e não requer a intervenção de um psico-oncologista. Mas os estudos indicam que cerca de 40% vão precisar de um psicólogo e 20-25% vão mesmo adoecer com uma perturbação psiquiátrica que requererá acompanhamento psiquiátrico próprio e farmacoterapia”.

Apesar de ser uma das doenças mais faladas e de uma boa parte das pessoas ter alguém mais ou menos próximo com o problema, a palavra cancro continua a ser um ‘balde de água fria’ difícil de suportar. E é desde o momento em que a maldita palavra é dita que a saúde mental deve ser cuidada.

Em declarações ao Notícias ao Minuto, a especialista explica que “o processo psicológico de adaptação à doença perdura ao longo de todas as suas fases, e, às vezes, é numa recaída que, finalmente, a capacidade de luta se esgota e a pessoa pede auxílio. Os profissionais de oncologia deverão perguntar em cada consulta se a pessoa precisa ou gostaria de falar com um psico-oncologista. Não é porque o processo começou bem que as circunstâncias não poderão ter modificado”.

Mas este acompanhamento psicológico ou psiquiátrico não serve apenas para aceitar o facto de a indesejada doença ‘viver’ dentro da pessoa. Ajuda ainda a saber lidar com as “perdas físicas”, com as mudanças a nível de qualidade de vida, “tais como na capacidade laboral, na capacidade intelectual, na saúde sexual, na energia para realização das tarefas do dia a dia que todos damos por adquiridas até passarmos por uma doença com tratamentos tanta vez tão agressivos”.

No cancro (e noutra qualquer doença), cada caso é um caso e cada pessoa tem uma forma muito própria de viver a esta nova ‘vida’ e a Psico-Oncologia respeita isso mesmo. Segundo a médica psiquiatra, em cada paciente ou familiar – porque, “sim, há consultas para as famílias que sofrem com o doente e também precisam de ferramentas para lidar com a doença de forma eficaz” - é feito um “acompanhamento psicológico e/ou psiquiátrico diferenciado e especializado, realizado por profissionais (psicólogos e psiquiatras) com treino e competências específicas, que visam facilitar o processo de adaptação às várias alterações trazidas pela doença oncológica, aos seus tratamentos e eventuais sequelas, de tentar um crescimento positivo na experiência de atravessar e ultrapassar uma potencial ameaça vital. Tem ferramentas psicoterapêuticas variadas mediante as temáticas. E, em alguns casos, pode requerer tratamento específico de patologia psiquiátrica manifestada com a doença oncológica”.

Formar profissionais para lidar com o caos emocional

A Academia Portuguesa de Psico-Oncologia nasceu em 1999 pela mão de um conjunto de profissionais de saúde, mas foi há quase 70 anos que a Psicologia, a Psiquiatria e a Medicina Oncológica uniram forças em prol dos pacientes de uma doença que parece não ter fim à vista.

“As áreas da Psico-Oncologia foram surgindo na década de 50/60, sobretudo quando houve uma melhor resposta para o tratamento do cancro e quando começaram a surgir as questões da sobrevivência e da qualidade de vida dos doentes. Nesse sentido, surgiram as necessidades de não só lidar com a doença e com o diagnóstico, como também com o contínuo de vida”, conta-nos Maria Mouro, presidente da Academia Portuguesa de Psico-Oncologia.

Nesta academia, e na Psico-Oncologia de uma forma geral, “são várias as áreas trabalhadas, desde as expressões da dor à fadiga, até todas as questões de adaptação, as questões de depressão e ansiedade. Pretende-se, também, avaliar o stress que tem sobretudo a ver com o sofrimento emocional perante estas crises de vida e outras áreas específicas relacionadas com a adaptação da família. Existem inúmeras áreas de intervenção da Psico-Oncologia”, destaca.

De acordo com Maria Moura, os profissionais que recebem especialização em Psico-Oncologia aprendem a “comunicar com o doente e com a família nas diversas etapas da doença, porque as necessidades de comunicação são distintas no momento do diagnóstico, no tratamento, na remissão, na sobrevivência ou em aspetos de fim de vida em que é necessária uma comunicação eficaz e que melhore a relação de médico-doente”.

Além de todos os cuidados com pacientes e familiares, os profissionais especializados em Psico-Oncologia têm ainda “a formação adequada para reconhecer as necessidades dos profissionais de saúde, porque os níveis de stress são muitas vezes elevados” e o trabalho que é feito junto destes profissionais é “para a prevenção quer do ponto de vista do burnout, por causa da exigência profissional, como do ponto de vista de formação aos profissionais, médicos e enfermeiros sobre as questões de comunicação”.

Quando questionada sobre as principais dificuldades que um profissional especializado em Psico-Oncologia pode passar, a psiquiatra Susana Sousa Almeida refere a dificuldade em “gerir uma distância terapêutica em que a empatia não resvala para a simpatia e nos impede de ver a melhor estratégia”. Mas não só: “gerir fatores de identificação (doentes com a nossa idade, ou com situações familiares ou pessoais semelhantes) e ter deles consciência para que não interfiram na relação terapêutica, prejudicando o trabalho desenvolvido; gerir as nossas próprias emoções perante o sofrimento dos nossos doentes” são outros dos desafios e obstáculos a que estes profissionais estão sujeitos

E a boa comunicação entre o médico e o paciente é mesmo um dos pilares do sucesso. “Muitos estudos já replicados em populações variadas e com doentes de patologias oncológicas distintas revelaram que um doente com saúde mental e envolvido numa boa comunicação com os seus médicos, que se sente ouvido e entendido, terá melhoria dos indicadores gerais de saúde; um melhor envolvimento e participação nos próprios tratamentos oncológicos, com maior autonomia e capacitação; mais satisfação; melhores indicadores de recuperação física e de reabilitação”, frisa Susana Sousa Almeida.

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