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Esclerose Múltipla: Incontinência urinária não pode ser negligenciada

Na data em se assinala o Dia Nacional da Pessoa com Esclerose Múltipla, Ricardo Pereira e Silva, urologista no Hospital de Santa Maria, Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte, aborda o impacto da incontinência urinária e alerta que esta condição não pode ser negligenciada para segundo plano. O artigo de opinião que se segue é da sua autoria.

Esclerose Múltipla: Incontinência urinária não pode ser negligenciada

"A incontinência urinária é um sintoma que consiste na perda involuntária de urina. Trata-se de uma situação extremamente frequente, podendo afetar até 45% das mulheres e 39% dos homens, a nível mundial. Ainda que a ocorrência de incontinência aumente com a idade nunca deve ser considerado um fenómeno natural do envelhecimento, devendo antes ser valorizada, diagnosticada e tratada.

Existem múltiplas causas e fatores de risco que podem contribuir para este sintoma. Efetivamente, sendo uma doença desmielinizante crónica e degenerativa que afeta o sistema nervoso central, a Esclerose Múltipla (EM) pode alterar o controlo do aparelho urinário inferior conduzindo a uma desregulação que, em última instância, pode conduzir à perda involuntária de urina em homens e mulheres independentemente da idade. Os dois mecanismos principais são a bexiga hiperativa (ocorrendo contrações involuntárias do músculo da bexiga) e a dissinergia vesicoesfincteriana que consiste numa descoordenação entre a bexiga e o pavimento pélvico que impossibilita uma micção normal (a bexiga contrai contra um pavimento pélvico encerrado).

Os doentes podem apresentar micções frequentes no contexto de urgência miccional (vontade súbita e inadiável de urinar) durante os quais pode ocorrer incontinência urinária, frequentemente em grande quantidade. Por outro lado, mesmo sendo o doente incontinente, quando consegue chegar ao WC pode não conseguir urinar ou urinar em muito pequena quantidade. Para além dos sintomas, é importante destacar que as pressões elevadas dentro da bexiga podem também repercutir-se a nível dos rins com eventual perda progressiva de função (daí os doentes com EM terem um risco aumentado de insuficiência renal decorrente da sua disfunção urinária).

A incontinência urinária tem um grande impacto na vida pessoal, social, laboral e sexual dos doentes com EM porque as contrações involuntárias da bexiga são totalmente imprevisíveis e o tempo para chegar ao WC após a sensação de urgência pode ser muito pouco (principalmente se existir também mobilidade diminuída). Esta é uma situação que pode ferir gravemente a dignidade das pessoas afetadas quando, por exemplo, ocorre um episódio de perda total involuntária em público (o doente urinar-se, visivelmente, “pelas pernas abaixo”). O doente pode optar precocemente por utilizar métodos de contenção para evitar que as perdas sejam visíveis (pensos ou fraldas). Infelizmente, ainda existe um estigma associado à incontinência urinária e os doentes têm frequentemente dificuldade em falar sobre o assunto, inclusive com os próprios médicos.

A pandemia Covid-19 trouxe algumas mudanças para os doentes com incontinência urinária – se, por um lado, é mais provável que uma razoável proporção de pessoas possa estar em teletrabalho sendo mais fácil por exemplo tomar duche ou trocar de roupa em caso de perda, por outro lado, quando é necessário sair, o acesso ao WC pode ser ainda mais difícil.

Importa referir que, sendo a EM uma doença difusa e cujo padrão de lesões varia de doente para doente, a disfunção urinária daí decorrente é igualmente variável. Por esse motivo, para que o tratamento seja individualizado e adequado a cada situação, é necessário que a pessoa afetada por EM e sintomas urinários seja avaliada por um urologista especializado em doentes neurológicos e seja realizado um estudo urodinâmico para caracterizar a disfunção existente.

Os objetivos do tratamento são, por um lado, a proteção dos rins, por outro a melhoria da qualidade de vida mediante diminuição ou remissão da incontinência.

O tratamento da bexiga hiperativa neurogénica poderá passar por terapêutica médica (em comprimidos) numa primeira instância, injeção de toxina botulínica (eventualmente associada a esvaziamentos da bexiga com uma sonda) ou neuromodulação de raízes sagradas – esta última, particularmente útil se existir também disfunção de esvaziamento, já que pode permitir a melhoria ou normalização de ambos os tipos de disfunção (bexiga hiperativa e dissinergia)".

Artigo da autoria do urologista Ricardo Pereira e Silva

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