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"Não podemos suspender evolução da tecnologia por poder ter uso perverso"

Tiveram um passado militar e hoje em dia são brinquedos sofisticados, para tentar entender um pouco melhor estes pequenos objetos voadores, o Notícias ao Minuto falou com o especialista em Robótica, José Santos Vítor.

"Não podemos suspender evolução da tecnologia por poder ter uso perverso"
Notícias ao Minuto

08:30 - 12/11/17 por Sara Gouveia

País José Santos Vítor

Surgiram por volta dos anos 60, mas só durante os anos 80 começaram a chamar a atenção, apesar de ainda devido ao seu uso militar. Nos dias de hoje, entraram no mercado de consumo e são vistos por muitos como brinquedos para os tempos livres e por outros como soluções inovadoras para fins tradicionais.

São veículos aéreos, mas a diferença que têm para os aviões ou helicópteros é que não são tripulados. São controlados remotamente e hoje em dia estão equipados com câmaras que permitem ao operador observar o que o rodeia, e, sim, isso também pode significar que pode observar o que outros estão a fazer.

Já tiveram a sua quota de polémicas, com aeroportos, questões de privacidade, falta de regulamentação, mas também já foram notícia por fazer chegar auxílio onde era preciso e por ajudar a mostrar novas perspetivas do mundo.

De forma a tentar descodificar estes pequenos objetos, que puseram tanta gente com a cabeça nas nuvens e outras tantas com as mãos na cabeça, o Notícias ao Minuto falou com o professor José Santos Vítor, que leciona robótica do Instituto Superior Técnico e preside o Instituto de Sistemas e Robótica.

“Em fases de descobertas tecnológicas anteriores, em que a evolução era mais lenta, isso dava tempo à sociedade para se ajustar, acomodar e perceber os impactos negativos e positivos de determinada tecnologia, o tempo de reação era maior, mas hoje em dia a velocidade de construção, autonomia, a distribuição desses aparelhos é tão rápida que tem dificultado o esforço internacional de adaptação. A sociedade tem de aprender a andar mais rapidamente”, defende o professor, tentando justificar “a noção negativa referente aos aparelhos”.

"É dado um enfoque excessivo a possíveis riscos destas tecnologias"

José Santos Vítor considera que, por vezes, “é dado um enfoque excessivo a possíveis riscos destas tecnologias”, mas que é importante que sejam também referidos os aspetos positivos que os drones trazem.

“Há um lado solar da tecnologia que é importante”, sublinha, dando como exemplo aplicações como “levar medicamentos a zonas em que há um acesso difícil”, vigiar ou monitorizar florestas ou “utilizar drones para inspecionar de perto viadutos e pontes para ver se as estruturas precisam de alguma reparação ou intervenção”, o que permitiria tornar as inspeções a estas infraestruturas mais regulares. O especialista chama também a atenção para casos em que ocorra “uma crise, um acidente, uma ameaça ou suspeita", em que "pode ser importante deslocar câmaras para um local mais preciso e perceber rapidamente para os operadores à distância o que se passa no local”.

Mas quanto a perigos inerentes, José Santos Vítor alerta que é necessário manter a segurança, sobretudo tendo em conta a questão da privacidade tanto de pessoas como de locais críticos pois “numa época de voyeurismo onde tudo tem câmaras, seja telefones, seja drones, é possível filmar sem autorização e violar as regras de privacidade”.

Notícias ao Minuto© IST

Tendo em conta os vinte e quatro incidentes com drones que foram registados desde o início do ano nas proximidades de aeroportos, o especialista considera que isso poderia ser solucionado ou minimizado através de uma melhoria de “sistemas de vigilância por radar que detetem estes veículos e que interfiram com os comandos que asseguram o seu controlo para os tornar inoperacionais”.

Outra solução que não descarta são as aves de rapina, que anteriormente já estavam treinadas para afastar os pássaros, mas ressalva que ao contrário do que acontecia entre animais, onde se “joga também com uma questão comportamental, porque as outras aves ao saberem que há aves de rapina, evitam sobrevoar essas zonas, é uma questão biológica, é uma relação presa-predador. No caso dos drones isso não acontece”.

"Brinquedos" que acartam responsabilidades

Apesar de hoje em dia os drones serem considerados brinquedos, são “brinquedos” que acartam responsabilidades, como terem de ser registados na Autoridade Nacional de Aviação Civil no prazo de 10 dias depois da sua compra, caso tenham peso igual ou superior a 250gr. O utilizador tem também de contrair um seguro de responsabilidade civil para cobrir eventuais danos causados pelo equipamento e só pode pilotar a aeronave não tripulada se tiver mais de 16 anos.

Mas, para José Santos Vítor, é necessário ir mais longe, pois a solução mais abrangente seria uma combinação de várias. “Uma regulamentação eficaz, estruturante e bem pensada, a capacidade de implementar o próprio registo dos drones, tentar que sejam feitos diretamente nos fabricantes, deve haver também maior vigilância e depois não esquecer a questão da educação, do aumento da consciencialização da sociedade. Todos estes instrumentos no seu conjunto é que irão contribuir para um maior controlo dos riscos, não prejudicando, por ações excessivas, os benefícios que estes aparelhos podem ter".

“Temos de estar alerta para quando houver uma má utilização do aparelho esta ser detetada a tempo, mas não podemos suspender a evolução da tecnologia pela possibilidade de ser utilizada de forma perversa, seria um atraso. Não é pelos computadores terem riscos e estarem ligados em rede que vamos desligar a internet”, argumenta o especialista.

Entregas em nossa casa feitas por drones?

Quanto a uma possível realidade próxima de entregas de comida ou encomendas feitas através destes equipamentos por cá, como já é feito no estrangeiro, o professor sublinha que o setor da tecnologia dedicado a drones e robótica em Portugal tem um “cluster de empresas e de centros de investigação nessa área que é muito dinâmico, com cerca de 100 empresas que fornecem sistemas a nível europeu e mundial, onde são desenvolvidas tecnologias nessa área”. 

No entanto, e apesar de do ponto de vista tecnológico ser uma possibilidade real, em Portugal, “para disponibilizar serviços massivos dessa natureza, ainda será importante um esforço de regulamentação e de reflexão”, pois, explica, ainda “há uma série de outras questões que têm a ver com identificação e gestão de risco". E, acrescenta, "acho que ainda vai demorar”.

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