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Primavera Árabe: Da esperança à fome, a revolução esquecida do Iémen

No Iémen, os mortos, os deslocados, as epidemias e a fome fizeram esquecer as esperanças fugazes da revolução de 2011. Dez anos depois, a guerra destruiu as aspirações da juventude e criou a pior tragédia humanitária do mundo.

Primavera Árabe: Da esperança à fome, a revolução esquecida do Iémen
Notícias ao Minuto

13:31 - 25/01/21 por Lusa

Mundo Iémen

Em plena Primavera Árabe, a 27 de janeiro de 2011, milhares de pessoas manifestaram-se em Sanaa para pedir a saída do presidente Ali Abdallah Saleh, no poder há décadas, no ponto culminante da revolução iemenita iniciada em meados de janeiro.

A onda de choque partiu da Tunísia e atingiu rapidamente o país mais pobre da península arábica. "O povo quer a queda do regime", gritaram os iemenitas, como fizeram os tunisinos e os egípcios.

O slogan emblemático do movimento de protesto popular que abalou vários países árabes em 2011 está então também na boca dos iemenitas, após 32 anos de poder do presidente Saleh, segundo quem governar o Iémen era "mais difícil que dançar na cabeça de víboras".

A cólera dos iemenitas resulta de "fraturas de 50 anos de sub-representação política, desigualdades sociais, pobreza e corrupção, além de lutas identitárias", explica à agência France-Presse Maged al-Madhaji, testemunha da revolta e atualmente diretor do Centro de Estudos Estratégicos de Sanaa.

Num país muito pobre, rodeado de ricas monarquias petrolíferas, a revolta dos iemenitas começa imbuída de espontaneidade e pacifismo, recorda um dos seus líderes, Yasser al-Raini.

"A revolução reuniu nas praças todos os que compunham a sociedade que se queria livrar da injustiça e construir um novo Iémen", conta o militante à AFP.

Num país em que quase todos têm pelo menos uma arma de fogo, o movimento, insiste Yasser al-Raini, não teve violência antes da intervenção das forças de segurança e dos partidários do presidente.

Rebeldes e coligação estrangeira

Dez anos mais tarde, o Iémen está mergulhado no que a ONU qualificou como a pior crise humanitária do mundo, com dezenas de milhares de mortos, milhões de deslocados e uma população constantemente à beira da fome.

Desde 2014, um conflito opõe as forças governamentais aos rebeldes Huthis, apoiados pelo Irão. Uma coligação militar dirigida pela Arábia Saudita intervém desde 2015, ajudando o Governo, no exílio após ter sido expulso da capital, Sanaa.

Manei al-Matari, outro dos líderes da contestação de 2011, indica que "o poder pessoal do presidente Saleh e a sua vontade de ver o seu filho (Ahmed, que comandava a Guarda Republicana) suceder-lhe uniram os iemenitas contra ele".

A 02 de fevereiro, o presidente Saleh começa a prometer reformas e não se candidatar a um novo mandato em 2013, o que encoraja o protesto.

"Os jovens revolucionários não tinham experiência política. É aqui que entram em jogo os partidos e aqueles que dominam as ferramentas da ação política", observa Yasser al-Raini.

A oposição parlamentar junta-se à contestação que se estende ao norte, grandes tribos apoiam a causa dos manifestantes e numerosos deputados do partido no poder, o Congresso Geral do Povo, demitem-se.

Em fevereiro acontece a ocupação da Universidade de Sanaa, que será considerada como o epicentro da revolução, à semelhança da praça Tahrir no Cairo.

Dez anos, dez quilos

A 18 de março, os partidários do presidente disparam sobre os manifestantes em Sanaa, causando 52 mortos. Alguns dias mais tarde, um dos principais chefes do exército, Ali Mohsen al-Ahmar, deserta e dezenas de oficiais juntam-se à contestação.

Os líderes políticos vão gradualmente controlando o movimento e os rebeldes Huthis procuram aproveitar-se do mesmo.

Gravemente ferido num atentado a 03 de junho e tratado na Arábia Saudita, o presidente Saleh acaba por aceitar ceder o poder no final de 2011, no âmbito de um plano de paz elaborado pelas poderosas monarquias vizinhas.

Será assassinado no final de 2017 em Sanaa pelos Huthis, com quem se tinha aliado na esperança de voltar ao ativo.

"As pessoas só queriam ver o aparecimento de um outro sistema. Mas a tomada da revolta por partidos políticos desfigurou-a", diz o investigador Maged al-Madhji.

"Tudo isto abriu o caminho para os combates posteriores", adianta.

Nos últimos anos, as fotografias de manifestantes entusiasmados foram substituídas pelas de crianças raquíticas e famintas, como Ahmedia Abdu, que vive com a sua família num campo de deslocados em Hajjah (noroeste). Tem 10 anos e pesa 10 quilogramas.

"O seu pai morreu há anos. Ela vive com a mãe e o irmão numa casa de palha", conta um familiar à AFP.

Ahmedia sofre de desnutrição severa, mas "o hospital não recebe crianças desnutridas com mais de cinco anos", explica. A rapariga "não tem lugar para onde ir".

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