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Etiópia. Eleições reavivam receios num país com 80 grupos étnicos

A Etiópia realiza segunda-feira as suas sextas eleições gerais num clima de incerteza e receio de uma nova espiral de violência étnica e onde cresce a contestação às políticas do primeiro-ministro, Abiy Ahmed.

Etiópia. Eleições reavivam receios num país com 80 grupos étnicos
Notícias ao Minuto

10:18 - 19/06/21 por Lusa

Mundo Etiópia

Na divisão da Etiópia num estado federal étnico em 1995, liderado então pela Frente de Libertação do Povo Tigray (TPLF), apesar das constantes queixas de exclusão dos outros grupos, encontra-se na origem das atuais tensões e desconfianças tornadas mais visíveis pelas reformas democráticas do primeiro-ministro, Abiy Ahmed, de etnia oromo, e no poder desde abril de 2018.

As promessas de uma Etiópia unida e centralizada sob a liderança do Partido da Prosperidade (PP) com o qual pôs fim à Frente Popular Democrática Revolucionária Etíope multiétnica - controlada durante 27 anos pela TPLF - não se concretizaram.

Em pouco mais de três anos, o líder de 44 anos amnistiou milhares de presos políticos e permitiu o regresso dos partidos de oposição exilados - entre outras medidas - mas as suas políticas também levaram a um aumento exponencial de pessoas deslocadas, a uma guerra civil na região do Tigray, onde depôs a TPLF, e a novos massacres interétnicos.

"[Abiy] abriu espaço político, mas não implementou o Estado de Direito. Nunca teve uma conversa séria com a oposição", recorda o jornalista etíope Tsedale Lemma, fundador do jornal Addis Standard.

"Fez mais para embelezar [a capital] Adis Abeba e construir parques públicos do que para resolver alguns dos problemas mais prementes, como a segurança", acrescenta Tsedale, crítico em relação à guerra desencadeada pelo Governo etíope no Tigray.

O facto de estas eleições não ocorrerem em todo o país, juntamente com o boicote anunciado pelos partidos nacionalistas oromo - o principal grupo étnico da Etiópia - cujos líderes permanecem na prisão, pode desencadear uma nova crise de violência neste país de cerca de 110 milhões de pessoas e mais de 80 grupos étnicos.

"O facto de tanto o Congresso Federalista Oromo [OFC] como a Frente de Libertação Oromo [OLF] não estarem a concorrer a estas eleições devido a queixas de repressão governamental canalizou alguma dessa energia da oposição para uma insurreição armada em Oromia", adiantou William Davison, um analista do International Crisis Group (ICG) para a Etiópia.

Desde o final do ano, o Governo etíope tem culpado o Exército de Libertação Oromo (OLA) - uma cisão da OLF e designado como organização terrorista em maio - pelo massacre de cerca de 300 civis do grupo amhara, principalmente na região de Benishangul-Gumuz.

Centenas de milhares de amharas manifestaram-se em abril nas ruas de várias cidades e vilas da região com o mesmo nome para protestar contra os ataques direccionados contra membros desse grupo étnico.

Meses antes, o Governo aproveitou os protestos em Adis Abeba e noutras cidades da Oromia, na sequência do assassínio a 29 de junho de 2020 do popular cantor oromo Hachalu Hundessa - no qual mais de 200 pessoas foram mortas em confrontos policiais e interétnicos - para prender cerca de 9.000 pessoas, incluindo importantes líderes nacionalistas oromo, como Jawar Mohammed.

"Diferenças fundamentais entre segmentos das comunidades políticas amhara e oromo sobre a narrativa que molda o passado etíope, bem como sobre o sistema federal multinacional também criam fações dentro do partido no poder", adverte Davison.

As tensões foram exacerbadas nos últimos sete meses pelo conflito do Tigray, no qual Abiy tem confiado militarmente tanto nas milícias amhara que pretendem anexar o Tigray ocidental como nas tropas da vizinha Eritreia, ambas acusadas de possíveis crimes de guerra pela ONU.

"O grau de violência experimentado no Tigray torna difícil imaginar uma reconciliação entre a TPLF e o PP no poder, entre as autoridades do Tigray e os líderes federais ou entre as populações do Tigray e da vizinha amhara", conclui o perito.

"Embora felizmente ainda haja um longo caminho a percorrer antes de podermos falar de uma verdadeira desintegração da Etiópia", um país cuja Constituição reconhece não só o direito à autodeterminação, mas também o direito à secessão das suas dez regiões, "há razões para grande preocupação com o futuro da Etiópia", prevê Davison.

Leia Também: Etiópia rejeita acusação do enviado da UE de "limpeza étnica" em Tigray

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