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Saída do Sahara Ocidental "foi mais um sequestro do que uma expulsão”

Ativista Isabel Lourenço garante que vai voltar, uma vez que "não tem qualquer tipo de atividade criminosa" e que apenas queria entrevistar presos políticos naquele território, onde os direitos humanos são atropelados todos os dias.

Saída do Sahara Ocidental "foi mais um sequestro do que uma expulsão”

Isabel Lourenço, ativista e observadora internacional que foi obrigada a deixar os territórios do Sahara Ocidental ocupados por Marrocos esta semana, conta ao Notícias ao Minuto que o que viveu foi mais um sequestro do que uma expulsão. 

"Não me dão nenhuma cópia da ordem de expulsão, nem qualquer papel", relata, descrevendo as "autoridades" como civis, sem farda, que não se identificaram. Só lhe disseram que era "persona non grata" e que tinha de ter uma autorização para "falar com pessoas". 

A ativista diz que esta foi a segunda vez que foi forçada a sair daquele território, a primeira foi em 2015. Desta vez, a situação mais preocupante foi quando, depois de a terem impedido de ficar no território ao desembarcar no aeroporto, a deixaram às 4h da manhã numa cidade [Inezgane] "conhecida por ser um antro de criminosos", exposta a uma situação de "perigo extremo".

"Foi preocupante, mas consegui ultrapassar", afirma. Dali conseguiu apanhar um táxi para Agadir e de lá seguiu para Casablanca, onde apanhou um voo para Lisboa esta quinta-feira. 

Questionada sobre o que devem as autoridades portuguesas agora fazer, Isabel respondeu: "No mínimo, um protesto. Porque tratou-se de um sequestro". "Não tenho qualquer tipo de atividade criminosa, a única coisa que ia fazer era entrevistar pessoas que é um direito óbvio", defendeu.

A União Europeia dá milhões a Marrocos sobre o argumento das melhorias dos direitos humanos, mas pelos vistos para entrevistar pessoas no Sahara Ocidental e o cúmulo do cúmulo foi quando disseram que aqueles com quem queria falar “não são humanos”Tal, acrescentou, "demonstra o grau de repressão que existe no território ocupado no Sahara Ocidental, a falta de transparência, e os limites que estão dispostos a cruzar". 

Isabel é investigadora do centro de estudos africanos da Universidade do Porto e recentemente publicou um relatório que foi feito de trabalho de campo de cinco anos sobre os estudantes e crianças saharauis sobre ocupação.

Voltou àquele território, tendo desembarcado em El Aiune, para reunir com a família do preso Mansour El Moussaui, de 19 anos, e da sua prima Mahfouda Lefkir, de 34 anos, que foi condenada a seis meses de prisão e a uma multa por ter gritado no final do julgamento de Mansour, dentro da sala do tribunal, contra a ocupação de Marrocos e contra a injustiça do julgamento. Ia também falar com as famílias dos presos políticos do Grupo Gdeim Izik.

"Tenciono continuar a fazer o meu trabalho e fazer um acompanhamento da situação dos presos políticos. Quatro deles estão com processos no Comité contra a tortura das Nações Unidas que já emitiu pedido de medidas de urgentes ao governo de Marrocos para libertação imediata, acesso a médico e o fim a todas as torturas a que são sujeitos", vincou, lembrando que estes presos estão há dez anos em condições desumanas. 

A ativista recorda, por exemplo, que esteve presente no segundo julgamento, em 2016 e 2017, como observadora e garante que "não foram apresentadas nenhumas provas a não ser as declarações que fizeram sobre tortura e as declarações da polícia". Algo que considera "inadmissível". "Os advogados de defesa nunca tinham o direito de expor a situação, eram logo interrompidos. É um atropelo total a tudo o que seja direito internacional e tudo o que convencionamos como direitos humanos", relata. 

Isabel aguarda agora "para ver o que o Governo pretende fazer" e recorda que o último relatório das Nações Unidas de abril sobre a situação do Sahara Ocidental "fala da situação dos presos políticos e fala também sobre o impedimento de acesso ao território de observadores internacionais e do alto comissariado das Nações Unidas". O caso de Isabel não é, por isso, único. 

A ativista afirma ainda que o conflito no Sahara Ocidental é um conflito "do qual não se fala". "E é uma pena porque estas pessoas [saharauis], desde 1991, quando foi o cessar fogo sobre a premissa da realização de um referendo (uma situação idêntica à de Timor), estas pessoas estão a resistir de forma pacífica, não violenta". 

"Estamos num mundo que é só violência: temos pessoas que são atacadas, violadas, torturadas no meio da rua todos os dias, onde as crianças sofrem as maiores humilhações e ataques físicos dentro das escolas com os próprios professores", alerta, salientando, por fim, que os  nisto e eles continuam a resistir de forma pacífica. Seria digno como um exemplo de resistência, não fica atrás daqueles ícones que admiramos como Nelson Madela, Gandhi e muitos outros". 

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