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Marcha com palavras de contestação atravessa Maputo sem incidentes

Uma marcha pela liberdade organizada pelo partido Nova Democracia percorreu hoje o centro de Maputo sem incidentes, em contraste com a violência policial que reprimiu iniciativa semelhante há três meses causando vários feridos.

Marcha com palavras de contestação atravessa Maputo sem incidentes
Notícias ao Minuto

13:27 - 24/06/23 por Lusa

Mundo Maputo

A ação de rua anunciada durante a semana, a pretexto das comemorações dos 48 anos de independência, que se assinalam domingo, foi a primeira a incluir palavras de contestação política e social após anos de sistemática repressão policial do direito à manifestação em Moçambique.

Num cruzamento da Avenida Eduardo Mondlane, houve aplausos "pela democracia" quando a marcha pela liberdade se cruzou com outra, em sentido contrário, da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), principal partido da oposição, segunda bancada parlamentar depois da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), no poder desde a independência.

No meio do trânsito de marchas, a polícia compareceu de forma ligeira, sem gás lacrimogéneo nem blindados e acompanhou os participantes que entoaram o mesmo "Povo no Poder" do rapper Azagaia que não puderam homenagear a 18 de março, dias depois de o músico ter morrido por doença.

"Povo no poder, sim, não temos medo, não", reza a letra.

"Ladrões fora, corruptos fora, assassinos fora" foram outros versos com que Azagaia contestava o poder político e que hoje foram entoados a plenos pulmões livremente ao longo da Avenida Eduardo Mondlane por entre uma a duas centenas de pessoas.

Ao princípio, pelas 08:00 (07:00 em Lisboa) ainda havia receio sobre o que poderia acontecer e algumas participantes mostravam estar prevenidas com máscaras faciais no bolso, caso houvesse outra vez gás lacrimogéneo pelo ar.

Depois, com o tempo e o arranque da marcha, até se ouviram vivas à polícia: "Polícia também é cidadão", entoou o mestre de cerimónias, do cimo do veículo de mercadorias que encabeçava a ação com um sistema de som.

As pessoas pelas ruas também entoavam as palavras de ordem à medida que o grupo passava - das varandas de apartamentos, do recinto do mercado e até das janelas de um tribunal, havia quem acenasse em sinal de apoio.

A marcha pela liberdade foi promovida pela Nova Democracia, partido sem representação parlamentar, e segundo o seu líder, Salomão Muchanga, "trata-se de libertar a sociedade do medo".

"Nunca mais Moçambique voltará a ter medo de se manifestar. O significado profundo deste dia é que estamos a conseguir marchar, manifestar, estamos a libertar os cidadãos do medo", referiu, colocando a iniciativa num nível suprapartidário, porque acolheu ativistas e participantes, independentemente das simpatias políticas.

Questionado pelos jornalistas sobre o que houve de diferente para a ação não ser reprimida, Salomão Muchanga disse ter explicado ao Presidente da República, Filpe Nyusi, "que manifestar-se, marchar, não é um favor, é um direito".

"A polícia revisitou os seus ideais" depois da repressão que impôs a 18 de março, sob alegadas ordens superiores, gerando contestação de várias organizações dentro e fora do país, acrescentou Armando Mahumane, porta-voz do partido e da organização.

A marcha percorreu o coração da capital, desde a estátua de Eduardo Mondlane até à de Samora Machel, em frente ao conselho municipal de Maputo, sempre animada por músicas de Azagaia -- entoadas por todos os participantes -- e por um mestre de cerimónias que lembrava: "Se nós não lutarmos pela liberdade e dignidade, ninguém o fará".

Leia Também: Ativistas e políticos voltam às ruas de Maputo para marchar

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