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"Devemos matá-la ou mantê-la viva?". Relato de mulher violada por russos

Natalya foi violada com uma arma apontada à cabeça, depois de ver o marido estendido no jardim. "É melhor calares a boca ou eu vou buscar o teu filho e mostrar-lhe o cérebro da mãe dele espalhado pela casa", ameaçou um dos soldados russos.

"Devemos matá-la ou mantê-la viva?". Relato de mulher violada por russos
Notícias ao Minuto

23:29 - 29/03/22 por Notícias ao Minuto

Mundo Guerra na Ucrânia

Natalya e Andrey (nomes fictícios) viviam tranquilos numa pequena aldeia junto a um pinhal no distrito de Brovary, nos arredores de Kyiv, com o filho pequeno, de quatro anos. Nos planos estava mais um filho e o “sonho” da primeira casa. Até a vida da família ficar desfeita devido à invasão russa da Ucrânia e aos abusos cometidos pelos soldados russos.  

A 9 de março, um dia depois de o casal colocar um lençol branco à porta de casa “para mostrar” às tropas russas - que tinham começado a atacar a aldeia enquanto tentavam chegar à capital Kyiv - que ali habitava apenas “uma família” sem “querer fazer mal”, Andrey foi assassinado a tiro e deixado no jardim da habitação e Natalya violada repetidamente durante várias horas.

O caso de Natalya foi denunciado, na semana passada, pela procuradora-geral da Ucrânia,  Iryna Venediktova, que revelou que as autoridades estão à procura de um soldado russo por ter violado uma mulher repetidamente, depois de ter invadido a casa onde vivia e ter morto o marido da mesma. Mas já no início do mês, o ministro dos Negócios Estrangeiros ucranianos, Dmitry Kuleba, acusou os soldados russos de estarem a violar “mulheres em cidades ucranianas ocupadas”.

“Estávamos a planear um filho e sonhávamos com a nossa primeira casa”, conta Natalya, de 33 anos, ao jornal britânico The Times, numa entrevista que tem como objetivo dissipar os rumores que dão conta que os casos de violação de mulheres por soldados russos são “demasiado chocantes para ser verdade”. "Queríamos viver mais perto da natureza, por isso não morávamos na cidade. O meu marido colocou a sua alma e coração na construção da casa e tudo foi feito de pedra e madeira natural. Até costumávamos ir à floresta buscar o lixo que as outras pessoas deixavam."

Na manhã de 9 de março, cerca de duas semanas após o início da invasão russa, Natalya e o marido ouviram um tiro fora de casa e o som do portão a ser arrombado. Saíram de casa com as mãos levantadas e depararam-se com um grupo de soldados e o cão de estimação morto no quintal. “Disseram-nos que não sabiam que havia pessoas aqui, que não queriam prejudicar. Todos os contos de fada comuns: ‘pensávamos que íamos treinar, não sabíamos que seríamos enviados para a guerra.”

O comandante apresentou-se como Mikhail Romanov e disse a Natalya que se não existisse a guerra, os dois certamente teriam um romance. “Havia outro chamado Vitaly, que pediu desculpa pelo cão. Disse que na sua cidade, ele e a mulher eram criadores de cães”, contou.

“Mikhail naquele momento parecia um pouco bêbado. Eu pedi para eles irem embora, porque o meu filho estava com medo e só tinha quatro anos. Eu disse-lhes: ‘podem ir embora, viram a casa e agora estão só a assustá-lo [ao filho]’”, revelou.

Segundo Natalya, o comandante começou a ficar agressivo quando viu um casaco camuflado no carro de Andrey. Neste momento, começou a atirar contra o carro e ameaçou explodir o de Natalya com uma granada. Mesmo com a mulher a implorar para deixar o carro para emergências, Romanov decidiu bater com ele contra uma árvore caída. 

Já de noite, o casal voltou a ouvir o portão e Andrey saiu para ver o que se passava. “Ouvi um único tiro, o barulho dos portões a abrirem-se e depois o barulho de passos dentro da casa”, explicou. Viu Romanov e outro soldado, com cerca de 20 anos. “Gritei, perguntei onde estava o meu marido, então olhei para a rua e vi-o no chão perto do portão. Esse soldado mais novo apontou uma arma à minha cabeça e disse: ‘matei o teu marido porque ele é nazi’”.

“Ele disse: é melhor calares a boca ou eu vou buscar o teu filho e mostrar-lhe o cérebro da mãe dele espalhado pela casa”, recordou. “Disse-me para tirar a roupa. Então os dois violaram-me um após o outro. Eles não se importaram que o meu filho estivesse a chorar na sala da caldeira. Disseram para ir calá-lo e voltar. Durante o tempo, seguravam uma arma na minha cabeça e provocavam-me, dizendo: ‘devemos matá-la ou mantê-la viva?’”.

Os soldados abandonaram o local, mas voltaram cerca de vinte minutos depois e violaram-na novamente “Quando voltaram pela terceira vez, estavam tão bêbados que mal conseguiam ficar de pé. Eventualmente, os dois adormeceram nas cadeiras. Entrei na sala da caldeira e disse ao meu filho que tínhamos que fugir muito rápido ou levaríamos um tiro”. A mãe e o filho passaram pelo corpo de Andrey, e o menino questionou: “Seremos baleados da mesma maneira que este homem?”.

Natalya e o filho fazem parte dos mais de seis milhões de ucranianos que estão deslocados dentro do próprio país e estão refugiados em Ternopil, a cerca de 500 quilómetros da vida que deixaram para trás. Quando vai ao parque, a criança conta que tiveram de fugir de casa por causa da guerra, mas que o pai teve de ficar. Não sabe ainda que o corpo estendido no jardim de casa quando fugiu a meio da noite com a mãe era o dele.

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