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Clima: "Para dizer que 'o rei vai nu' é preciso uma criança"

O professor e ambientalista Viriato Soromenho-Marques considera que as manifestações de jovens a favor do clima são um sinal de esperança e cita Hans Christian Andersen afirmando que foi preciso uma criança para dizer que "o rei vai nu".

Clima: "Para dizer que 'o rei vai nu' é preciso uma criança"
Notícias ao Minuto

09:33 - 23/05/19 por Lusa

País Ambiente

"Para dizer que 'o rei vai nu' é preciso uma criança, porque nós os adultos já estamos todos envolvidos nas nossas carreiras, na educação dos nossos filhos, responsabilidades familiares e económicas. Não nos queremos preocupar ao ponto de ficarmos paralisados e angustiados", disse o professor de Filosofia da Universidade de Lisboa e ambientalista, em entrevista à Lusa, a propósito da greve climática estudantil da próxima sexta-feira, em protesto pela falta de medidas dos países na luta contra as alterações climáticas.

A greve, para exigir dos governos medidas de combate às alterações climáticas, foi iniciada pela jovem sueca Greta Thunberg, que a meio da semana dava conta de que já tinham aderido às manifestações de sexta-feira 1.387 locais de 111 países. Estudantes portugueses também vão participar em várias cidades.

A propósito da iniciativa, o professor, antigo presidente da associação de defesa do ambiente Quercus, envolvido nas causas ambientais em Portugal e na Europa desde a década de 70, elogia o envolvimento dos jovens, que não repetem os "padrões de intervenção cívica" dos pais, mas que estão atentos ao mundo.

Nas palavras de Viriato Soromenho-Marques, ao contrário dos diagnósticos de muitos que já foram jovens, "e que tendem a subestimar a capacidade de intervenção e soberania dos jovens", a adesão a manifestações pelo clima mostra que as gerações mais novas não estão alheadas do que se passa na sociedade.

"Os jovens não comprarem jornais em papel não significa que estejam alheados do futuro. A verdade é que procuram informação. A verdade é que têm uma intervenção diferente na vida pública ainda que tal não signifique que estejam desinteressados no seu futuro", afirma.

E um exemplo é a adesão à luta contra as alterações climáticas em torno da jovem sueca, 16 anos, que começou no ano passado a fazer uma greve às aulas todas as sextas-feiras e a protestar em frente do parlamento sueco pela redução das emissões de dióxido de carbono.

A firmeza de Greta Thunberg, lembrou o professor catedrático e membro do Conselho Nacional do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, chegou depois à Bélgica e a seguir à Alemanha e ganhou a seguir expressão internacional.

Diz Viriato Soromenho-Marques: "É um sinal de esperança porque esse é o grande tema, um desafio completamente novo".

De esperança, mas também de "profundo alarme". O professor lembra a moda do tema conflito de gerações na década de 1960 para dizer que o conflito a sério vai chegar quando os jovens da idade de Greta Thunberg tiverem mais 10 anos, quando perceberem as dificuldades de se viver num mundo "em plano inclinado", com menos oportunidades, menos empregos, mais escassez alimentar devido às alterações no clima, mais secas intensas.

"Se calhar não vão fazer uma greve climática, se calhar vão fazer outras coisas", declara.

Soromenho-Marques admite que a desobediência civil pode ser uma forma de forçar os políticos a agir, até porque pelo caminho que a humanidade leva rapidamente se "vai ver as coisas a correrem verdadeiramente mal".

É por isso que, obsera, a sociedade tem de ir para a rua e, usando meios democráticos, ser exigente, "não largar o assunto".

E lamenta a seguir: "Não conseguimos fazer a diferença, não encontrámos para estas questões das alterações climáticas líderes que soubessem fazer a diferença". Como, no passado, Mikhail Gorbatchov na Europa ou Nelson Mandela em África.

Soromenho-Marques admite que a jovem sueca possa vir a ser uma figura de impacto e projeção mundial. E também admite que acabe "neutralizada" pela sociedade, transformada num ícone.

Mas mesmo que tal aconteça o problema das alterações climáticas não desaparece.

"A questão fundamental é que elas não são uma moda, que as modas são preocupações subjetivas, com base subjetiva. Elas são a realidade a bater à nossa porta, a entrar na nossa vida aos pontapés através dos grandes incêndios, dos furacões, das secas... A realidade que ignoramos e quisemos ignorar, mas que agora já não podemos", alerta.

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