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EUA. "Proteger a nossa democracia está no boletim" destas 'midterms'

Com as eleições intercalares nos Estados Unidos ao virar da esquina, o congressista Jim Costa, um de três descendentes portugueses na Câmara dos Representantes, falou ao Notícias ao Minuto e faz a sua análise à campanha dos democratas, à influência de Trump no Partido Republicano e à visita de Marcelo à Califórnia. É o convidado do Vozes ao Minuto desta segunda-feira.

EUA. "Proteger a nossa democracia está no boletim" destas 'midterms'

A uma semana das eleições intercalares nos Estados Unidos - ou 'Midterms' -, a luta pela Câmara dos Representantes continua a ser a grande disputa entre Republicanos e Democratas. Apesar das várias corridas estatais e governamentais, que podem impactar as eleições de 2024, a Casa Branca e os Democratas vêm como cada vez mais difícil a retenção do controlo da Câmara.

Uma Câmara dos Representantes republicana significará que os dois últimos anos de Joe Biden serão algo semelhantes aos dois últimos anos de Barack Obama: uma enorme dificuldade em aprovar medidas legislativas passem o crivo da maioria conservadora.

Muitos republicanos continuam a depender do apoio do antigo presidente, Donald Trump, que, dois anos depois de perder as eleições de 2020, continua a ter uma enorme influência na base eleitoral conservadora.

Em entrevista ao Notícias ao Minuto, o congressista democrata Jim Costa, que é neto de portugueses dos Açores e um dos mais proeminentes lusodescendentes no Congresso, explicou aos "seus amigos em Portugal" (dito com um português 'americanizado') que as eleições vão ser por uma 'unha negra', e comentou o impacto de Trump nas eleições.

"Acho que o antigo presidente Trump, apesar de ter tido uma vantagem nas primárias republicanas no início do ano, não terá a mesma vantagem nas eleições gerais. A grande maioria dos democratas e muitos independentes são menos persuadidos pelo apoio de Trump a alguns destes candidatos", disse. Trump tem investido muito em promover candidatos Republicanos em comícios e eventos, dando especial apoio a JD Vance (Ohio) e a Mehmet Oz (Pensilvânia).

Para Jim Costa, Trump criou um clima de divisão e polarização do discurso público, que acabou por extremar o partido agora na oposição.

"O Partido Republicano, que costumava ser o partido da responsabilidade fiscal e políticas de defesa equilibradas, preocupado com assuntos internacionais e com os nossos aliados europeus, mudou muito. Essas já não são coisas que possamos dar como garantido com o Partido Republicano. Acho que isso não é bom", lamentou o democrata.

Jim Costa considera "saudável" o sistema bipartidário dos Estados Unidos, com "dois partidos fortes". Mas critica os Republicanos por se refugiarem atrás de Trump, especialmente em 2020. "Na eleição de 2020, eles nem se deram ao trabalho de apresentar uma plataforma do partido sobre os assuntos, era tudo sobre Trump. Quase como um culto", disse.

E à divisão que domina o debate político norte-americano, acrescentou, juntam-se "as políticas do medo" de Trump e à interferência nas redes sociais por "países como a Rússia, a China e a Coreia do Norte, que participam nas redes sociais diariamente com contas de podcasts, partidos e indivíduos falsos, para interferir na política norte-americana e criar mais problemas".

"Durante os últimos anos, a Rússia investiu mais de 300 milhões de dólares para simplesmente interagir nas redes sociais, dividir o nosso país e enganar as pessoas", explicou, dando exemplos de influência russa nas eleições francesas e italianas como "ameaças para as democracias americanas, europeias e não só".

"Eles gostam da 'culture war', nós gostamos de trabalhar"

Em agosto, a decisão histórica Supremo Tribunal norte-americano de revogar o processo 'Roe v Wade', que definia o direito ao aborto como um direito constitucional, teve fortes e rápidas consequências em muitos estados conservadores, onde a liderança republicana trabalhou para proibir e criminalizar a interrupção voluntária da gravidez.

O Partido Democrata tornou assim o aborto como um dos principais temas destas 'Midterms', com muitos candidatos a fazerem a sua campanha em torno da defesa do direito de escolha de uma mulher - um fator de campanha preponderante, já que uma grande maioria dos norte-americanos defende que o aborto deve ser legal.

Para Jim Costa, os republicanos "gostam da 'culture war'", (referindo-se às propostas conservadoras dos republicanos, apontadas especificamente à comunidade LGBTQ+), enquanto que os democratas "gostam de trabalhar para o povo norte-americano".

E o democrata preferiu elencar os pacotes de apoio que o presidente Biden promoveu, para combater o impacto da pandemia, a inflação e apoiar a Ucrânia, assim como o enorme plano de investimento em infraestruturas, esclarecendo que "as pessoas vão estar sempre preocupadas com a economia e com capacidade das suas famílias viverem um melhor estilo de vida".

