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Morte de Isabel II reaviva 'feridas' do colonialismo britânico

Ainda que Isabel II tenha governado durante a era pós-colonial, a soberana manteve uma relação com o passado imperial do Reino Unido, enraizado no racismo e na violência contra as colónias asiáticas e africanas.

Morte de Isabel II reaviva 'feridas' do colonialismo britânico

Enquanto muitos choram a morte de Isabel II, cuja vida chegou ao fim aos 96 anos, na quinta-feira, tantos outros recordam as feridas do colonialismo britânico e o legado da monarca enquanto símbolo do império daquele país, que enriqueceu à custa da violência e da opressão para com outros povos.

Se alguém espera que eu expresse alguma coisa além de desdém pela monarca que supervisionou um governo que patrocinou o genocídio que massacrou e deslocou metade da minha família, e cujas consequências aqueles que estão vivos ainda tentam superar, podem continuar a pedi-lo a uma estrela”, atirou Uju Anya, professora na Universidade Carnegie Mellon, nos Estados Unidos, na rede social Twitter.

Em entrevista, a responsável adiantou ser “filha da colonização”, uma vez que os pais se conheceram em Inglaterra, nos anos 50, enquanto estudantes universitários. A sua mãe, nascida em Trindade, e o seu pai, natural da Nigéria, casariam em Inglaterra, mudando-se, depois, para solo nigeriano.

“Além da colonização na Nigéria, há também a escravidão nas Caraíbas”, recordou. "Então, há uma linha direta que tenho não só com quem foi colonizado, mas também com quem foi escravizado pelos britânicos”, complementou, segundo a NBC.

Esta perspetiva de Anya terá sido formada devido ao papel que o Reino Unido desempenhou no sofrimento não só dos seus próprios pais, mas de tantas outras pessoas durante a Guerra Civil da Nigéria, após a independência do império britânico, em 1960.

"Fico profundamente ofendida com a noção de que os oprimidos e sobreviventes da violência têm de mostrar respeito quando os seus opressores morrem", considerou, acrescentando que a coroa britânica continua a "intrometer-se nos assuntos africanos", e a oprimir o seu povo.

"Há pessoas em todo o mundo que estão a celebrar a morte desta mulher, não porque sejam vis ou frias, mas porque o seu reinado e a sua monarquia foram violentos, por extensão", justificou, esperando que as suas declarações levem os internautas a informar-se sobre a Guerra Civil da Nigéria.

Zoé Samudzi, escritora americana-zimbabuana e professora na escola de design de Rhode Island, apontou, na mesma rede social, que enquanto parte da primeira geração da sua família que não nasceu no seio de uma colónia britânica, “dançaria nos túmulos de todos os membros da família real se tivesse essa oportunidade, especialmente no [da rainha]”.

Ainda antes do anúncio da morte de Isabel II, Ebony Thomas, professora na Universidade do Michigan, alertou para o ‘policiamento’ das reações que a comunicação de que a soberana estaria sob avaliação médica suscitou.

"Dizer aos colonizados como se devem sentir no que toca a saúde e o bem-estar do seu colonizador é como dizer ao meu povo que devemos adorar a Confederação", escreveu, na rede social Twitter. "'Respeite os mortos', quando estamos todos a escrever estes tweets em inglês. Como é que isso aconteceu, hm? Escolhemos este idioma?", lançou.

Mais tarde, a especialista ressalvou ter feito estas observações antes da confirmação do óbito, notando que estava apenas a mostrar solidariedade para com os povos colonizados em todo o mundo. Além disso, acrescentou que não estava a celebrar a morte de ninguém, nem a controlar as emoções dos outros.

"Quando as pessoas expressam estas opiniões, não estão a pensar na rainha"

Para Matthew Smith, professor de História na University College London, estas reações evidenciam a “relação complicada que as pessoas” mantêm com a monarquia britânica não só nos países da Commonwealth mas, principalmente, nas Caraíbas.

"Acho que, quando as pessoas expressam estas opiniões, não estão a pensar na rainha. Estão a pensar na monarquia britânica como uma instituição e na relação da monarquia com os sistemas de opressão, repressão, e trabalho forçado, particularmente trabalho africano, e na exploração de recursos naturais e de sistemas de poder nesses locais. E esse é um sistema que existe além da pessoa da rainha Isabel II", esclareceu, em declarações à NBC.

Ainda que Isabel II tenha governado durante a era pós-colonial, a soberana manteve uma relação com o passado imperial do Reino Unido, enraizado no racismo e na violência contra as colónias asiáticas e africanas. Na verdade, nos últimos anos, são vários os pedidos para que a monarquia enfrente a sua história.

Contudo, acumulam-se as antigas potências coloniais britânicas que prestaram homenagem à soberana, entre elas a Índia e o Paquistão, cujos presidentes saudaram a memória de "uma grande e benevolente líder".

Cinquenta e três países compõem a Commonwealth, organização que congrega Estados e territórios que integraram o império colonial britânico, sendo Moçambique uma das exceções a esse critério de adesão.

Em abril de 2018, Isabel II pediu aos chefes de Estado da Commonwealth, reunidos na altura em Londres numa cimeira bianual, que elegessem o então príncipe herdeiro Carlos como o seu sucessor na liderança daquela organização. O príncipe subirá, agora, ao trono, como Carlos III.

Leia Também: AO MINUTO: Rei Carlos III cumprimenta súbditos à porta de Buckingham

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