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Twerk na Bola de Ouro. "Muitas vezes, temos de fingir que somos parvas"

A piloto de camiões portuguesa Elisabete Jacinto não acredita que o incidente ocorrido com Ada Hegerberg tenha sido intencional, mas sublinha que foi “um momento infeliz” na celebração de “um feito extraordinário”. A também presidente da Comissão Mulheres e Desporto do COP teceu algumas considerações sobre mentalidades e mulheres no desporto em entrevista ao Notícias ao Minuto.

Twerk na Bola de Ouro. "Muitas vezes, temos de fingir que somos parvas"
Notícias ao Minuto

07:40 - 06/12/18 por Anabela de Sousa Dantas 

País Sexismo

Foi um momento histórico. Ada Hegerberg, de 23 anos, conquistava, na noite de segunda-feira, a primeira Bola de Ouro feminina, entregue pela revista ‘France Football’. Já no palco, a avançada norueguesa, a primeira mulher a receber uma Bola de Ouro e uma voz ativa pela igualdade das mulheres no futebol no seu país, era convidada a fazer ‘twerk’, uma dança sensual, feita sem par.

“Não”, respondeu, visivelmente embaraçada e virando as costas para sair do palco, o que acabou por não acontecer, acedendo ao pedido do apresentador e antigo futebolista David Ginola para uns passos de dança mais convencionais, conforme fora solicitado a outros jogadores.

Numa atividade assumidamente masculina e num contexto social de grande efervescência em relação aos direitos das mulheres e à igualdade de género, a vitória de Hegerberg foi um momento determinante, para o qual se esperariam atenções redobradas. Em conversa com o Notícias ao Minuto, Elisabete Jacinto, presidente da Comissão Mulheres e Desporto do Comité Olímpico Português (COP), fala numa questão de mentalidade e educação.

“Foi um momento infeliz. Há piadas que ficam bem num café, com os amigos, agora num evento público como aquele, de forma nenhuma. Acho que ele [DJ Martin Solveig] não fez por mal, mas, acima de tudo, é consequência da educação que teve. Vem por impulso, é instintivo, a pessoa não pensa porque não estamos habituados a pensar nestas coisas”, indica a piloto portuguesa.

Na mesma noite do evento, as reações surgiram em catadupa, com críticas à escolha do DJ para o interregno de humor com a jogadora. Andy Murray, antigo número 1 do ténis mundial, foi uma dessas vozes, chamando atenção para as perguntas que foram feitas a jogadores como o Mbappé e Modric, que também estiveram em palco. “Toda a vida estive envolvido no mundo do desporto e o nível de sexismo é surreal”, afirmou, através das redes sociais.

Elisabete Jacinto não acredita que tenha sido intencional. “Não foi uma necessidade de afirmação da parte dele. Há muitas piadas sexistas que são, neste caso acho que não foi. Quis fazer uma piada fácil, uma piada engraçada rápida, mas saiu-se mal”, indicou, sublinhando, porém, que há “coisas que já não são aceitáveis como eram há uns anos”.

“Surge este movimento de crítica porque se pretende que a mentalidade mude. Nós tivemos esta educação machista, foi assim que crescemos. Para se mudar a atitude, implica de vez em quando que se cometam algumas argoladas, alguns erros, que a pouco e pouco temos que ir corrigindo”, afiança.

“Ela estava lá porque fez um feito extraordinário, foi a melhor mulher no futebol feminino, e isso é que devia ser valorizado ao máximo naquele evento, era por aí que ele devia ter ido”, enfatiza a piloto. Hegerberg, sublinhe-se, conquistou a Liga dos Campeões feminina na época passada, com a camisola do Lyon.

"Foi acontecendo imenso comigo também"

Elisabete Jacinto é uma piloto de competições todo-o-terreno, portanto, com vários anos de experiência num desporto maioritariamente masculino, e vê a reação da jogadora, em desvalorizar o caso, com naturalidade.

“Ela fez uma coisa extraordinária e estava concentrada nisso, levou para a brincadeira. Mas nós, todas as mulheres que desenvolvem uma atividade que é muito masculina, enfrentamos estas situações todos os dias. Não se pode levar a fio de espada e entrar em guerra com todas as pessoas, porque senão não se consegue viver, sequer. Passa por aí, por desvalorizar, valorizar aquilo que deve ser valorizado e seguir em frente, na esperança de que no futuro será melhor. Como foi acontecendo imenso comigo também, é assim que a gente tenta dar a volta às questões. Muitas vezes, de uma forma inteligente, fingir que somos parvas”.

Existem casos de sexismo no desporto em Portugal? “Nós fingimos que não existe, mas existem vários casos. Não vou falar de nenhum em concreto, mas existem. Nós vivíamos num país maravilhoso se passássemos à margem destes problemas todos. Nós vivemos numa cultura latina, temos uma cultura machista e ainda temos muitos passos para dar no sentido de caminhar para uma atitude correta”.

A piloto recorda a baixa taxa de feminização no desporto em Portugal. “Nós temos apenas 12,6%, se não me engano, de mulheres a praticar desporto”, um número que coloca o país num lugar “muito discreto” no que toca a casos de sexismo ou assédio sexual no universo desportivo.

“Faço parte da Comissão Mulheres e Desporto do COP e estamos a tentar pegar, da forma que nos é possível, nestes aspetos. Mais no sentido de aumentar o número de mulheres no desporto e o que se pode fazer para que as federações tomem medidas. Essa área do assédio sexual é uma das que estamos a trabalhar, e há muito para fazer. Aquilo que temos feito é uma gota de água, que não é visível ainda, mas tenho esperança que, a pouco e pouco, ganhe alguma visibilidade e algum peso”, remata.

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