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Brasil é um "pária" e líderes europeus recusam associar-se a Bolsonaro

O diplomata brasileiro Paulo Roberto de Almeida afirmou hoje à agência Lusa que, atualmente, o Brasil é um "pária" internacional e que os líderes europeus "não querem sequer aparecer ao lado" do Presidente, Jair Bolsonaro.

Brasil é um "pária" e líderes europeus recusam associar-se a Bolsonaro

Em causa está o facto de o jornal brasileiro Valor Económico ter acusado a União Europeia (UE) de ignorar o Brasil nos discursos de inauguração do cabo ótico submarino 'EllaLink', que liga a Europa à América do Sul e que está ancorado em Sines e na cidade brasileira de Fortaleza.

O jornal brasileiro destacou o facto de a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyer, ter conseguido a "proeza" de falar "do cabo submarino, mencionar até Vasco da Gama, citar a cooperação digital com a Índia, e não pronunciar uma só vez o nome do Brasil", num vídeo que gravou a propósito da inauguração do cabo, no início deste mês.

Também o primeiro-ministro português, António Costa, foi alvo da imprensa brasileira por ter referido a "comunidade científica brasileira" no seu discurso, mas não ter pronunciado "o nome do Brasil".

Para Paulo Roberto de Almeida, diplomata do Ministério das Relações Exteriores brasileiro (Itamaraty), a ausência de menções ao Brasil não é uma surpresa, mas sim algo expectável tendo em conta a postura "desastrosa" de Bolsonaro e a "diplomacia absolutamente alucinante" do seu Governo.

"O Brasil é um pária. (...) A sua imagem no exterior é a pior possível mesmo antes de Bolsonaro assumir o poder [janeiro de 2019], porque já se conheciam as posições dele sobre Democracia, Direitos Humanos, tortura e as suas posições sobre o Meio Ambiente. Mas não se esperava que fosse tão ruim, desastroso, nefando", disse Almeira, em declarações à Lusa.

"Quando vemos este tipo de campanhas eleitorais, temos esperança de que quando a pessoa se sentar na cadeira presidencial, ela seja realista, mas isso não aconteceu com Bolsonaro. Pelo contrário, ele recrudesceu: primeiro numa adesão sabuja a [Donald] Trump [ex-presidente dos EUA], vergonhosa em todos os efeitos, e depois num enfrentamento aos principais parceiros internacionais do Brasil por razões ideológicas, como é o caso da China ou dos bolivarianos da América do Sul", acrescentou.

No caso das barreiras com os líderes europeus, o diplomata afirmou que se deveram, principalmente, à questão ambiental, "que começou com a confusão em torno do Fundo Amazónia, financiado pela Noruega e Alemanha, em que ofendeu a Angela Merkel [chanceler alemã], disse que não precisava do dinheiro deles e mandou-os restaurar as florestas dos seus países".

Contudo, Paulo Roberto de Almeida salienta que nem sempre a imagem do Brasil esteve em níveis tão baixos, referindo as décadas de 1990 e 2000, em que o país sul-americano conseguiu "melhorar muito a sua imagem", sobretudo no plano ambiental.

"E tudo isso mudou com a eleição destes novos bárbaros, (...) saudosistas da ditadura militar", avaliou o diplomata, referindo-se a Bolsonaro e a parte dos seus apoiantes.

Paulo Roberto de Almeida exerceu diversos cargos na Secretaria de Estado das Relações Exteriores e em embaixadas e delegações do Brasil no exterior, tendo sido ministro-conselheiro na Embaixada do Brasil em Washington, entre 1999 e 2003. Porém, em março de 2019, acabou demitido da presidência do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais, órgão vinculado ao 'Itamaray', devido às "opiniões negativas que teceu ao Governo de Bolsonaro", assegura.

"Bolsonaro deu todos os motivos para ser considerado como alguém inaceitável. Existiram momentos em que Gaddafi [líder líbio], alguns ditadores africanos, os generais da Birmânia, o pessoal da Coreia do Norte ou os cubanos, nenhum deles era convidado para visitas ou viagens, para cooperações. Agora, o Brasil entrou nessa categoria dos vilões por causa do seu chefe de Estado e por uma diplomacia absolutamente alucinante", disse.

"Os líderes europeus não querem sequer aparecer ao lado de Bolsonaro. De forma nenhuma", frisou Almeida.

O ex-embaixador não tem dúvidas em afirmar que o maior prejudicado é o povo brasileiro e dá o exemplo da não ratificação do acordo entre a UE e o Mercosul devido às polémicas gestões do Governo brasileiro a nível ambiental ou o atraso no envio de consumíveis e vacinas contra a covid-19 por parte da China, devido aos ataques que o executivo de Bolsonaro faz reiteradamente a Pequim.

"Os brasileiros estão a perder oportunidades de negócio, de investimento, de aumentar os seus rendimentos, oportunidades de trabalho, devido à postura do Presidente", assegurou.

"Bolsonaro é um personagem desprezado porque ofendeu todos os seus parceiros democratas, sociais-democratas e alguns até conservadores, por razões absolutamente sem sentido para o Brasil. A opinião pública europeia não aceitaria receber Bolsonaro", concluiu o antigo embaixador brasileiro.

Leia Também: "Eu chego como quiser". Bolsonaro insulta jornalista por causa de máscara

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