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Keir Starmer, o socialista sereno à frente do Partido Trabalhista

Advogado bem sucedido, deputado eleito em Londres e dono de um título de cavaleiro atribuído pela rainha, o novo líder do partido Trabalhista britânico hoje eleito, Keir Starmer, de 57 anos, reivindica antecedentes humildes e valores socialistas.

Keir Starmer, o socialista sereno à frente do Partido Trabalhista

Filho de um operário fabril e de uma enfermeira, Starmer rejeitou desde cedo ser descrito como um político de classe média privilegiada afastado da realidade da classe trabalhadora que o 'Labour' pretende representar.

"Na verdade, a minha formação não é a que as pessoas pensam. Eu nunca tinha estado num local de trabalho diferente de uma fábrica até sair de casa para a universidade. Nunca tinha estado num escritório", contou à BBC Radio 4 em dezembro

O argumento pretendia desfazer a ideia de que o seu estilo polido não seria capaz de atrair eleitores de fora da capital inglesa e de origens modestas que os analistas e alguns dirigentes no 'Labour' sugeriram ser o perfil necessário para recuperar os "votos emprestados" ao Partido Conservador no norte e centro de Inglaterra nas legislativas de dezembro.

Nascido em Southwark, no sul de Londres, Keir Starmer frequentou uma escola secundária seletiva e depois estudou Direito na universidade de Leeds, onde se licenciou com distinção, abrindo caminho para uma pós-graduação em Oxford. 

Fez carreira em Direitos Humanos e alguns dos casos onde participou incluem a colaboração no julgamento apelidado de "McLibel", defendendo duas ativistas ambientalistas num processo por difamação apresentado pela McDonalds.

Ascendeu na hierarquia da advocacia até ser nomeado, em 2008, procurador-geral, responsável pela Procuradoria da Coroa, o ministério público britânico.

Durante os cinco anos em funções, tomou algumas decisões polémicas, como não acusar de homicídio polícias envolvidos na morte do brasileiro Jean Charles de Menezes, na sequência dos atentados terroristas de Londres em 2007.

Em 2010, mereceu admiração por levar a julgamento três trabalhistas pelo uso indevido de fundos, no âmbito do escândalo das despesas dos deputados que abalou a política britânica.

O estatuto de neutralidade contribuiu para que se mantivesse em funções durante o governo de coligação entre os conservadores de David Cameron e os Liberais Democratas de Nick Clegg, saindo em 2014. 

Quando Ed Miliband renunciou à liderança dos trabalhistas após perder as legislativas de 2015, Starmer foi desafiado a concorrer, mas não avançou, preferindo apoiar Andy Burnham, que perdeu contra Jeremy Corbyn

Apesar de divergências com Corbyn, manteve-se como porta-voz para o 'Brexit' do governo sombra e graças à experiência de jurista, ganhou algumas batalhas táticas contra o governo de Theresa May e contribuiu para o impasse parlamentar. 

Em 2018, contrariando a posição oficial do partido, Starmer assumiu ser favorável a um segundo referendo sobre a saída do Reino Unido da União Europeia, política que foi aprovada por maioria em congresso e incluída no programa eleitoral das legislativas de dezembro.

A proposta foi caracterizada como um sinal da indecisão e ambiguidade do partido sobre o tema, e Starmer reconhece que a vitória com maioria absoluta de Boris Johnson nas legislativas matou o debate, mas não desistiu de defender uma proximidade ao bloco europeu.

"Temos de argumentar a favor da liberdade de circulação. Precisamos de dar aos nossos cidadãos europeus direitos, não tolerância. E isso começa com o direito a votar", disse, durante uma intervenção no final de janeiro.

O europeísmo de Keir Starmer terá sido um dos princípios valorizados nesta eleição interna do 'Labour', cuja maioria de militantes se opôs ao 'Brexit', mas o deputado soube apresentar-se como um candidato progressista sem renunciar completamente ao legado do antecessor, Jeremy Corbyn.

No seu programa, mantém as causas de uma política externa pacifista, com regras para a exportação de armas e uma lei contra intervenções militares "ilegais", de controlo estatal dos transportes ferroviários, correios, energia e água, e da exclusão do setor privado nos serviços de saúde, judiciais ou autárquicos.

"O que Jeremy Corbyn trouxe para o Partido Trabalhista em 2015 foi uma mudança de ênfase que foi realmente importante, um radicalismo que interessa e uma rejeição da austeridade. E precisamos de aproveitar isso", afirmou, durante uma entrevista à BBC em dezembro.

Visto como um centrista, Keir Starmer é pouco apreciado pela ala mais socialista pró-Corbyn que apoiou a candidata rival, Rebecca Long-Bailey, nomeadamente o sindicato Unite, mas é respeitado pela sua inteligência e atenção ao detalhe.

O estilo bem parecido, combinando uma personalidade séria e profissional mas com um espírito humanista, criou rumores de que teria inspirado a personagem do advogado Mark Darcy dos livros e filmes da série Bridget Jones. 

É a combinação de todas estas qualidades que Starmer quer usar para recuperar o poder nas mãos dos 'tories' de Boris Johnson, no governo há 10 anos, e voltar às vitórias de Tony Blair. 

"Governos conservadores sem fim não são inevitáveis. Outro futuro é possível, mas temos de nos unir como partido e como movimento para lutar por ele", exortou.

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