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E se não precisasse de ter um caixote do lixo em casa?

Estivemos à conversa com Eunice Maia, fundadora da Maria Granel - a primeira 'zero waste' e mercearia biológica a granel em Portugal -, que partilhou algumas dicas de como abolir o desperdício. "O zero é impossível, mas merece que façamos alguma coisa, que comecemos!", apela a também autora do livro 'Desafio Zero'.

E se não precisasse de ter um caixote do lixo em casa?

Alguma vez pensou sobre a quantidade de lixo que diariamente produz em sua casa? Ou na velocidade com que enche um saco do lixo? Esta é uma das propostas de Eunice Maia com o livro 'Desafio Zero'. O nome à partida pode ser-lhe desconhecido, mas se dissermos que esta foi a fundadora da Maria Granel, a primeira 'zero waste' e mercearia biológica a granel em Portugal, então poderá 'acender-se uma luz'. 

Estivemos à conversa com a autora, que nos falou sobre o tema, a sua experiência e o caminho pessoal rumo ao zero desperdício, bem como sobre algumas técnicas que podemos colocar em prática nesta altura, uma vez que passamos mais tempo em casa. O objetivo não é atingir-se a perfeição, mas orgulharmo-nos na imperfeição dos pequenos gestos. 

O que é que propõe com este livro? Qual o principal objetivo?

Este livro é, além de um relato da minha caminhada pessoal de redução de desperdício, um guia prático, um desafio, para contagiar os leitores a adotar pequenos gestos na sua casa, na sua rotina, na sua vida para reduzir os resíduos gerados.

Não se trata já de uma tendência, mas de sobrevivência  O ativismo ambiental está na moda. Considera que este é um assunto com o qual as pessoas se preocupam de facto, ou que, a certa altura esta é uma 'febre' que irá passar?

Ainda bem que está na moda, precisamos de todos! E se por ser moda chega a mais gente e conseguimos despertar mais pessoas, melhor! Sim, sem dúvida, noto, sobretudo, desde 2018, que houve uma viragem em termos de consciência coletiva e que as pessoas estão a despertar. Não é uma 'febre' que irá passar, porque estamos num ponto de não retorno. Não se trata já de uma tendência, mas de sobrevivência. 

Na introdução do seu livro relata que antes as compras por impulso eram uma constante na sua vida. Impulso esse que depois dava lugar a uma angústia e, de certa maneira, vazio. Considera que a sociedade, com as redes sociais, ainda leva as pessoas a terem este género de comportamentos?

Na minha fase consumista, não havia ainda redes sociais, o que é interessante ter em conta para podermos analisar esse comportamento. Teremos sempre a hipótese de escudar o nosso impulso consumista em subterfúgios como a publicidade, as redes sociais, a sociedade, os outros. Na verdade, o que aprendi é que é dentro de nós que está a mudança e que temos de parar para pensar antes de comprar: perceber se precisamos de facto do que vamos adquirir, como vai ser usado, quantas vezes, como pode ser estimado e prolongado, se é possível evitar o seu descarte. Quando mudamos a forma de pensar (quando repensamos a forma como consumimos), muda tudo.

Porque é que refere que o seu pai foi um exemplo para si neste sentido?

O meu pai, sem nunca o pretender ser, talvez tenha sido o primeiro 'ativista ambiental' que conheci. O seu amor à terra, que eu não percebia - às vezes, até nos revoltava, a mim, à minha irmã e à minha mãe, porque o levava para longe de nós antes de o sol nascer e só o trazia de volta, de galochas e cestos pletóricos de legumes e fruta, depois de o sol se pôr -, agora enternece-me, comove-me e inspira-me. Foi com ele que aprendemos a semântica da poupança (energia, dinheiro, comida...) e aplicámos, sem saber, a lei de Lavoisier: 'Nada se perde, tudo se transforma'. Foi também graças a ele que, desde sempre, se fez compostagem lá em casa. É a mais bonita personificação que eu conheço de respeito pelo planeta.

