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Feminismo ou 'objetificação' do corpo? Anitta, a 'malandra' da discórdia

Anitta, um rosto pela defesa do corpo feminino ou uma mulher a 'objetificar' o corpo feminino? Feministas portuguesas defendem: "As mulheres são donas do seu corpo e têm o direito sobre ele".

Feminismo ou 'objetificação' do corpo? Anitta, a 'malandra' da discórdia

A luta pela igualdade de género, de que as mulheres são rosto, tem-se feito ao longo dos anos, passo a passo. E é assim mesmo que surge Anitta.

Falamos de uma das mais emblemáticas cantoras brasileiras da atualidade, protagonista de um dos videoclipes em português mais vistos e mais criticados de sempre. Passo a passo, com o rabo em  grande plano e enfoque nas suas celulites. É desta forma que a cantora nos presenteia, naquele que será um claro manifesto de que chegou o momento de as mulheres se aceitarem como são.

Lançado em dezembro do ano passado, o videoclipe fez história ao tornar-se na primeira música em português a estar entre as 20 mais ouvidas do Spotify, e tornou-se num dos mais comentados nas redes sociais.

Como Anitta, existe nos dias de hoje uma nova geração de artistas femininas que não se inibe de mostrar as curvas e que assume essa atitude como uma forma de luta pelos seus direitos de, enquanto mulheres, poderem fazer o que entenderem sem receio de serem alvo de comentários menos positivos por parte da sociedade.

Mas estaremos a assistir a uma nova luta feminista ou estão estas novas artistas a contribuir, ainda mais, para a 'objetificação' do corpo da mulher? No âmbito do Dia da Mulher e do longo percurso que ainda há a fazer para que mulheres e homens estejam no mesmo patamar, o Notícias ao Minuto falou com dois rostos da causa feminista em Portugal para tentar perceber de que forma é que estas novas artistas podem ajudar a dar mais um passo em nome da igualdade.

Feminismo, 'objetificação' ou fama?

Se para muitos ‘Vai Malandra’ foi um grito de afirmação, por outro lado as críticas não se fizeram esperar com muitos a considerarem que Anitta estava apenas a contribuir para que os homens olhem cada vez mais para as mulheres como um objeto. A artista não hesitou em defender-se, e em entrevista à Globo, afirmou: "A ‘malandra’ do clipe não é objetificada, ela é a dona da história. Ela não é representada somente por mim, mas por todas as mulheres que participaram do clipe, na cena da laje ou na do baile. O clipe mostra diversos tipos de beleza, com diversas cores, pesos e géneros. E toda essa beleza também é real, assim como a minha celulite”, disse, acrescentando que ao invés de julgar, as mulheres deviam se “ unir e parar de julgar os corpos e as escolhas umas das outras”.

Isabel Gonçalves, da associação Mulher Século XXI, rejeita “tecer juízos de valor sobre as opções que essas artistas tomam em prol do sucesso das suas músicas”. Considerando que essas opções “se enquadrarão num determinado contexto musical e geracional, não sendo totalmente ligadas ao intento sexual dos potenciais consumidores de música”, a presidente da associação feminista defende que “todas as pessoas devem poder decidir livremente sobre o seu corpo, independentemente do sexo a que pertencem”.

“A luta feminista visa as opções pessoais e livres das mulheres. Se uma mulher, de alguma forma, expõe mais o seu corpo, merece o mesmo respeito que outra que exponha menos. Temos de combater a cultura sexista que reserva às mulheres comportamentos mais recatados e discretos, permitindo apenas que os homens que se exponham”, defende.

Mudam-se os tempos, mudam-se as causas da luta

O início da causa feminista remonta ao século XIX e início do século XX, altura em que se defendia a promoção da igualdade nos direitos contratuais e na oposição de casamentos arranjados e da propriedade de mulheres casadas. Até hoje, a luta já passou por diversas fases e evoluções: passou pela luta pelo direito de voto e chegou à questão da sexualidade.

Manuela Tavares, fundadora da UMAR, está na luta do feminismo há já muitos anos. Dois anos após a revolução de Abril, aliou-se a um conjunto de mulheres para a criação da União de Mulheres Alternativa e Resposta e está bem ciente de que os tempos mudaram.

Há sempre lutas que vão continuar a existir [como a questão das diferenças salariais] mas há também novas expressões do novo feminismo, muitas delas dedicadas à arte e nós temos que as aceitar”, diz Manuela Tavares, considerando que são estas novas formas “que fazem do feminismo um movimento atual e atuante”.

A UMAR, garante, não faz “concepções moralistas” sobre o assunto e considera que se o uso do corpo for em prol da “luta feminista”, então isso não “constrange, pois são formas de romper silêncios de fazer com que a causa chegue a mais pessoas, sobretudo a jovens, que são mais sensíveis a estas formas de atuação”. 

“Não podemos colocar de lado tudo o que possa contribuir para o avanço da consciência feminista das mulheres”, defende a fundadora da UMAR.

 A causa feminista como forma de promoção?

Uma das críticas apontadas a Anitta após a divulgação de ‘Vai Malandra’ surgiu por parte dos que acreditam que esta se apropriou da causa feminista para conseguir promover a sua carreira. Muitos alegam que os trajes menores não seriam um ‘bater na mesa’ pelo direito de assumir o seu corpo como é, mas sim uma forma de ganhar mais fãs, mais visualizações.

Manuela Tavares lembra que “durante muito tempo o corpo da mulher foi mercantilizado e continua a ser”, pelo que se nega a colocar "rótulos" nestes artistas, mas vinca que não a incomoda que o corpo “sirva para as nossas lutas”.

Isabel Gonçalves partilha da opinião, sustentando que as mulheres que se assumem como tal, tomam um “ato de afirmação pessoal e coragem social”. A líder da Mulher Século XXI destaca mesmo que muitas mulheres se afastam do feminismo por este ser ainda considerado um “movimento radical” e que não se deve condenar as mulheres que não têm medo de se assumir como tal.

Se é pelos direitos femininos, 'Vai Malandra'

Quanto ao uso do corpo da mulher, e numa altura em que muitas mulheres se estão a unir em Hollywood contra os abusos e assédio de que são alvo, fica a questão: não estão estas artistas a distorcer o foco da causa feminista, aumentando a questão da 'objetificação' e incentivando ao assédio?

“Não”, responde sem hesitação Isabel. “As mulheres são donas do seu corpo e têm o direito sobre ele. Nunca é a forma como se vestem que poderá justificar a perturbação da vida pessoal destas mulheres, isto é, a ocorrência de um crime contra elas", declara, sublinhando que pensar o contrário é “passar um atestado de descontrolo e irracionalidade aos homens e, ao mesmo tempo, estaremos de mãos dadas com os criminosos e de costas voltadas para as vítimas”.

Anitta e tantas outras artistas não deixarão de ser alvo de críticas, é certo,  mas acreditam as defensoras da causa feminista que se a artista continuar a dar ‘o corpo à bala’ e a protagonizar um verdadeiro ‘Show de Poderosas’, poderá estar a contribuir para a causa, a ‘expulsar as invejosas’ e a mostrar que este ‘exército tem poder'. É assim, pelo menos, que canta a própria. 

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