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Cancro do rim. Relação médico-doente essencial para êxito do tratamento

Conversámos com Ricardo Leão, professor na Faculdade de Medicina de Coimbra e urologista na CUF Tejo e CUF Coimbra, sobre o tema.

Cancro do rim. Relação médico-doente essencial para êxito do tratamento

Estima-se que o cancro do rim atinja mais de mil portugueses todos os anos e provoque a morte a outros 500, mas o desconhecimento sobre a doença ainda é substancial. Como tal, a maioria dos doentes esquiva-se a tomar decisões relacionadas com os cuidados de saúde que lhes são prestados, principalmente em situações em que existe risco.

O que muitos não sabem é que uma boa relação médico-doente pode salvar vidas, pois só assim é possível obter um diagnóstico precoce e avançar com os tratamentos mais adequados a cada um. Isto mesmo é defendido por Ricardo Leão, professor na Faculdade de Medicina de Coimbra e urologista na CUF Tejo e CUF Coimbra.

"Está provado que quando os doentes tomam parte na decisão consciente e cientificamente esclarecida da sua doença os resultados são melhores", diz, em entrevista ao Lifestyle ao Minuto.

Nas suas palavras, "os doentes devem pugnar por uma relação médico doente de cumplicidade e de exigência mútuas". "Capacitar os doentes e incentivá-los para uma decisão partilhada na sua doença, permite-nos fazer melhor medicina", considera. 

Notícias ao Minuto Ricardo Leão

O que é o cancro do rim?

O cancro do rim não é mais do que uma lesão (tumoral) do rim. Esta lesão, também designada massa, apresenta características (em imagem e histologia) diferentes do tecido do rim normal.  

Existem quanto casos diagnosticados no mundo? 

Em 2020, 336.456 pessoas foram diagnosticadas com cancro do rim em todo o mundo.

 Nenhum médico deve avançar para uma terapêutica sem que o seu doente tenha o conhecimento exato dos riscos e benefícios inerentes

E em Portugal? São diagnosticados quantos novos casos por ano?

Em Portugal, representa cerca de aproximadamente 2-3% de todos os tumores malignos, estimando-se 1191 novos casos e aproximadamente 529 mortes anualmente.

Quem é mais afetado?

É ligeiramente mais frequente nos homens do que nas mulheres e tende a ser diagnosticado entre os 50 e 70 anos.

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Quais os sintomas a não descurar?

Na grande maioria das vezes, as lesões renais – tumores do rim – são diagnosticadas em exames de rotina. Ou seja, os doentes com cancro do rim são geralmente assintomáticos e estas lesões são diagnosticas em ecografias ou TC de rotina (para 'check-up' ou por outras razões clínicas).  No entanto, em alguns casos de doença mais avançada, pode surgir dor, normalmente lombar, urina no sangue, desconforto abdominal e manifestar-se uma massa palpável a nível abdominal. 

Quais os fatores de risco?

O tabaco, a hipertensão arterial e a obesidade são fatores de risco conhecidos para cancro do rim. 

Como é feito o diagnóstico da doença?

O diagnóstico é, certamente, histológico, ou seja, é sempre necessário tecido da lesão para ter um diagnóstico definitivo e isso acontece ou com biópsia prévia ao tratamento ou estudo do tumor já totalmente removido. No entanto, hoje em dia, com o avanço dos exames de imagem (tomografia computorizada, por exemplo) e com a experiência adquirida pelos técnicos (radiologistas) é possível, com grande acuidade, admitir se uma lesão renal é benigna ou maligna.

Quais são as opções de tratamento disponíveis?

Felizmente, hoje em dia, as opções terapêuticas são muito variadas e podem ser adaptadas ao estádio da doença. Ou seja, as opções variam para tumores de reduzidas dimensões até doença metastizada. Assim, para tumores de baixo risco e de reduzidas dimensões poderá ser implementada uma estratégia de vigilância (o doente não é tratado, dado que a lesão é pouco agressiva) ou ser realizada cirurgia minimamente invasiva (laparoscópica ou robótica), com o intuito de remover apenas a lesão. Outras opções para pequenas massas renais são também a crioterapia, a ablação por radiofrequência, a ablação por laser e por micro-ondas.

Em casos de lesões de maiores dimensões em que não há possibilidade de poupar parte do rim é necessário fazer a sua remoção cirúrgica na totalidade. Aqui a abordagem pode ser por cirurgia aberta, laparoscopia ou robótica. A doença sistémica, metastizada, é tratada com abordagem médica de acordo com o risco da doença, mas na generalidade consiste em anti-angiogénicos e imunoterapia, que podem ser ministrados isoladamente ou combinados. 