Viver em Lisboa quando se é de fora é sentir constantemente o apelo do regresso, é andar com a província instalada para sempre dentro do nosso coração

O que a levou a querer mudar de vida?

Foi uma história de amor que me uniu a um açoriano e que me empurrou para a capital. O meu marido, Eduardo, é de São Miguel, traz no baú de memórias aquele verde luxuriante das ilhas, as pastagens que só acabam no azul-cobalto do oceano, entre o abraço das hortênsias e o ritmo suave das estações. Cresceu entre jardins e plantações de ananás, maracujá e bananeiras, correu e brincou descalço. Fomos ambos ensinados a ouvir e a respeitar o sussurro da terra e a agradecer as suas dádivas. O mesmo murmúrio da natureza, ancestral, insondável, mágico. Viver em Lisboa quando se é de fora é sentir constantemente o apelo do regresso, é andar com a província instalada para sempre dentro do nosso coração.

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Uma publicação partilhada por Maria Granel (@mariagranel.lx) a 21 de Nov, 2019 às 12:50 PST

E foi o que nos aconteceu aos dois. Estávamos desenraizados e longe das nossas origens. Até que chega o ano de 2013. A minha vida sofreria uma reviravolta. Num projeto que é fruto do amor que nos une, sonhámos e criámos a primeira mercearia biológica 100% a granel em Portugal - a 'Maria Granel', que abriria as portas em novembro de 2015.

Como surgiu a ideia?

O conceito nasceu exatamente como homenagem às nossas raízes comuns associadas à terra, como uma forma de recuperarmos a ligação afetiva que sentíamos nas nossas pequenas comunidades de origem, tão bem cristalizada no imaginário coletivo das antigas e tradicionais mercearias de bairro. E o que primeiro assomou como simplesmente uma mercearia biológica a granel foi depois crescendo como conceito dentro de nós (e da minha vida) e afirmando-se (e construindo-se) como projeto de redução de desperdício, a primeira zero waste store nacional. Pelo caminho, duas mulheres mudariam a minha vida, mudariam a forma como eu olhava para o mundo e, em particular, a forma como eu (não) olhava para o desperdício que gerava: Bea Johnson e Ana Pêgo.

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Uma publicação partilhada por Maria Granel (@mariagranel.lx) a 20 de Jan, 2020 às 2:07 PST

No início qual foi o passo/hábito mais difícil de adquirir?

Os maiores desafios foram dar um novo destino aos resíduos orgânicos, através da compostagem (que só iniciei em 2019), encontrar champô a granel e descobrir uma boa receita de desodorizante caseiro que funcionasse para mim.

Para as pessoas que querem iniciar esta caminhada, qual seria o conselho que lhes daria?

Começar! O que interessa é nos pormos juntos a caminho. Eu sei, por experiência própria (por ter estado do outro lado na 'minha outra vida'), que a ecologia e (talvez ainda mais) o movimento zero waste podem, por vezes, parecer restritivos e radicais, deixando reservas a quem quer mudar, por não saber bem o que fazer, como fazer, por onde começar, por ter medo do erro ou de se sentir julgado e 'marginalizado', cheio de culpa por não chegar ao 'zero' nem perto disso. 

Há uma frase que me inspira muito da Anne-Marie Bonneau (zero waste chef), pelo seu otimismo e força: 'Nós não precisamos de um grupo de pessoas a praticar zero waste de forma perfeita; precisamos de milhões a fazê-lo de forma imperfeita'.

Acredito muito nisso, no poder dos pequenos gestos imperfeitos  

Acredito muito nisso, no poder dos pequenos gestos imperfeitos. A abordagem tem mesmo de ser feita pelo lado positivo, centrando a nossa energia naquilo que é possível, com expectativas realistas. Porque um estilo zero waste e low impact é necessariamente condicionado por fatores que nem sempre controlamos, que não nos são acessíveis ou que simplesmente ainda desconhecemos perto de nós. O mais importante é mesmo tentar e ir conseguindo. É celebrar as pequenas mudanças - a garrafa reutilizável, andar sempre com os próprios sacos e talheres e guardanapo, o dizer não...

