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Troia. "Acalmei o rapaz e disse 'a gente vai-se safar'", lembra timoneiro

Manuel Coelho, o timoneiro do barco que naufragou em Troia, revela como ainda consolou Francisco, o menino de 11 anos que morreu. "Estou a viver isto a toda a hora. Não estou bem", assegura.

Troia. "Acalmei o rapaz e disse 'a gente vai-se safar'", lembra timoneiro

"Sinto-me mal, sinto-me pior do que culpado, mas, ao mesmo tempo, sei que o mar é que me fez isto". Estas são as palavras de Manuel Coelho, o timoneiro do barco que naufragou no dia 7, em Troia, vitimando quatro pessoas, uma delas uma criança de 11 anos. 

"Tinha as condições todas para isto não acontecer e aconteceu-me", disse, em entrevista à CNN e à TVI. 

"Estou a viver isto a toda a hora. Não estou bem", prossegue, dizendo: "Podia ter lá ficado também, se calhar tinha sido tudo mais fácil".

Na mesma entrevista, Manuel Coelho diz que naquela manhã navegou para o sítio onde vai "praticamente sempre" quando vai à pesca. "Quando cheguei à fase final do canal comecei a notar que o mar estava a engrossar e comentei com eles 'isto não está capaz, vamos voltar'", recordou.

"Quando estava a voltar para trás, levei com uma onda, que nem sei de onde veio. Aquilo foram frações de segundos. Houve dois [ocupantes] que supus que foram logo cuspidos, o Ricardo e o outro amigo, e eu fiquei dentro do cockpit voltado ao contrário com o filho dele, o miúdo", explica o timoneiro, dizendo que se criou uma bolha de ar, deixando-o a ele e à criança submersos até ao pescoço. 

"Não sei precisar quanto tempo, mas acalmei o rapaz e disse-lhe 'a gente vai-se conseguir safar. Quando chegares lá fora já está lá o teu pai e os amigos'", conta, dizendo que conseguiu colocar Francisco, o menino de 11 anos, fora do barco. 

"Não consegui sair porque tive de voltar para trás para tomar ar. E quando vou para sair, o barco dá outra volta. Quando veio a outra onda, consegui ver a claridade, e foi quando mergulhei de novo e saí. Consegui ainda nadar para o barco e agarrei-me, e continuei sempre a vê-los. Não consegui ir buscá-los, cada vez afastavam-se mais. Estavam a gritar. Nem quero ouvir os gritos. A única pessoa que não vi e que podia estar mais para a frente, era o miúdo, que era o único que tinha o colete", lembra ainda o timoneiro na mesma entrevista. 

"Quando o barco afundou, larguei o barco e continuei a nadar. Entretanto, vem um barco que vê a proa, e eu comecei com um braço no ar a gritar, e foram eles que me resgataram", recorda. 

Quando questionado sobre o que gostava de dizer às famílias das vítimas, é parco nas palavras: "Se pudesse punha-os cá todos, não tenho esse condão. Não sei como é que lhes posso valer mais"

Já sobre os alegados 50 euros que foram pagos pela viagem, Manuel diz que "as despesas tinham de ser divididas". "Não fizemos contas nenhumas", assegura. 

Ricardo, Francisco, Gabriel, José: Quem são as vítimas do naufrágio

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Cada uma das vítimas do naufrágio em Troia pagou 50 euros pelo passeio.

Marta Amorim | 09:18 - 09/04/2024

A embarcação, assegura, "estava nova nova nova" e o seguro "cobria os 6 ocupantes": "custou-me 300 e qualquer coisa euros".

"Mandaram um perito [do seguro] logo no outro dia, nem me deixaram arrefecer e agora estou à espera", afirma ainda, frisando não saber como o assunto "vai terminar". 

Recorde-se que, no dia 7, a embarcação, com o nome 'Lingrinhas', levava a bordo quatro homens e um rapaz de 11 anos, alegadamente para irem pescar chocos, quando naufragou a cerca de milha e meia (aproximadamente três quilómetros) de Troia.

O barco, registado na Polónia, mas com boia de amarração num fundeadouro no Porto de Setúbal, terá naufragado, afundando-se de seguida, por volta das 07h00, mas a Polícia Marítima só recebeu o alerta três horas depois, às 10h05.

O timoneiro e proprietário do barco, um homem de 62 anos, foi resgatado com vida por outro barco que passou na zona e, no próprio dia do naufrágio, foram retirados do mar os corpos do rapaz, de 11 anos, e de um outro homem, de 23.

As buscas mantiveram-se e mobilizaram meios por terra, mar e ar durante diversos dias, com as autoridades a tentarem localizar os outros dois passageiros desaparecidos, o pai do rapaz e o outro homem, de 21 anos, irmão do jovem de 23 que já havia sido encontrado.

Dois corpos, presumivelmente destas vítimas, deram à costa nas últimas horas. Um corpo dos corpos à costa este final de tarde de sexta-feira em Troia. A notícia, avançada pela CNN Portugal, foi confirmada ao Notícias ao Minuto por fonte da Autoridade Marítima Nacional (AMN). Contactada pela Lusa, fonte do Comando Sub-Regional de Emergência e Proteção Civil do Alentejo Litoral confirmou que foi encontrado um corpo às 18h42, na praia do Bico das Lulas, em Troia.

Trata-se do segundo corpo a aparecer na zona em dois dias já que, esta quinta-feira, o corpo de um homem, "em avançado estado de decomposição", foi encontrado numa praia da zona da Comporta, no concelho de Grândola (Setúbal). 

A CNN adianta que o cadáver encontrado na zona da Comporta pertence ao homem de de 24 anos que foi vítima do naufrágio em Troia, a 7 de abril, explicando que resta apenas encontrar o homem de 40 anos.

Ao Notícias ao Minuto, fonte da AMN avançou que ainda não é possível confirmar que estes corpos pertençam aos dois desaparecidos do naufrágio, invocando o segredo de justiça. 

Leia Também: Inquérito a naufrágio de barco perto de Troia sem arguidos constituídos

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