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Enviado especial da ONU visita Ouagadougou em "missão de boa vontade"

O enviado especial das Nações Unidas ao oeste de África e ao Sahel, Mahamat Saleh Annadif, viaja este fim de semana para o Burkina Faso para uma "missão de boa vontade" junto das autoridades locais.

Enviado especial da ONU visita Ouagadougou em "missão de boa vontade"

Numa conferência de imprensa, citada pela agência espanhola de notícias Efe, o porta-voz da ONU, Farhan Haq, escusou-se a dar detalhes sobre a agenda de Annadif em Ouagadougou, a capital do Burkina Faso, país que na segunda-feira viu o governo legítimo derrubado num golpe de Estado condenado pela comunidade internacional.

Annadif reuniu-se hoje em formato virtual com representantes da Comunidade Económica dos Estados da África (CEDEAO), reiterando a sua condenação pelas mudanças inconstitucionais de governo e exigindo um regresso à legalidade no país, seguindo a linha do discurso do secretário-geral, António Guterres.

O Burkina Faso, palco de um golpe militar na segunda-feira, foi suspenso da CEDEAO, cujos chefes de Estado se reuniram hoje numa cimeira extraordinária virtual, segundo fontes oficiais citadas por agências internacionais.

De acordo com a Associated Press (AP) e a France-Presse (AFP), a suspensão foi decidida na reunião virtual de hoje, tendo a organização regional africana agendado uma nova reunião para o próximo dia 3 em Acra para avaliar a situação no Burkina Faso.

A CEDEAO exigiu a libertação do presidente destituído, Roch Marc Christian Kaboré, que se encontra em prisão domiciliária, bem como de outros altos funcionários presos, disse à AFP um participante na reunião, sob condição de anonimato.

A cimeira virtual, que durou cerca de três horas, também decidiu enviar uma missão de chefes de Estado-Maior do Exército da CEDEAO a Ouagadougou este sábado, a ser seguida por uma missão ministerial na segunda-feira.

A próxima cimeira estudará os relatórios destas missões e decidirá se devem ser impostas mais sanções, à semelhança do que aconteceu com o Mali e a Guiné-Conacri, países igualmente suspensos pela CEDEAO após os militares terem tomado o poder.

Na quinta-feira à noite, no seu primeiro discurso desde que assumiu o poder na segunda-feira, o novo homem forte do Burkina, tenente-coronel Paul-Henri Sandaogo Damiba, afirmou na televisão nacional que o seu país "precisa dos parceiros mais do que nunca".

Damiba disse compreender as "dúvidas legítimas" suscitadas pelo golpe, e assegurou que o Burkina Faso "continuará a respeitar os seus compromissos internacionais, particularmente no que diz respeito ao respeito pelos direitos humanos".

O líder militar disse ainda que a independência do poder judicial será "assegurada".

Damiba comprometeu-se igualmente com o "regresso [do país] à vida constitucional normal", "quando as condições estiverem reunidas", mas não deu a conhecer qualquer agenda nesse sentido.

Entretanto, a televisão pública burquinabê anunciou na quinta-feira à noite um aligeiramento do recolher obrigatório imposto na segunda-feira, que passa do período inicial entre as 21:00 e as 05:00 (locais e GMT), para quatro horas, entre a meia-noite e as 04:00.

Desde que tomou o poder, Damiba encontrou-se com vários responsáveis de outras tantos organismos, desde ministros a dirigentes sindicais, tendo aos primeiros indicado que não saíssem do Burkina sem autorização e aos segundos prometido consultá-los e envolvê-los no processo de transição.

No discurso na televisão, Damiba disse que queria envolver todas as "forças vivas" da nação num "roteiro" para a recuperação do Burkina Faso e várias organizações parecem disponíveis para trabalhar com o novo homem forte do país.

Entretanto, o Presidente deposto continua sob detenção domiciliária, está de "boa saúde", de acordo com várias fontes e tem um médico à sua disposição.

Na quinta-feira à noite, o líder da junta militar não se referiu a Kaboré, mas a sua libertação foi exigida pela comunidade internacional e é esperada uma decisão da junta militar para breve.

Roch Marc Christian Kaboré, eleito em 2015 e reeleito em 2020, foi derrubado por um corpo militar liderado por Damiba, que lidera agora o chamado Movimento Patriótico para a Salvaguarda e Restauração (MPSR).

A insurreição militar começou no domingo em vários quartéis no país, incluindo na capital burquinabê, Ouagadougou, a seguir a uma manifestação que fez sair à rua milhares de protestantes contra insegurança criada pela violência de vários grupos extremistas islâmicos e pela incapacidade das forças armadas do Burkina Faso responderem a um problema que se agrava desde 2015, precisamente o ano da chegada de Kaboré ao poder.

O MPSR começou por anunciar a dissolução ou suspensão das instituições da República, bem como o encerramento das fronteiras aéreas do Burkina Faso, mas estas foram reabertas logo na terça-feira, tal como as fronteiras terrestres para certos produtos, o que parece indicar que a junta militar no poder não tem medo de um "contra-ataque" e está a controlar os vários corpos do exército.

Paul-Henri Sandaogo Damiba concluiu o discurso ao país esta quinta-feira com um lema bem conhecido da população burquinabê, atribuído ao presidente que deu ao país o seu atual nome, Thomas Sankara: "Pátria ou morte, nós venceremos".

Logo no ano seguinte à sua chegada ao poder, Sankara mudou o nome do país, numa tentativa de enterrar com as insígnias da República do Alto Volta a herança do poder colonial francês. O país de Sankara passou a chamar-se República Democrática e Popular do Burkina Faso, que significa "país do povo honesto".

Sankara, um líder progressista e ícone pan-africano, foi morto em 1987 por um golpe de Estado instigado por "irmãos de armas", que estiveram ao seu lado na independência do Burkina Faso, incluindo Blaise Compaoré, o seu sucessor, hoje com 70 anos, a viver na Costa do Marfim, onde está exilado desde que foi derrubado, em 2014.

O julgamento dos assassinos de Sankara, que começou em outubro de 2021, foi suspenso pelo golpe de Estado, mas será retomado na próxima segunda-feira.

Leia Também: Burkina Faso. CEDEAO suspende Estado-membro após golpe de Estado

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