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Conselho para os Refugiados completa 30 anos de sobrevivência e de apoio

Criado para defender o direito de asilo em Portugal, o Conselho Português para os Refugiados (CPR) completa 30 anos "de sobrevivência e subsistência", mas também de apoio a cerca de 14 mil pessoas, que aqui encontraram segurança e liberdade.

Conselho para os Refugiados completa 30 anos de sobrevivência e de apoio

A presidente do CPR, Mónica d´Oliveira Farinha, disse à Lusa que as três décadas de vida do conselho representam "um enorme marco de sobrevivência e de subsistência" e que o organismo conseguiu cumprir o objetivo para o qual foi criado, o de promover e defender o direito de asilo em Portugal.

Em jeito de balanço, recordou que foram apoiados cerca de 14 mil requerentes de asilo e refugiados, criados três centros de acolhimento, um dos quais especificamente para menores não acompanhados, além de terem sido criadas respostas especificas de apoio jurídico, social ou de integração, e lembrou como o CPR foi pioneiro no ensino da língua portuguesa e da alfabetização desta população tão vulnerável.

Por outro lado, o vice-presidente da instituição destacou que o grande desafio do CPR tem sido o da constante adaptação à realidade das migrações forçadas, que têm vindo a mudar ao longo dos últimos anos, lembrando que começaram por trabalhar apenas com requerentes de asilo, mais tarde com menores não acompanhados, depois com reinstalados e mais recentemente com os programas de recolocação.

"O segundo desafio é o da sobrevivência financeira. É uma ONG [organização não governamental], não temos fundos próprios, dependemos inteiramente de fundos governamentais ou de projetos europeus e isso tem causado grande desafio num contexto de aumento de pedidos", apontou Tito Campos e Matos, adiantando que o desafio da sobrevivência financeira obriga a trabalhar mais numa lógica de emergência, quando o ideal seria apostar mais num trabalho a longo prazo, e recordando que os anos de 2019 e 2020 foram "críticos", com um subfinanciamento face às necessidades, uma realidade que "ainda permanece hoje" e à qual se somou o desafio da pandemia.

Mónica d´Oliveira Farinha concorda e admitiu que seria "ótimo" para o CPR ter alguma estabilidade, "não ter tanta incerteza financeira para poder trabalhar e inovar em termos de longo prazo".

"Na prática ainda não sabemos qual vai ser o impacto da covid em termos de restrição de mobilidade, em termos de fecho de fronteiras e de limitações nas viagens, mas aquilo que esperamos é que rapidamente as pessoas retomem a necessidade de migrarem isto porque os fundamentos que levam à necessidade de migração mantêm-se", apontou, defendendo que um dos desafios atuais é o de melhorar a forma como Portugal acolhe e integra os requerentes de asilo e os refugiados.

Na opinião do casal iraquiano Fadhil Nidhal Sarhan, 30 anos, e Ahad Samer Abid, 33 anos, o acolhimento foi "ótimo" e assumem que a vinda para Portugal não representou uma preocupação porque se sentiram em segurança e em liberdade, depois de mais de seis anos a viver na Turquia, de onde saíram em 2020.

"Estava muito, muito contente, até quando cheguei ao aeroporto. Quando cheguei ao centro [de acolhimento] fiquei muito tranquila, muito contente porque vou conseguir atingir os meus objetivos, uma vida com segurança e liberdade e um futuro para os meus filhos", recordou Ahad.

A "única coisa negativa" no processo de integração, admitiu Fadhil, está no facto de não conseguir encontrar trabalho, uma dificuldade explicada, em parte por ainda não conseguir falar português.

Ahad, por outro lado, espera que um dia seja possível voltar a trabalhar como optometrista, depois de concluído o processo de certificação de competências.

Esse é, aliás, um problema que existe por toda a Europa, "mas em Portugal em particular", como explicou o vice-presidente do CPR, segundo o qual "os refugiados que estudaram em outros países têm muitas dificuldades em reconhecer os seus diplomas em Portugal", uma questão a resolver tanto em relação aos diplomas escolares como aos profissionais.

Tito Campos e Matos referiu que, a par do reconhecimento das qualificações, outro problema dentro do processo de integração tem a ver com a habitação, sendo "muito difícil" encontrar residência com condições, apontando também a aprendizagem do português como outra dificuldade, com falta de respostas a nível regional e local.

"Além de que os refugiados têm depois a expectativa de encontrar melhores empregos e isso nem sempre acontece por causa da questão das habilitações", apontou, acrescentando que também é difícil encontrar trabalho para grupos específicos, como mulheres sozinhas ou com filhos.

Diaby Abdourahamane, presidente da Associação de Refugiados em Portugal, a viver no país há 15 anos, sublinhou que os refugiados e os requerentes de asilo são pessoas que passaram por muitas situações traumáticas -- uns perderam a família, outros todos os bens -- que fazem com que "tenham duas ou três vezes mais dificuldade em ter acesso ao emprego".

Apontou também que as últimas três décadas foram muito difíceis e deixaram "muitos preconceitos" nas pessoas contra os árabes e os muçulmanos.

Tudo razões que o levaram, juntamente com o CPR, a avançar com um projeto junto das empresas para explicar aos empregadores o que é um refugiado.

"Para gostar de alguém temos de conhecer as pessoas e convidamos estas pessoas a conhecer a história do asilo, a convenção de genebra, a razão por que estas pessoas estão aqui, o papel de Portugal, a responsabilidade social das empresas e a responsabilidade cívica. Fazemos este trabalho com as empresas", contou Diaby Abdourahamane, segundo o qual o projeto já está a ter resultados e já há "várias empresas" a organizar estágios para refugiados.

Apesar de tudo, a presidente do CPR fez um balanço positivo quanto ao esforço para o acolhimento e para encontrar as melhores soluções, admitindo que se mantém o desafio de inovar e investir na integração destas pessoas.

Questionada sobre o que foi mais difícil nestes 30 anos, Mónica d´Oliveira Farinha referiu ouvir as histórias das pessoas que têm necessidade de proteção.

"Em termos pessoais é sempre muito difícil ouvir e manter alguma confiança e esperança no mundo", admitiu.

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