O zero é impossível, mas merece que façamos alguma coisa, que comecemos O zero é impossível, mas merece que façamos alguma coisa, que comecemos! Que lutemos juntos todos os dias por ele. Por isso, independentemente do que consiga ou não fazer, só o facto de estar desse lado é um passo. Não há nenhuma fórmula mágica, nenhum guia, nenhum livro que o possa fazer por nós. É dentro de nós que está o caminho. É dentro de nós que está a revolução.

Quem são os clientes da sua loja?

São transgeracionais: temos desde os queridos fregueses mais velhos, que nos visitam pelo fator nostálgico (a memória da mercearia a granel de bairro, os cheiros da infância, os cartuxos de papel) aos mais jovens, aos que vêm por se identificarem com a missão de sustentabilidade, aos turistas que passam na rua, aos que nos descobrem por acaso e vão voltando e vão despertando também a sua consciência nessas visitas.

Consegue destacar cinco das práticas que sugere para cada divisão da casa, isto é:

Cozinha:

  1. Organizar os alimentos em frascos reutilizados para controlar o seu estado e a quantidade;
  2. Reabastecer a despensa a granel;
  3. Comprar local e sazonal; tirar partido do frigorífico e do congelador para prolongar a vida dos alimentos, acondicionando-os corretamente (por exemplo, guardar as cenouras num contentor com água; envolver as alfaces num toalhete húmido,...);
  4. Em vez de esponja sintética, fazer um esfregão a partir de toalhetes antigos;
  5. Fazer os próprios detergentes ou comprá-los a granel.

Casa de banho:

  1. Usar sabonete em vez de gel de banho;
  2. Optar por escova de dentes com cabeça amovível;
  3. Usar champô sólido ou comprar champô a granel;
  4. Pensos reutilizáveis;
  5. Fazer discos desmaquilhantes de pano reutilizáveis a partir de antigas toalhas ou roupa de algodão.

Armário:

  1. Estime e conserte aquilo que já não está em boas condições: deixámos de ir à costureira e ao sapateiro - e isso é bem demonstrativo do tipo de sociedade em que nos convertemos (se já não usamos, descartamos, em vez de consertarmos e prolongarmos a vida das coisas).
  2. Prefira pré-tratar localmente as nódoas, antes de colocar as peças na máquina. Faça uso da sabedoria e das técnicas populares com séculos de eficácia. 
  3. Aumentar a carga da máquina de lavar, para que o uso de água e de energia seja mais eficiente.
  4. Não precisa de passar a ferro todas as peças de roupa. Pendure-as em cabides no estendal, vai ajudar!
  5. Use mais vezes a sua roupa, repita mais vezes a mesma toilette - com a ajuda de um desodorizante caseiro ou deixando as roupas respirarem num cabide à noite, fora do armário, ou penduradas ao ar na varanda.

Escritório e material escolar:

  1. Doar, trocar, emprestar livros e material em boas condições de que já não precise.
  2. Se tiver de recorrer a papel, reutilizar folhas (usar como folhas de rascunho) ou, caso tenha de adquirir novo, garantir que é reciclado pós-consumo e de florestas sustentáveis certificadas.
  3. Cadernos: dar continuidade aos cadernos do ano anterior, fazendo um separador que identifique o novo nível de escolaridade.
  4. Passar para o digital: desde livros, manuais, revistas ou jornais a aplicações para gerir anotações, calendário, agenda, plataformas educativas, é possível fazer a transição do papel e acabar com impressões e desperdício (papel, tinta...). Menos é mais! 
  5. Usar o que já tem até ao seu final de vida (cuidar, consertar) e dar-lhe depois um descarte correto e responsável (caso seja necessário, a WasteApp ajuda). 

