Meteorologia

  • 14 JULHO 2024
Tempo
22º
MIN 15º MÁX 26º

Ucrânia? Putin quer recuperar tudo o que é "solo sagrado" soviético

O analista português Carlos Brás defende que o presidente russo, Vladimir Putin, ao invadir a Ucrânia, em 2022, deu início à intenção do Kremlin em "recuperar o solo sagrado" que pertenceu à União Soviética ou ao Império russo.

Ucrânia? Putin quer recuperar tudo o que é "solo sagrado" soviético
Notícias ao Minuto

07:07 - 20/06/24 por Lusa

País Guerra na Ucrânia

Numa entrevista à agência Lusa, Carlos Brás, licenciado em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e que, desde 2010, no Serviço de Informações de Segurança (SIS) português, começou a acompanhar e a analisar diariamente a propaganda russa, lembra que, nos círculos políticos russos, as ambições de Putin são imensas.

"Houve alguém que resumiu muito claramente as intenções do 'putinismo', chamemos-lhe assim, que eles querem anexar até a lua, se puderem. Não têm ideias de ficar por ali. Acham que todo aquele espaço que alguma vez foi russo, que pertenceu à União Soviética ou ao Império Russo, é deles por direito próprio. Tudo aquilo é solo sagrado russo que eles têm que recuperar", sublinha.

Carlos Brás, que fez a sua carreira no SIS, onde acompanhou matérias relacionadas primeiro com a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e depois com a Federação Russa, é o autor do livro "A Guerra da Ucrânia Vista de Moscovo", que é hoje apresentado em Lisboa.

O autor da obra, que respondia à Lusa sobre quais são as verdadeiras intenções do Presidente russo, sustenta que é necessário saber duas coisas, "as intenções e as capacidades" de Moscovo.

"As reais capacidades dos russos são difíceis de aferir. Eles dizem que têm coisas que não têm e não dizem, se calhar, outras coisas que têm. Isso é difícil de aferir. Agora, as intenções estão plasmadas nos 'media' deles. Não há dúvida nenhuma que estão, pelo que se consegue ler" nas entrelinhas da imprensa russa e das fontes que mantém na Rússia, aponta o analista.

"Na parte das capacidades aí é que eu não sei. Quais são as verdadeiras capacidades? Mas acho que as capacidades deles esgotam-se quando entram em confronto com as capacidades dos seus opositores. Acham que têm uma capacidade que, se quisessem, podiam conquistar a Europa. Lembro no livro, mas citando-os, que vinham lavar as botas às praias de Portugal e que, se quisessem, podiam invadir a Europa toda. Eles é que não querem. É claro que não será bem assim", exemplifica.

Questionado pela Lusa qual poderá ser o papel da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) no conflito que já entrou no terceiro ano, Carlos Brás refere que, do ponto de vista de Moscovo, a Aliança Atlântica tem duas interpretações, que utiliza, depois, as que mais lhes convêm.

"Numa, a NATO é constituída por um exército de cobardes, que não querem intervir, que só estão lá para ganhar dinheiro, que não servem para nada. E que, mesmo estas guerras que fazem, esta guerra que vão fazer à Rússia, porque, quem declarou guerra à Rússia, afinal de contas, acabou por ser o Ocidente, é uma guerra por procuração, que eles pagam à Ucrânia para fazer, para atacar a Rússia, porque eles não têm coragem para isso", sustenta.

"Numa outra visão, é exatamente o contrário, em que dizem que, na cimeira de Vilnius, no ano passado, a NATO traçou planos para invadir a Rússia, para a conquistar, para a desmembrar, para dividir entre os seus membros, mas só estão prontos para atacar a Rússia no ano 2030", prossegue

Nesse sentido, argumenta, a Rússia de Putin tem duas versões à escolha, independentemente de haver a certeza de que o Kremlin "teme a NATO".

"Porque, se não tivessem a NATO, em vez de terem começado pela Ucrânia, que é um país grande, com 40 milhões e bem armado, teriam começado pelos 'gnomos' bálticos, como eles chamam, que seria muito mais fácil de conquistar. Então, se não começaram por aí, significa que eles têm algum respeito pela NATO", justifica.

No livro, de mais de 600 páginas, prefaciado pelo general Carlos Jerónimo, que começa em 2002 e termina com a reeleição de Putin como Presidente, em março desde ano, o autor apresenta exemplos da "guerra faz-de-conta", ou das verdades alternativas russas, desconstruindo os mitos entretanto criados pelo Kremlin.

"Há três níveis de desconstrução. Há algumas que eu nem sequer me dei ao trabalho de desconstruir, porque são tão absurdas, tão absurdas, que o bom senso chega. Por exemplo, lembro-me de uma que está logo no princípio do livro, em que um grande propagandista do Kremlin, Dmitry Kislev, em fevereiro de 2023, num programa que tem no canal de televisão Rossiya 1, o Vesti Nedeli, disse que a Catedral de Notre-Dame ia ser reconstruída, mas que a Brigitte Macron [a primeira-dama francesa] tinha feito aprovar um projeto que substituía uma das torres por um falo dourado enorme com duas bolas na base. E apresenta fotografias do projeto", conta Carlos Brás.

O segundo nível, explica o analista, é entre os próprios 'media' afetos ao Kremlin, que se contradizem. 

"Por exemplo, a televisão Tsar Grad, ultranacionalista, muito ligada à igreja ortodoxa, consegue dizer coisas que os outros não podem dizer, porque vai mais além. Podem criticar as ações dos militares na Ucrânia sem correrem riscos de serem consideradas falsificações, porque acham que aquilo é pouco, que se tem de haver maior agressividade e fazer mais bombardeamentos. Às vezes desmente as verdades oficiais que emanam dos órgãos mais moderados", acrescenta

Já o terceiro nível de desconstrução passa, de acordo com o autor, por opor uma verdade àquilo que se sabe e que, para esse efeito, se utilizam muito dois portais noticiosos, um russo e um ucraniano, que desconstroem estas mentiras: o "StopFake", uma organização ucraniana sem fins lucrativos que se dedica a refutar a propaganda russa e os conteúdos falsos, e o "The Insider" (russo). 

[Notícia atualizada às 10h41 do dia 21 de junho de 2024]

Leia Também: Sorrisos, paradas e passeios de carro. Putin visitou aliado Kim Jong-un

Recomendados para si

;
Campo obrigatório