"Se o voluntariado é moda, gostava que moda não passasse"

Presidente do Banco Alimentar Contra a Fome de Lisboa há 23 anos, Isabel Jonet conversou com o Notícias ao Minuto e partilhou connosco - porque “partilhar sabe bem” - algumas das experiências vivenciadas ao longo das duas últimas décadas.

© Global Imagens
País Isabel Jonet

“Há um milhão de pessoas que vive com menos de 250 euros por mês, o que corresponde a 10% da população, e há dois milhões que vivem com menos de 420 euros por mês, ou seja, estamos a falar de um quinto da população”.

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Quem o diz é Isabel Jonet, a presidente do Banco Alimentar Contra a Fome de Lisboa e da Federação Europeia de Bancos Alimentares Contra a Fome, que explica ao Notícias ao Minuto a mudança de slogan do Banco Alimentar.

O número cada vez maior de jovens voluntários é algo que a deixa satisfeita pois o importante é ajudar os outros, independentemente das 'modas'.

O que a levou a voluntariar-se no Banco Alimentar há 23 anos?

Eu sempre fiz trabalho voluntário. Com 12 anos comecei a ser voluntária no Hospital de Sant’Ana com umas amigas. Visitávamos a ala dos bebés e ajudávamos a dar-lhes de comer e a entretê-los - isto no tempo em que as crianças podiam ser voluntárias nos hospitais.

Quanto regressei a Portugal, depois de morar oito anos em Bruxelas, dediquei-me a ajudar os meus dois filhos mais velhos a integrarem-se no ensino português e fiquei em casa. Foi então que comecei à procura de um sítio para ser voluntária e o projeto do Banco Alimentar de Lisboa fascinou-me. Ofereci-me para trabalhar aqui duas tardes por semana e ao fim de um mês trabalhava aqui todos os dias e muitas horas.

O que é a que a fascinou no projeto do Banco Alimentar?

O Banco Alimentar é um projeto muito envolvente. Quando cheguei tinha sido fundado há cerca de dois anos e aquilo que senti é que havia aqui uma oportunidade de desenvolver um modelo de gestão que podia ser replicado noutros pontos de Portugal, fazendo com que aquilo que é uma ideia muito simples - ir buscar onde sobra para entregar onde falta - pudesse chegar a mais pessoas.

Como é que chegou o convite para se tornar presidente do Banco Alimentar?

Foi muito rapidamente. O convite para ser presidente foi quase uma sucessão natural do presidente, o comandante Vaz Pinto, que numa determinada altura achou que era hora de dar o lugar a uma pessoa mais nova. O facto de ter aceitado participar na direção significava que a então direção me dava um mandato para poder desenvolver aquilo que era a minha ideia para o Banco Alimentar.

Qual é a missão do Banco Alimentar?

A nossa grande missão é recuperar alimentos que seriam destruídos e entregá-los a quem mais precisa. O Banco Alimentar é um projeto que ajuda a alimentar 4% da população portuguesa. A pressão para que não falhemos é grande, pois há pessoas que dependem dessa ajuda para sobreviver e as instituições, que hoje em dia são 2.600 em todo o país e só em Lisboa são 400, estão à espera de vir todos os dias buscar os alimentos e nós de ir todos os dias recuperar alimentos.

Como é que têm sido estes 23 anos?

Estes 23 anos foram muito ricos de vivências e de bondade genuína. Nos bancos alimentares vive-se de uma maneira verdadeira e é possível fazê-lo apesar da correria do dia-a-dia e da pressão que há do trabalho. Mas o que lhe digo é que recebi nestes anos muito mais do que dei. Ao optar por ser voluntária isso afetou a minha família, porque eu prescindi de um ordenado, mas a minha família ganhou muito mais com isso, porque as coisas que se vivem aqui e, sobretudo, aquilo que recebemos é extraordinário.

Claro que tivemos momentos menos bons e às vezes tivemos de repensar decisões. Faz parte do caminho de todas as organizações. O Banco Alimentar é gerido como se fosse uma empresa e, por isso, há anos que correm melhor e anos que correm pior.

O Banco Alimentar ajudou a mudar aquela que era a perceção do voluntariado?

Sim, os bancos alimentares mudaram a perceção do voluntariado em Portugal. Não havia voluntariado jovem antes do Banco Alimentar, havia apenas os escuteiros e alguns grupos ligados às paróquias. Este voluntariado jovem como hoje se vê nas escolas e universidades não existia antes. O Banco Alimentar é, aliás, um dos primeiros exemplos em Portugal de uma instituição ao serviço de outras instituições, porque os bancos alimentares não entregam nada diretamente a pessoas.

Porque não?