Compro muito menos e o que compro dura muito mais. E a redução dos custos foi drástica! 

Muitas pessoas pensam que um estilo de vida assim é mais caro… concorda com este pensamento?

Não, sou a prova viva do contrário. Passei a apostar em qualidade e não em quantidade. Compro muito menos e o que compro dura muito mais. E a redução dos custos foi drástica! É importante perceber que a forma como calculamos o custo muda na nossa cabeça. Um copo menstrual custa 24 euros, é caro, se pensarmos de forma imediata e a curto prazo, mas, quando damos conta de que esse copo dura uns 10 anos, basta fazer as contas ao número de tampões e pensos que gastaríamos durante esse período, e percebe-se a poupança (ao nível financeiro, ambiental e da saúde). Convém não esquecer que o barato (aparentemente barato) sai normalmente muito caro...

Nesta altura de quarentena, como é que as pessoas poderão continuar a fazer as suas compras a granel? À distância não é mais difícil?

Há muitas lojas a granel abertas, mesmo que com horário mais reduzido. Lojas familiares, de comércio tradicional, de proximidade, de bairro. Com equipas a dar o seu melhor para continuar a fazer chegar às pessoas alimentos saudáveis e nutritivos nesta altura em que eles são ainda mais necessários. Com todas as regras de segurança e de higiene asseguradas e reforçadas.

No nosso caso, Maria Granel, é possível continuar a comprar a granel, através dos serviços de encomenda para levantar em loja ou para entrega. Basta enviar-nos um e-mail para [email protected]; nós respondemos com um ficheiro em que é possível escolher os produtos e as quantidades desejadas e damos indicações sobre os passos seguintes.

Quais os conselhos que dá para que nesta fase não exista desperdício de comida? E como evitar a produção de mais lixo sabendo que as famílias estão mais tempo em casa logo o consumo é maior?

  • Planear as refeições em função do que já se tem em casa;
  • Fazer sempre lista de compras;
  • Seguir as orientações da DGS em relação aos alimentos essenciais e às quantidades recomendadas;
  • Acondicionar bem os alimentos na despensa e no frigorífico;
  • Tentar aproveitar integralmente esses alimentos.
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Como garantir em período de isolamento a disponibilidade de alimentos que permita assegurar as necessidades alimentares por um período mais longo de tempo, para evitar deslocações frequentes para reabastecer? Como planear a compra e que cuidados ter na hora de comprar? Quais os alimentos a privilegiar? A @direcao_geral_saude produziu um documento a 19 de março que responde a estas questões. Foi com base nessa informação que preparámos este post (deslizem para ver!). Assinalámos no KIT ALIMENTAR os produtos secos de que dispomos em loja. Muito obrigada à nossa querida nutricionista @ana.sofia.guerra_nutricionista , pela consultoria na realização deste post. Documento original da @direcao_geral_saude completo nas stories, para que possam aceder e ler na íntegra. Até já!  @dans_le_sac #mariagranel #dgs #healthyfood #covid_19 #food #kitalimentar #isolamento #bio #organic #biologico

Uma publicação partilhada por Maria Granel (@mariagranel.lx) a 21 de Mar, 2020 às 6:19 PDT

Quais os primeiros passos que as pessoas podem aproveitar para dar nesta altura agora que estão em casa?

A minha sugestão é começar por organizar a despensa e o frigorífico. Ter a despensa organizada, com todos os produtos bem visíveis, identificados, em frascos reutilizados, é o primeiro passo para percebermos bem o que temos, qual o seu estado e quantidades, monitorizando e evitando o desperdício. Por outro lado, no frigorífico, ter muito cuidado com a acondicionamento dos alimentos, de forma a evitar que se deteriorem. É muito importante também não descurar a separação e reciclagem dos resíduos. Esta pode ser uma boa altura para dar os primeiros passos para fazer compostagem, caso tenha espaço para isso em casa.

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