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As comunidades onde o fogo levou as casas e fez desaparecer os turistas

Jessica Kensley não consegue conter a emoção e chora enquanto pede que os turistas voltem à sua pequena aldeia, de Bendalong, a cerca de 230 sul de Sydney, numa das zonas mais atingidas pelos recentes fogos.

As comunidades onde o fogo levou as casas e fez desaparecer os turistas

"Isto é muito difícil", conta à agência Lusa, ao lado do marido, Kevin, com quem gere uma pequena loja e café, a única nesta zona de Bendalong, uma das aldeias afetadas pelos fogos que alastram pela costa sul de Nova Gales do Sul.

"É o segundo verão que perdemos. E o verão é essencial para aguentarmos durante o ano. Há 16 meses tivemos um fogo elétrico e agora isto. Felizmente não ardeu a loja, mas ficámos sem turistas", explica.

Bendalong - a população ronda os 400 habitantes - é uma das muitas localidades da zona que depende do turismo para viver e, especialmente, da grande afluência entre dezembro e fevereiro, a época alta.

E ainda que agora, depois dos fogos, haja solidariedade e apoio da comunidade, a entreajuda não chega: há negócios que referem uma queda de até 75% nas receitas, com associações empresariais a pedirem apoio urgente para a região.

"Foi um ano difícil e agora isto. Dependemos disto: é o nosso emprego, a nossa vida. Tudo", explica.

Kevin, natural do Canadá - os seus pais vieram passar o Natal e acabaram por viver o drama dos fogos em primeira pessoa - diz que o facto da loja ter resistido parece impossível de acreditar.

"Estávamos aqui na loja e começamos a ver as colunas de fumo e depois as chamas a subir do lago Conjola). Fomos buscar o cão e fugimos. É um milagre que a loja não tenha ardido", conta à Lusa Kevin Kensley, 34 anos, e que vive na zona há cinco.

Do outro lado da estrada toda a floresta ardeu e do lado de cá, da loja e das casas, as chamas chegaram a 'lamber' arbustos em jardins e a lançar fagulhas que deixaram manchas queimadas e buracos em algumas estruturas.

Garry e Linda diz que os fogos percorreram vários quilómetros muito rapidamente, queimando a floresta "num ápice".

"Quando vês árvores a queimar-se assim, tão rápido, é assustador. Mas felizmente há coias que sobreviveram, as praias continuam ótimas e por isso as pessoas têm de voltar. É a melhor maneira de ajudar esta comunidade", disse.

"Sinto muito orgulho do heroísmo, da solidariedade, da entreajuda desta comunidade", disse.

Ainda no rescaldo dos fogos - aqui e ali ainda há árvores com fumo - localidades como Bendalong estão mesmo fechadas, com o acesso a ser permitido apenas a residentes ou, em alguns casos, a jornalistas.

"Prefiro que não faça imagens", explica, Kenneth um dos habitantes que vive mesmo ao lado do lago, aceitando conversar, mas com respostas curtas entrecortadas por silêncios e pausas: "Foi um horror. Foi um horror".

Foi daqui desta zona, no início do ano, que saíram as imagens que deram a volta ao mundo de residentes e turistas a ter de fugir de casa e entrar no Lago Conjola, aqui ao lado, para escapar às chamas, vendo depois hectares de florestas e casas - dezenas de casas - a arder em poucas horas.

Pouco a pouco, vão agora voltando a casa, procurando ver o que se salvou. Se algo se salvou.

Muitos têm seguros, outros estão temporariamente em casas de familiares ou amigos, mas outros perderam tudo, sem saber exatamente o que fazer, quando as promessas de ajuda que já foram feitas pelo Governo chegarão ou, sequer, se serão suficientes.

O impacto nesta região de Shoalhaven é evidente a partir da vila de Nowra, com bolsas mais urbanizadas a sobreviverem às chamadas, estando agora ligadas por dezenas e dezenas de quilómetros ardidos de floresta, reservas naturais e bosque.

Dos dois lados da Princess Highway - onde estes dias camiões com equipamento pesado, carros de polícia ou de serviços municipais substituíram os que, noutros anos, seriam carros de turistas - a imagem é de devastação.

Depois do fogo vieram as primeiras equipas para restaurar eletricidade e comunicações, depois as brigadas de trabalhadores com equipamento pesado que cortou as árvores mais danificadas e mais próximo da estrada.

Hoje uma dessas equipas estava a cortar uma árvore gigantesca com um tronco de mais de um metro de distância: "é tremendo tudo isto", confessa um dos trabalhadores, de capacete branco sobre as rastas e a descansar a motosserra no ombro esquerdo.

São muitos os exemplos como este, de troncos enormes carbonizados, de árvores com dezenas e dezenas de anos, tombadas sob a fúria de chamas que deixaram a floresta cinzenta, cor de cinza, e desprovida de vida, com um silêncio pouco normal a dar um ar fantasmagórico a alguns locais.

Animais que não tenham conseguido fugir não sobreviveram aqui.

E demorarão a voltar. Esperam os habitantes da zona, que os turistas voltem ainda mais depressa.

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