"Este ano tem sido mais complicado devido à invasão russa na Ucrânia. A Europa e os EUA fizeram muitos sacrifícios nos últimos 10 meses para apoiar a Ucrânia militarmente, economicamente e a nível humanitário. Tudo isto tem impacto nas economias norte-americana e europeia, e os EUA têm tentado, com muito esforço, garantir que a Europa tem energia suficiente para ultrapassar o inverno. Aos eleitores, argumentamos que os Estados Unidos estão de volta, a nossa economia está a crescer novamente, continuamos a criar empregos, mas a inflação e os preços dos combustíveis são um desafio", explicou.

Favoritismo nas sondagens não abranda ritmo da campanha

Jim Costa tem uma longa carreira na política norte-americana, especialmente na região de Fresno, na Califórnia. Entre 1994 e 2002, Costa foi senador estatal e desde 2005 que é membro da Câmara dos Representantes nacional.

Este ano, Costa passa do 16.º distrito para o 21.º - uma redefinição dos mapas eleitorais que é feita por órgãos políticos consoante recenseamento e políticas locais, num fenómeno conhecido como 'gerrymandering'. O site de sondagens FiveThirtyEight, cujo modelo eleitoral agrega sondagens realizadas diariamente para criar uma previsão rigorosa das eleições, dá uma grande vantagem a Jim Costa sobre o seu opositor republicano, Michael Maher.

Mas, à data em que a entrevista foi realizada, uma sondagem de um grupo conservador previa um empate técnico entre o lusodescendente e o concorrente conservador.

Para o democrata, a campanha "está a correr bem". "Conseguimos juntar dinheiro suficiente para passar a nossa mensagem na televisão, temos andado pelo nosso distrito há seis semanas, passamos por 30.000 casas e o nosso programa está a ser bem acolhido. A sondagem republicana que citou é um caso isolado", disse.

Ainda assim, o congressista demonstrou-se focado no tema da economia, salientando o preço dos combustíveis e a seca extrema que a região vive. Mas está confiante em mais uma reeleição.

"As pessoas conhecem-me aqui, vêem-me nas televisões locais, estou por cá há muitos anos, e acho que criei um currículo bem sucedido no que toca a resolver assuntos, seja nos transportes, no fornecimento de água, no acesso à saúde, em ajudar os nosso veteranos de guerra e os nossos agricultores - e alguns dos nossos luso-americanos trabalham muito nas leitarias, metade do leite produzido na Califórnia vem de famílias com antepassados portugueses, especialmente dos Açores, como os meus avós. Portanto, no fim do dia, tenho de confiar que os eleitores vão reconhecer o trabalho que fiz pelo povo do Vale", afirmou o candidato.

"Marcelo recordou-nos o orgulho que temos da nossa raiz portuguesa"

Uma das mais recentes visitas de Estado de Marcelo Rebelo de Sousa foi aos Estados Unidos onde, após ter estado em Nova Iorque para a Assmbleia Geral das Nações Unidas, viajou à Califórnia. Acompanhado por alguns deputados, Marcelo viajou pelos centros portugueses no estado na costa Oeste dos Estados Unidos e Jim Costa esteve com o Presidente português.

Para o congressista, a visita de Marcelo "foi um grande sucesso".

"As comunidades portuguesas no sul da Califórnia ficaram entusiasmadas por conhecer o Presidente, vê-lo e ouvir as suas palavras. Ele recordou-nos a todos do orgulho que temos da nossa raiz portuguesa. Pude passar a tarde e a noite com ele e, durante o jantar tivemos uma longa conversa. Tive a sorte de o conhecer várias vezes em Lisboa, portanto conhecemo-nos e tivemos conversas extensas sobre relações entre Portugal e os Estados Unidos, o futuro da Europa perante os desafios apresentados pela guerra, e sobre o impacto nas futuras relações entre os dois países quanto às infraestruturas de gás natural que Portugal tem", contou Jim Costa.

Notícias ao Minuto O Presidente fez o lançamento inaugural num jogo de basebol em San Francisco© Reprodução/ Site da Presidência  

O político lusodescendente mencionou ainda os programas de intercâmbio entre Portugal e os Estados Unidos, especialmente entre a universidade de Fresno e a Universidade dos Açores. Costa acredita que há "oportunidades económicas entre os dois países" para "melhorar a qualidade de vida de portugueses e norte-americanos", vincando também "os valores comuns que protegem as nossas instituições democráticas através da participação na NATO".

As eleições intercalares norte-americanas realizam-se na terça-feira, dia 8 de novembro. Milhares de candidatos ao nível local, regional, estatal e federal vão ser eleitos, seja para cargos de xerife e procurador, até aos cargos de congressista e senador.

Os candidatos eleitos este outono terão de se começar brevemente a preparar para as eleições de 2024, onde a presidência também estará em jogo. Costa espera que as questões que têm polarizado tanto os Estados Unidos possam ser respondidas com debate.

"Podemos ter diferenças em assuntos económicos, sociais e em diplomacia, mas no fim de contas somos todos norte-americanos, e os valores que partilhamos em comum são muito mais fortes do que as diferenças", exaltou.

Leia Também: 'Midterms' nos EUA dividem republicanos e avaliam mandato de Biden

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