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Conservadores e ultras vencem no Irão, mas é uma vitória de Pirro

Os conservadores e os ultras iranianos venceram as legislativas de sexta-feira, esmagando os reformistas e moderados, mas a vitória assemelha-se a uma vitória de Pirro, face à abstenção registada, de 57,43%, e aos efeitos que terá, interna e externamente.

Conservadores e ultras vencem no Irão, mas é uma vitória de Pirro

No plano interno, a elevada abstenção não foi uma novidade. O Conselho Guardião, órgão do regime teocrático de tutela dos atos eleitorais, garantiu previamente que milhares de candidatos reformistas e moderados eram desqualificados de irem a votos.

O Conselho invalidou cerca de 7.200 candidatos (num total de 14.500) maioritariamente reformadores e moderados, o que suscitou críticas do Presidente da República, o conservador moderado Hassan Rohani, e dos aliados deste.

Ou seja, os conservadores e ultras ficaram com caminho aberto para cantarem vitória, mas a legitimidade de passarem a controlar o Majlis (Parlamento) -- faltando somente eleger um dos seus para a Presidência, nas eleições de 2021 -, coloca-os face a face aos que não foram votar e que, em novembro de 2019, saíram às ruas, para protestarem contra os aumentos dos combustíveis e exigir mais reformas sociais.

Estes protestos foram duramente reprimidos com o envolvimento da Basij, milícia paramilitar voluntária fundada por ordem do primeiro Guia Supremo, ayatollah Ruhollah Khomeini, em novembro de 1979, que recebe ordens somente dos Guardas da Revolução e do atual Guia Supremo, ayatollah Ali Khamenei.

Quanto ao número de vítimas nesses protestos, desencadeados em Teerão e que alastraram a 29 das 32 províncias do país, as opiniões divergem: a Amnistia Internacional fala em pelo menos 300 mortos, os Estados Unidos alegam que foram 1.500, enquanto o Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos refere que terão sido efetuadas mais de sete mil detenções.

As autoridades iranianas não avançaram números, nem de mortos nem de detidos.

No plano externo, o reforço institucional dos partidários de liderança religiosa do Irão vai aprofundar o isolamento internacional do país, sujeito a uma grave crise económica, resultante dos efeitos dos vários pacotes de sanções económicas restabelecidos pelos Estados Unidos na sequência do abandono por Washington, em 2018, do acordo sobre o nuclear iraniano, assinado em 2015.

Segundo o Fundo Monetário Internacional, em 2019, a economia iraniana contraiu-se 9,5%. Prevê-se que este ano chegue, pelo menos, ao crescimento zero e que a inflação seja novamente superior a 30%.

O grande vencedor destas eleições foi o antigo presidente da câmara de Teerão (2005-2012) e ex-comandante dos Guardas Revolucionários, Mohammad Mohammad Baqer Qalibaf, de 58 anos, líder da recém-formada coligação de conservadores e ultras denominada Irão Orgulhoso.

Na sua vida política, acumula três fracassos na corrida à Presidência.

Agora, o mais certo é ascender à presidência do Majlis, porque o atual presidente, o independente Ali Larijani, não se recandidatou.

Outro dos vencedores de sexta-feira é o ultraconservador Morteza Aghatehrani, que já tinha sido eleito deputado em duas ocasiões.

Com a desqualificação de muitos nomes importantes do lado dos reformadores, Majid Ansari, próximo do antigo Presidente Mohammad Khatami, é agora a figura de proa desse bloco.

Quanto aos perdedores, todos olham para o Presidente Hassan Rohani, porque um parlamento controlado pelas tendências conservadora e ultra representa um risco para ele, um moderado que apostou numa política de abertura ao Ocidente.

Há dias, Hassan Rohani assegurou que tenciona ir até ao fim do seu mandato, que termina em 2021, mas corre o risco de ser apeado do cargo por uma disposição constitucional que concede ao Majlis um privilégio cuja execução não carece de passar pelos outros órgãos criados com o triunfo da Revolução Islâmica, nomeadamente o Conselho Guardião.

Esse poder, previsto no artigo 136.º consiste na obrigatoriedade de Hassan Rohani pedir a confiança do parlamento quando proceda à substituição de metade dos seus ministros.

O governo iraniano tem 19 ministros e Hassan Rohani já substituiu oito desde a sua eleição para o cargo, em 2017.

Sobre as eleições de sexta-feira, o ministro do Interior anunciou hoje que mais de metade dos eleitores iranianos (57,43%) se absteve de votar nas legislativas de sexta-feira.

Abdolreza Rahmaní Fazli, que apresentou os resultados em conferência de imprensa, disse que, dos 57.918.159 eleitores inscritos, apenas 24.512.404 se deslocaram às assembleias de voto, e o seu voto traduziu-se na confirmação de uma vitória em toda a linha do bloco conservador e ultra.

A nível nacional, a percentagem apresentada pelo ministro do Interior é a mais baixa desde 1979, ano da Revolução Islâmica que derrubou a dinastia Pahlavi.

Nas anteriores legislativas, em 2016, a taxa de participação eleitoral foi de 62% e na ocasião representou a eleição maioritária de deputados ligados ao bloco reformista e moderado.

O novo Majlis (Parlamento) tem 290 deputados, cinco dos quais representam as minorias confessionais -- zoroastras (um), judeus (um), cristãos sírios e caldeus (um) e cristãos arménios (dois) -, de entre os mais de sete mil candidatos que vão a votos.

Os eleitores votaram também para preencher sete lugares da Assembleia de Peritos em cinco províncias do país: Teerão, Qom, Khorasan Norte, Khorasan Razavi e Fars.

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