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Na Pampilhosa da Serra, pede-se "um empurrão" para as segundas habitações

Na Pampilhosa da Serra, há dezenas de aldeias quase desertas, onde as segundas habitações garantem a pouca dinâmica que lhes resta. Se não houver ajuda para estas casas, muitos acreditam que se pode decretar a morte do concelho.

Na Pampilhosa da Serra, pede-se "um empurrão" para as segundas habitações
Notícias ao Minuto

09:44 - 13/01/18 por Lusa

País Incêndios

São casas dos pais, avós e bisavós, que se enchem no verão, no Natal, na Páscoa, em feriados e fins de semana. São também espaços de memórias, como as fotografias de família, a máquina de costura centenária ou as recordações dos tempos de meninice.

Houve 57 aldeias afetadas pelo incêndio de outubro neste concelho do distrito de Coimbra e muitas delas não chegam a ter sequer dez pessoas no inverno, apesar das várias dezenas de casas que compõem as localidades, parte delas de segunda habitação.

São os cerca de 30 mil descendentes da Pampilhosa da Serra que maioritariamente moram em Lisboa que dinamizam as comissões de melhoramentos e que enchem de vida as aldeias quase desertas.

"Há aldeias com oito pessoas no inverno, algumas com duas ou até zero, mas a maioria tem 200 a 300 habitações", sublinha Ludovina Lopes, que vive em Lisboa e que é dirigente da comissão de melhoramentos da aldeia de Maria Gomes, na Pampilhosa da Serra, desde os seus 16 anos.

No verão, sublinha, as aldeias enchem-se de vida, com descendentes, muitos dos quais nascidos já em Lisboa, sendo que a população do concelho quintuplica nessa altura.

A razão, explica Ludovina, é a "terrafilia", o "amor à terra".

Carlos João perdeu para o fogo grande parte da casa na aldeia de Praçais que era dos seus avós e bisavós e que tinha reconstruído há nove anos.

O que se salvou no rés-do-chão começa agora a estragar-se com humidade e infiltrações, sublinha, alertando para a necessidade de um apoio rápido para se poderem minimizar os estragos.

Apesar de ter nascido em Lisboa, passava o verão todo em Praçais. Foi essa ligação que o levou a reconstruir a casa, que era usada por toda a família.

"Eu não quero ficar aqui na selva [Lisboa]. A minha ideia era ir para lá viver, passar a reforma na província. Eu adoro aquilo e tinha conseguido arranjar a minha casinha, à maneira. Agora, está tudo preto", sublinha, considerando que, sem apoio, não terá qualquer possibilidade de reconstruir a casa de xisto centenária.

De acordo com o presidente da Câmara da Pampilhosa da Serra, José Brito, as casas de segunda habitação são um eixo fundamental na economia e dinâmica do concelho.

"Temos cerca de 80 comissões de melhoramentos, todas sediadas em Lisboa e que se mantêm muito ligadas às suas terras. Não podemos deixar de apoiar estas pessoas", disse à agência Lusa o autarca, referindo que está a ser trabalhado com o Governo um instrumento de apoio para a reconstrução das casas de segunda habitação.

Segundo José Brito, se não se ajudarem as pessoas que já estão "muito ligadas ao concelho", Pampilhosa fica ainda "pior".

"Na minha aldeia, que teria sete pessoas na noite do incêndio, em agosto é capaz de ter 50 a 60 pessoas e, ao fim de semana, 80", sublinha o presidente da Casa da Pampilhosa da Serra em Lisboa, José Ferreira.

É naquela associação situada em Alfama que estão sediadas muitas das comissões de melhoramentos que em tempos garantiram luz, água, telefone e escola em muitas das aldeias. Hoje, dinamizam festas e convívios.

"Já é a terceira ou quarta geração que está à frente das comissões. Há bisnetos de pessoas que vieram para Lisboa e que continuam interessados na terra", sublinha José Ferreira, considerando que, "se não houver uma ajuda significativa", muitos não terão hipótese de reconstruir.

"Fica mais barato ir para um hotel e ir lá uma ou duas vezes por ano, do que estar a gastar 50 mil euros na reconstrução. É preciso haver algo que motive as pessoas a recuperar as casas", defendeu, considerando que, se nada for feito, as aldeias vão ficar "completamente abandonadas".

Nuno Baptista, de 50 anos, também perdeu a casa dos seus pais, na aldeia de Praçais. "Tudo o que era memórias ardeu: fotografias, uma máquina de costura que era do meu bisavô, colchas antigas. Ardeu tudo".

Apesar da desgraça, a casa tinha seguro e Nuno vai conseguir reconstruir a casa para onde vai nas férias e aos fins de semana.

"Felizmente, temos seguro. Agora, para quem não tem, será muito complicado", vaticina.

José Reis, que vive em Lisboa, tinha recuperado recentemente a casa onde ganhou os seus primeiros calos, aos 15 anos, a construí-la com os pais, na Aldeia Cimeira.

"Era para os meus filhos usarem agora nas férias de verão. Só que, de repente, o incêndio devorou a casa", conta o reformado a viver em Lisboa, mas que passava regularmente temporadas no concelho da Pampilhosa da Serra.

"É a segunda habitação que mantém viva a Pampilhosa. No verão e até ao fim de setembro, não há sítio onde estacionar, os restaurantes estão sempre cheios. Espero que haja ajuda para estas casas, porque se a Pampilhosa viver só das pessoas das casas de primeira habitação morre", alerta.

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