Porque têm parcerias com instituições e são essas instituições que no terreno levam os alimentos que os bancos alimentares recolhem às pessoas carenciadas. Se tivéssemos optado por entregar diretamente, hoje o Banco Alimentar não seria o que é, porque estava a sobrepor-se ao trabalho diário feito pelas instituições.

Uma IPSS quando ajuda uma pessoa pobre não dá só comida. Dá conforto, esperança, companhia, por vezes acolhe os filhos nas creches, leva apoio domiciliário a idosos, presta cuidados de saúde...

O grande desafio foi sempre nunca dar diretamente a nenhuma pessoa porque correr-se-ia o risco de os produtos distribuídos irem parar à mesa de quem não precisa

Já disse que o voluntário jovem era muito escasso. Qual foi o sentimento ao ver chegar cada vez mais jovens interessados em ajudar?

Não imagina o quão gratificante é ver no armazém, nos dias de campanha, a panóplia e a diversidade de pessoas que colaboram. São pessoas novas, velhas, ricas, pobres, têm motivações religiosas, outras só porque querem participar. São pessoas diversas e que lado a lado têm a certeza que estão a ajudar a alimentar quem mais precisa e isso é uma grande riqueza. Quando começámos a ver chegar os voluntários mais novos foi uma grande alegria, porque além de trazerem animação, obrigam-nos também a uma certa juventude. Os jovens imprimem uma alegria e ritmo que não seria possível se não tivéssemos essa juventude toda aqui. Uma das razões pelas quais a lançámos a campanha online foi porque queríamos ir ao encontro dos voluntários mais jovens, porque os mais jovens não vão as compras no fim de semana e queremos que venham, através de nós, ao encontro de quem precisa.

Acha que agora é moda ser-se voluntário?

Se fosse moda, era uma boa moda. Acho que há sempre tendências e que, sobretudo em determinadas idades, as pessoas gostam de fazer parte de um grupo e não gostam de estar excluídas de um grupo. Portanto, se essa é uma moda, então é uma boa moda e eu gostava que o voluntariado continuasse a estar na moda e que essa moda não passasse.

Qual é o perfil do voluntário?

Temos voluntários muito diversos e essa é uma das nossas riquezas. No dia-a-dia temos pessoas reformadas, pré-reformadas ou que tenham algum tempo livre. Temos alunos ou professores que fazem algumas horas, temos também voluntários estrangeiros que são alunos de Erasmus. Depois nas campanhas temos pessoas de todas as idades, muitos jovens, escuteiros, grupos de escolas e universidades.

A mudança de slogan de ‘Alimente esta Ideia’ para ‘Partilhar Sabe Bem’ é uma forma de ir ao encontro dos mais jovens através das redes sociais?

Também, mas não só. A palavra partilhar é um dos valores do Banco Alimentar desde o início, ainda antes até de se partilharem fotografias nas redes sociais. O slogan ‘Alimente esta Ideia’ – foi uma assinatura fortíssima durante 15 anos, mas é preciso mudar. Então uma agência nossa amiga e voluntária sugeriu ‘Partilhar Sabe Bem’ precisamente para haver uma ligação às redes sociais, mas também para frisar o ‘sabe bem’ porque há um bom sabor: é bom na comida, mas também é saboroso do ponto de vista afetivo. Quando se partilha sabe-nos bem porque ficamos mais ricos do ponto de vista afetivo.

Quais são as expetativas para o futuro do Banco Alimentar?

O meu maior sonho era fechar o Banco Alimentar, porque era sinal de que ele não era necessário. Por um lado, porque não haveria excedentes e, por outro, porque não haveria carências. Acho que a sociedade se está a organizar para haver cada vez menos desperdício alimentar. Uma coisa é o desperdício, outra coisa são os excedentes. Desperdiçar é destruir, excedentes são sobras. O Banco Alimentar vai buscar os excedentes para entregar onde falta. Quando as empresas são mais eficientes têm menos excedentes porque programam melhor a sua produção, mas excedentes vão haver sempre. As empresas querem vender o seu produto e não podem arriscar a não ter produto na prateleira. E também porque há muitos excedentes de frutas e legumes que dependem mais do ano agrícola do que propriamente da compra.

O meu maior sonho era fechar o Banco Alimentar, porque era sinal de que ele não era necessárioOs Bancos Alimentares vão ter sempre um papel a desempenhar em ir buscar os excedentes para os levar onde faz falta, fazendo com que se evite o desperdício. Vamos tirar partido das novas tecnologias para aumentar a eficiência, mas também para captar mais jovens que percebam que o voluntariado é algo com o qual se podem comprometer para a vida e essa é uma mensagem que os bancos alimentares vão continuar a transmitir e que vai ser o foco. Tem de ser o foco e uma cultura em Portugal.

*Pode ler a primeira parte desta entrevista aqui.

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