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Polacos entre propostas opostas numa das votações mais incertas

Cerca de 30 milhões de polacos vão ser chamados às urnas no domingo, numas das eleições mais polarizadas e incertas da sua história, em que nenhuma das forças dominantes no país deve conseguir maioria para governar sozinha.

Polacos entre propostas opostas numa das votações mais incertas
Notícias ao Minuto

18:41 - 14/10/23 por Lusa

Mundo Polónia/Eleições

Em causa está a continuidade num terceiro e inédito mandato do partido conservador populista PiS, liderado pelo dirigente histórico Jaroslaw Kaczynski, e a alternativa dos liberais da Plataforma Cívica PO), de Donald Tusk, ex-presidente do Conselho europeu e ex-primeiro-ministro.

Na sexta-feira à noite, Kaczynski e Tusk desdobraram-se em comícios e ações de campanha, conscientes de que as sondagens dão uma curta vantagem de quatro pontos percentuais para os populistas e que as margens são muito estreitas para que, ganhe quem ganhar, consigam governar sozinhos.

Em paralelo, as forças mais pequenas fizeram o mesmo, galvanizadas pelas últimas pesquisas de opinião, que dão resultados acima dos 10% aos conservadores da Terceira Via e à coligação Esquerda, mas apenas 8% à Confederação (extrema-direita), que tem vindo a perder nas intenções de voto ao longo da campanha e sua capacidade de se tornar determinante no desfecho eleitoral.

Num cenário improvável antes da campanha eleitoral, os números começam a desenhar a viabilidade de um cenário de uma espécie de "geringonça polaca", unindo o PO, a Terceira Via e a Esquerda, mesmo que o PiS consiga ganhar o escrutínio e beneficie do apoio da extrema-direita.

Numa campanha dura e em grande parte negativa, o PiS esforça-se por colar a coligação de Tusk à imagem de traidora da Polónia e "personificação do mal", que, por sua vez, devolve a acusação ao clamar que esta é a última oportunidade para salvar a democracia na Polónia.

Na agenda do PO também estão temas tabus para os conservadores sobre despenalização do aborto e direitos das pessoas LGBTQ+, no país mais católico da Europa.

Tanto os políticos como a generalidade dos analistas preferem lidar com um cenário de incerteza até ao último minuto, depois do encerramento das urnas às 21:00 locais (menos uma em Lisboa) e até aos resultados finais que só devem ser conhecidos na terça-feira.

Nestas eleições joga-se também a avaliação do exercício do poder do PiS, acusado de sequestrar ao longo de oito anos o setor estatal e da administração pública, manipulando a justiça e a independência dos juízes, o que valeu a Varsóvia o congelamento de fundos comunitários por desvios ao estado de direito.

Face ao europeísta Donald Tusk, que quer ver a Polónia reencaixar-se na harmonia dos 27, o partido no Governo tem reforçado a sua atitude de resistência a Bruxelas, quando, já com as eleições à vista, recusou a determinação comunitária de levantar o bloqueio aos cereais da Ucrânia, num gesto de proteção aos seus agricultores, cujo sindicato representa mais de dois milhões de votos.

Já depois disso, as autoridades polacas recusaram-se a aplicar o acordo sobre o pacto migratório europeu, reiterando que os planos de relocalização de imigrantes propostos por Bruxelas transformariam, nas palavras do primeiro-ministro, Mateusz Morawiecki, "as ruas polacas em campos de batalha" e dariam origem a "imagens como as de Paris mas em Varsóvia".

A imigração descontrolada é apresentada pela Polónia como a grande ameaça à segurança europeia que Bruxelas não sabe compreender, numa narrativa que ficou em causa com o escândalo da trama de corrupção diplomática polaca que supostamente vendeu mais de 250 mil vistos a imigrantes do Médio Oriente e África, que são separados enquanto "ameaça" do acolhimento pacífico de cerca de um milhão de refugiados ucranianos ou exilados políticos bielorrussos no país.

A Polónia assumiu o papel de "guardiã da fronteira oriental da UE" ao proteger a fronteira com a Bielorrússia, sobretudo desde a guerra na Ucrânia, com a construção de um muro de vigilância e o destacamento de dez mil militares para a região.

Esta postura musculada tem merecido amplas críticas da oposição e de ativistas, que apontam a desumanidade no tratamento aos migrantes africanos e do Médio Oriente, estimulados pelo Governo autocrático de Alexander Lukashenko na Bielorrússia ao usar o seu país como trânsito para forçar as fronteiras polacas, onde são deixados à sua sorte, inclusive até à morte.

As críticas, vêm de "idiotas úteis que beneficiam Moscovo", segundo o primeiro-ministro, que já foi conselheiro económico de Tusk antes de mudar de lado, sinalizando o inimigo externo, em Moscovo e Minsk, mas também em Bruxelas ou Berlim, na forma como o líder do PO é descrito como alguém subserviente aos interesses contrários aos polacos e apontado de forma depreciativa como "Herr Tusk".

No fim da campanha, dois dos principais comandantes militares do país demitiram-se, num gesto que foi interpretado como um sinal de rutura em relação a sucessivas interferências políticas no Exército.

A migração tem sido um dos temas-chave das legislativas, pelas suas implicações domésticas e relações com a União Europeia, e merece duas perguntas nos quatro referendos a realizar no domingo, um sobre a barreira com a fronteira com a Bielorrússia, outro ainda mais polémico, que menciona "a admissão de milhares de imigrantes ilegais do Médio Oriente e de África", de acordo com o mecanismo de relocalização forçada "imposto pela burocracia europeia".

Os referendos -- que incluem ainda duas perguntas sobre o aumento da idade de reforma para os 67 anos e a privatização de ativos estatais - só serão vinculativos com uma participação acima dos 50%, o que levou a oposição a apelar para o seu boicote.

A inflação a dois dígitos e os custos galopantes da energia pesam na carteira dos polacos, mas os temas económicos quase passaram ao lado da campanha, em que se procurou marcar as diferenças em questões ideológicas e sistémicas para os próximos anos.

Serão eleitos 460 deputados e 100 senadores em 41 distritos eleitorais. Os partidos que obtiverem menos de 5% dos votos e as coligações com menos de 8% de apoio ficarão sem representação parlamentar.

Leia Também: Polónia. Migração que ninguém vê numa campanha erguida num muro de medo

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