É importante que o doente sinta confiança nas capacidades científicas e técnicas do seu médico e da instituição em que vai ser tratado

É importante falar com o doente sobre os respetivos benefícios e riscos?

É crucial! Nenhum médico deve avançar para uma terapêutica sem que o seu doente tenha o conhecimento exato dos riscos e benefícios inerentes. 

Que perguntas devem os doentes colocar aos seus médicos?

Todas aquelas que lhe suscitam dúvidas. Na verdade, os doentes devem pugnar por uma relação médico doente de cumplicidade e de exigência mútuas. Todos os doentes com cancro do rim devem estar bem informados acerta da história natural da sua doença e dos efeitos das terapêuticas a que podem ser sujeitos. É importante que o doente sinta confiança nas capacidades científicas e técnicas do seu médico e da instituição em que vai ser tratado. Avaliar estas capacidades – quantos doentes tratados, quais os resultados, qual a experiência do centro – é de primordial importância.  É sempre importante ter mais do que uma opinião clínica e saber se existem novos ensaios clínicos na instituição. No fundo, saber a possibilidade de acesso a terapêutica inovadora.

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É importante capacitar os doentes para exercerem um papel ativo nas decisões de tratamento?

É fundamental. Está provado que quando os doentes tomam parte na decisão consciente e cientificamente esclarecida da sua doença os resultados são melhores. Estes estudos estão publicados e são muito interessantes. Em Portugal, existe uma associação de doentes com cancro do rim que discute as novas terapêuticas no minuto em que elas são apresentas em reuniões científicas internacionais. Isso é extraordinário, não só porque torna os doentes mais conhecedores da sua doença, mas porque lhes permite ser mais exigentes nos cuidados de saúde que lhe são prestados. É uma área de extrema importância que temos todos de estar envolvidos. Capacitar os doentes e incentivá-los para uma decisão partilhada na sua doença, permite-nos fazer melhor medicina. 

Qual a importância de um diagnóstico atempado?

É muito importante. Felizmente, com o uso generalizado de meios complementares de diagnóstico de imagem – a ecografia, por exemplo – estamos a diagnosticar muitos doentes com pequenas lesões tumorais renais. Os doentes que apresentam grandes massas renais e doença metastizada ao diagnóstico, são, felizmente, poucos. No entanto, existem, por isso, é importante, no cancro do rim, como em todos os outros cancros um diagnóstico da doença numa fase inicial. O que mata em cancro não é o tumor localizado, mas sim a doença sistémica (metástases). Se encontrarmos os tumores ainda localizados, pouco agressivos e de reduzido tamanho, temos grandes probabilidades de os tratamentos serem eficazes. Por isso, e no caso do cancro do rim, a realização de exames de imagem (ecografia renal) por rotina é crucial para a detecção de lesões de baixa gravidade e, consequentemente, melhor prognóstico e deve ser realizada por rotina em indivíduos de ambos os sexos.

É feito acompanhamento após o tratamento?

Sim, sempre. O acompanhamento da doença é sempre em função do estádio da doença. Existem protocolos e recomendações específicas de seguimento destes doentes – quer da Associação Europeia de Urologia quer da Sociedade Europeia de Oncologia Médica. Todos os doentes devem ser monitorizados de acordo com estas recomendações sob pena de poder ocorrer progressão/recidiva de doença após tratamento e esta não ser detetada, o que tem implicações significativas na vida dos doentes. 

Esta é também uma doença com consequências psicológicas.

Sim. Cada doente é um doente, mas sem dúvida alguma que o diagnóstico de cancro encerra em si uma carga negativa muito significativa. Alguns destes doentes são ainda jovens, trabalham, têm filhos dependentes ou têm uma vida financeira ainda não resolvida, por exemplo. Por isso, o diagnóstico de cancro tem impacto psicológico significativo, mas também familiar, social, profissional e económico. Um inquérito recente promovido pela International Kidney Cancer Coalition a doentes com cancro do rim, revela que 96% dos doentes manifesta alterações psicossociais – ansiedade relacionada com a doença em 60% dos doentes, ansiedade geral em 31%, medo de morrer em 44% dos doentes. 

Qual é o maior desafio da medicina atual no tratamento do cancro do rim?

Existem vários desafios. Um dos aspetos cruciais em oncologia é conhecer vias de metastização e padrões de resistência à terapêutica. Hoje em dia, conseguimos estudar molecularmente todos os cancros e isso tem resultado num número significativo de eventuais novos alvos terapêuticos. O desafio é criar novas terapêuticas, mais eficazes, menos tóxicas e, idealmente, a preços comportáveis por todos os países. 

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