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Europa responde à crise dos refugiados de forma caótica

O historiador e comentador político Pacheco Pereira defendeu hoje, na cidade da Praia, que a Europa "está doente" e que essa doença se reflete na "resposta caótica" que tem dado à crise dos refugiados.

Europa responde à crise dos refugiados de forma caótica

"A Europa está doente e a doença da Europa acaba por se refletir na maneira como reage a determinados acontecimentos de que talvez o mais significativo seja a crise dos refugiados. Na realidade as guerras de onde esses refugiados vêm foram em grande parte incentivadas pela própria Europa", disse Pacheco Pereira, lembrando as intervenções europeias na Líbia e na Síria.

O historiador, que está em Cabo Verde para duas conferências sobre Democracia, Liberdade e Segurança (quarta-feira no Mindelo e hoje na Praia) falava hoje à noite aos jornalistas à entrada da conferência na cidade da Praia.

"O que se cria é uma situação caótica, que organizações como o Estado Islâmico tem vindo a ocupar, criando uma insegurança grande para a Europa", afirmou.

Sublinhou que o facto de os atentados de Paris terem coincidido com a entrada de um número significativo de refugiados "criou uma associação entre os atentados e o terrorismo e o risco colocado pelos refugiados".

"A Europa hoje não tem muitas condições de unidade, de entendimento, de discussão para responder a esta situação e tem sido caótica a resposta. Uns países respondem de uma maneira, outros de outra, mas muito insuficiente em relação ao que se está a passar" acrescentou.

Pacheco Pereira abordou, neste contexto, a relação "nem sempre fácil" entre democracia, liberdade e segurança, considerando que muitas vezes em acontecimentos recentes se tem usado a questão da segurança numa perspetiva "securitária, muitas vezes incompatível" com os valores da liberdade e democracia.

Como exemplo, apontou a suspensão da constituição em França na sequência dos atentados de Paris.

"Mesmo em países que têm democracias consolidadas temos que estar sempre atentos aos fatores que as podem por em causa [?] Não podemos aceitar em democracia soluções que suspendem direitos liberdades e garantias apenas porque elas são mais fáceis para combater o terrorismo", disse.

Pacheco Pereira reconhece que uma "sociedade democrática não suporta uma situação de insegurança estabilizada" e sustenta que é preciso encontrar um equilíbrio.

O historiador considerou ainda que a democracia portuguesa "não está bem" por causa da perda de soberania em relação à Europa.

"O parlamento português não tem hoje poderes orçamentais praticamente nenhuns, não pode decidir sobre o orçamento, os governos têm muitas limitações em decisões que são de política corrente e acho que isso é uma perda de democracia", disse.

"Na Europa, sem ninguém perceber, as pessoas acordaram com parlamentos que não tem poderes, sem ninguém nunca ter tomado essa decisão e isso é péssimo", reforçou.

Para Pacheco Pereira, a crise depois de 2008 gerou a ideia de uma situação de emergência e de que é preciso por em causa direitos dos povos.

O comentador considerou a situação política atual em Portugal "muito interessante, mas muito instável", sustentando que a perda de soberania que está a acontecer em Portugal e já aconteceu na Grécia "é muito preocupante".

"Porque sem soberania não há democracia", disse, lembrando que há um conjunto de fatores que podem ajudar a recuperar alguma soberania, processo que, considerou, não será fácil.

"A política que se tem seguido desde 2008 é a alemã que tem uma determinada interpretação de como se combate a crise económica. Salvamos bancos com milhares e milhões de euros, mas aumentamos significativamente o desemprego e a pobreza", disse.

Na conferência, durante cerca de hora e meia fez uma incursão histórica pelas democracias grega e norte-americana para concluir que a democracia está mais em risco do que se pensa.

Lembrou que a democracia não existe na natureza, antes parte de uma escolha das pessoas, sublinhando as fragilidades da sua construção e como "é sempre mais fácil estragá-la do que aperfeiçoa-la".

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