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A "roleta russa" da Covid-19 que deixa sequelas mesmo depois da alta

Dois adultos jovens, sem fatores de risco e que estiveram em cuidados intensivos por Covid-19, alertaram hoje para a doença que é uma "roleta russa" e que deixa várias sequelas que condicionam a vida após a alta hospitalar.

A "roleta russa" da Covid-19 que deixa sequelas mesmo depois da alta
Notícias ao Minuto

21:01 - 11/06/21 por Lusa

País Covid-19

"A Covid-19 não é uma gripe. Não afeta só as pessoas mais velhas, não afeta só as pessoas com comorbilidades ou com fatores de risco. É uma espécie de roleta russa que pode afetar qualquer pessoa e que nunca sabemos quando e em que nível nos pode afetar", afirmou Marta Rangel, 39 anos, que foi infetada no dia do seu aniversário.

Num depoimento no lançamento da iniciativa "Retorno Pós-Covid", organizada pelo Centro de Reabilitação Profissional de Gaia, a jornalista e criadora de conteúdos digitais relatou que terá sido infetada num "mero almoço com a família mais próxima", onde foram seguidos "todos os cuidados recomendados" de proteção.

Segundo Marta Rangel, após os primeiros sintomas e depois de ter recebido a confirmação de um teste positivo, a doença "começou a escalar muito rápido", o que a levou ao internamento no Hospital de São Francisco Xavier (Lisboa) e, de seguida, aos cuidados intensivos, onde esteve sempre consciente e com recurso a oxigénio de forma não invasiva.

Depois da alta hospitalar no início de dezembro, Marta Rangel, que "sempre foi uma pessoa saudável, ativa e sem qualquer fator de risco", debateu-se com várias sequelas da doença, tendo sido acompanhada em dois hospitais numa fase "bastante incapacitante" em que ainda estava a recuperar.

"Para me levantar do sofá e ir à casa de banho, que está a três quatro metros, tinha de ir agarrada às paredes. Não conseguia sequer estar a conversar. Cansava-me muito e ficava com muita falta de ar", recordou a jornalista que trabalha por conta própria.

"Acredito que, se tivesse de ter regressado logo ao trabalho, teria tido certamente algumas dificuldades, porque a infeção por covid foi bastante incapacitante durante algum tempo", salientou, ao avançar que perdeu 60% da capacidade muscular que tinha antes da doença, mas que agora, cerca de seis meses depois, sente-se "praticamente no estado normal".

Já para Ricardo Oliveira, que foi induzido em coma e que esteve em cuidados intensivos mais de um mês no Hospital Pedro Hispano (Matosinhos), o que mais o "castiga neste momento é ao nível psicológico", apesar de apresentar limitações físicas derivadas das tromboses que sofreu.

"Fiquei com muitas sequelas para o resto da minha vida", garantiu o jovem empresário de 31 anos, que, após recuperar da doença, conseguiu concretizar o seu "sonho" e abriu o próprio restaurante.

"Não podemos desistir e temos de seguir em frente. Sirvo à mesa a mancar, mas tem de ser. Não podemos deixar que o vírus nos vença", salientou Ricardo Oliveira que, tal como Marta Rangel, não apresentava fatores de risco para a covid-19, mas que agora tem de lidar com o cansaço como uma das sequelas da doença.

Na iniciativa participou também a médica internista do Hospital de Santa Maria (Lisboa), Sandra Brás, que, desde março de 2020, coordena uma unidade de internamentos de covid-19, que já tratou cerca de 2.500 doentes.

Segundo a médica, a consulta presencial criada em maio de 2020 de seguimento pós-covid, que dá prioridade aos doentes que tiveram doença grave e crítica, pretende minimizar o impacto que as sequelas têm na qualidade de vida, na sua dinâmica familiar e na atividade profissional dos recuperados.

Depois de cerca de 13 meses de atividade desta consulta, Sandra Brás identificou três grandes grupos de problemas nos seus utentes: manifestações físicas, manifestações neurocognitivas psiquiátricas e questões sociais e económicos.

"O vírus não escolhe idade, não escolhe sexo, não escolhe profissões", alertou a especialista, ao avançar que na consulta no Hospital de Santa Maria são seguidos "trabalhadores da construção civil, advogados, médicos, tradutores, professores, empregados de supermercado".

"E se aqueles que têm uma atividade de maior exigência física veem-se limitados pelas dores articulares e pelo cansaço, há um grupo de doentes cujo atividade laboral é mais intelectual -- lembro-me em particular dos professores -- para quem estas dificuldades e estas queixas neurocognitivas são extremamente marcantes", sublinhou a médica.

Além de haver um atraso no retorno à atividade profissional, que acontece com a maioria dos doentes, há um "grande medo de não ser capaz de desempenhar as funções da mesma forma que o faziam antes da doença", o que, nalguns casos, é geradora de ansiedade e de depressão, acrescentou.

"Muitos doentes têm receio de voltar a trabalhar, de sair à rua e de estar com a família e com amigos. O medo da reinfeção é, para alguns doentes, muito intenso e muito castrador", referiu ainda Sandra Brás.

Para Diogo Pereira, médico neurologista da equipa do estudo NeuroCovid do Centro Hospitalar Universitário do Porto, "é certo que há uma clara repercussão neurológica" da infeção pelo vírus que provoca a covid-19, quer na fase aguda da doença, mas também no período pós infeção.

"Os quadros como alterações cognitivas, dores de cabeça e alterações de sono são, provavelmente, os maiores causadores de impacto funcional e de deterioração da qualidade de vida, sendo importante perceber a taxa de persistência desses sintomas", adiantou neurologista.

Para o futuro, os especialistas pretendem apurar se estes sintomas neurológicos estão relacionados com a estirpe do vírus que causou a infeção, se há fatores genéticos do doente que estejam relacionadas com estas alterações neurológicas e a reversibilidade dos sintomas.

A iniciativa "Retorno Pós-Covid" destina-se, através de ações de formação e do acompanhamento posterior, a pessoas que recuperaram da fase ativa de infeção, mas que continuam a sentir dificuldades no seu dia-a-dia e que sentem ou antecipam limitações no seu desempenho profissional.

Esta resposta está implementada em quatro polos em Porto, Coimbra, Lisboa e Faro, mas prevê também iniciativas `online´.

Em Portugal, morreram 17.044 pessoas dos 855.951 casos de infeção confirmados, de acordo com o boletim mais recente da Direção-Geral da Saúde.

Leia Também: Há 92 casos da variante indiana. Transmissão mais evidente em LVT

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