Inês Leonardo nasceu em Portugal, mas a sua conexão com as raízes moçambicanas é profunda e foi cultivada pela família.
"As minhas raízes africanas sempre estiveram enraizadas dentro de mim", disse a jovem, acrescentando que a mãe desempenhou um papel fundamental ao manter vivas as tradições moçambicanas através da gastronomia, da música e do convívio familiar.
Já Bernardo Lima, filho de país são-tomenses, sente uma ligação profunda com a suas origens, moldadas e perpetuadas pela forte influência da família.
Embora, Bernardo lima tenha uma conexão forte com a cultura e as tradições, contou que reconhece a dificuldade de dominar o crioulo forro - língua local de São Tomé -, que aprendeu de forma "irónica" ao ouvir os pais quando não queriam que ele percebesse o que diziam.
Já Marlúcia Caponzo partilha a sua experiência como uma afrodescendente angolana, que sente uma ligação parcial às suas raízes, reconhecendo uma mistura cultural significativa.
A jovem de origens moçambicanas critica como a história é lecionada nas escolas portuguesas, com foco em Portugal e negligenciando as história de outros países, nomeadamente os da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), afirmando que esta falta de conhecimento contribui para o racismo e para a falta de integração.
"Se a história dos PALOP [Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa], da CPLP estivesse bem integrada nos conteúdos programáticos das escolas", a nova geração teria "outra perspetiva e seria menos propensa a preconceitos", defende Inês Leonardo.
Marlúcia Caponzo partilha da mesma opinião, acrescentando que "seria um benefício não só para a comunidade africana em Portugal, mas também para os portugueses".
Já o jovem são-tomense acredita que a integração deste tipo de conteúdo nas escolas é uma questão complexa, por trazer "temas sensíveis como a escravatura e o massacre de Batepá" e devido ao atual clima político em Portugal, e que deve ser ponderada.
Por outro lado, o jovem considera que a divulgação da história deveria ser feita em "fóruns ou espaços dedicados para tal".
Os jovens identificaram vários desafios como a discriminação na escola, no trabalho e nos hospitais, mostrando-se preocupados.
Marlúcia expressou também preocupação com o retrocesso nos direitos conquistados pela comunidade afrodescendente, citando, em conjunto com Bernardo Lima, os exemplos da revogação do direito de todas as pessoas que nasçam em Portugal terem a nacionalidade Portuguesa e a complicação dos processos com a Agência para a Integração Migrações e Asilo (AIMA).
Inês Leonardo sublinhou que o racismo é uma realidade em Portugal, relatando uma experiência pessoal, onde um suposto preconceito num processo de seleção para um estágio a fez sentir "o primeiro choque e o medo do racismo".
"Deveria haver mais representação, especialmente dentro da política. Olhar para pessoas iguais a nós", destacou Marlúcia Caponzo, mostrando a importância desta representação para que a comunidade de afrodescendentes tenha uma voz e as necessidades representadas.
Questionados sobre mudanças para o futuro, os jovens disseram que a sua visão para o futuro passa por jovens mais ativos, informados e dispostos a "fazer a mudança" e a lutar contra o discurso de ódio e o preconceito.
"A nossa geração é a chave que pode mudar o futuro", afirmou Inês Leonardo.
O Dia Internacional dos Afrodescendentes foi proclamado pela ONU para homenagear as contribuições da diáspora africana e combater o racismo e a discriminação racial.
A data serve também para reconhecer a riqueza das culturas africanas e afrodescendentes e reforçar o compromisso com a igualdade, justiça e desenvolvimento para todos os povos de ascendência africana.
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