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Viver a sexualidade na adolescência: A descoberta, o medo e o amor jovem

O Lifestyle ao Minuto foi falar com Sérgio Neves, médico pediatra e coordenador da unidade de pediatria da Clínica de Santo António, em Lisboa, sobre o que significa na sociedade atual ser jovem e viver a sexualidade.

Viver a sexualidade na adolescência: A descoberta, o medo e o amor jovem
Notícias ao Minuto

08:30 - 08/08/18 por Liliana Lopes Monteiro  

Lifestyle Entrevista

Como é que jovens experienciam atualmente o período de descoberta e todo um mundo novo de sensações e experiências ligadas à sexualidade? Se no caso dos rapazes, se destacam sobretudo as preocupações com o aspeto físico como a 'normalidade do pénis' e a autoimagem (virilidade, fertilidade, 'integrar-se no grupo de pares', a satisfação sexual do próprio e do outro); já as raparigas, para lá das questões de imagem corporal,  referem a afetividade como um dos elementos que maior apreensão lhes causa. Incluindo ainda o medo de rejeição, de engravidar, o 'ceder a ter relações sexuais' para manter o relacionamento e a questão de violência no namoro. 

Mas, afinal, será que há uma idade ideal para se perder a virgindade? Para se tomar a pílula? Nos casos das interrupções voluntárias da gravidez, os meios clínicos estão preparados para esclarecer e ajudar os mais jovens? E será que há cada vez mais casos de problemas de identidade sexual ou apenas uma maior liberdade para se discutir abertamente o tema?

Sérgio Neves responde a estas e outras questões. 

É seguro nomeadamente para as raparigas tomarem contracetivos desde muito jovens?

A prescrição de contracetivos implica uma avaliação clínica (história familiar e pessoal: rastrear contraindicações, avaliação do índice de massa corporal, tensão arterial e exame global), as motivações e maturidade da adolescente, e o seu contexto sócio-familiar. Numa consulta de medicina do adolescente ou de ginecologia a utilização dos contracetivos nas adolescentes faz-se também pelos outros benefícios da pílula: melhoria da acne, controlo das irregularidades menstruais, controlo de dismenorreia (dores menstruais) ou da hemorragia disfuncional uterina (períodos menstruais muito abundantes) com anemia. Garantindo assim uma vigilância clínica regular e uma utilização apropriada da pílula, os benefícios, na maioria das situações, superam os riscos.

Se se pretende uma contraceção há que reforçar sempre o uso de preservativo, a prevenção de violência no namoro e de sentimentos de desvalorização e culpa com relações pontuais, e do risco de gravidezHá uma idade recomendada para o começo da toma da pílula?

As adolescentes têm padrões de maturação física e psicoafectiva muito diferentes entre si. Como também a idade da menarca, ou primeira menstruação, é muito variável. Como foi referido anteriormente as pílulas são utilizadas para outros benefícios além da contraceção. A prescrição de uma pílula é sempre individualizada e não tem uma idade mínima definida.

Se se pretende uma contraceção há que reforçar sempre o uso de preservativo, a prevenção de violência no namoro e de sentimentos de desvalorização e culpa com relações pontuais, e do risco de gravidez (os 'esquecimentos da pílula', a pílula do dia seguinte e a interrupção voluntária gravidez).

Os contracetivos como a pílula podem impactar no crescimento físico ou a nível psicológico?

Não. A composição das diferentes pílulas combinadas ou progestativas são atualmente de baixa dosagem, diminuindo grandemente os efeitos secundários. Em nenhuma delas existe compromisso do crescimento, fertilidade ou interferência na maturação psicológica. Contudo como qualquer medicação têm contraindicações e efeitos secundários (habitualmente transitórios) que devem ser explicados.

Considera que os jovens estão a par de todos os meios contracetivos ao seu dispor?

Na globalidade os estabelecimentos de ensino, por iniciativa própria ou por intervenção de projetos de saúde (como a saúde escolar), promovem sessões de esclarecimento e divulgação sobre a contraceção/sexualidade. Os métodos mais divulgados são sem dúvida os contracetivos hormonais (pílulas) e o preservativo, embora se possam utilizar também os implantes subcutâneos progestativos e também dispositivos intrauterinos (DIU) para adolescentes. Contudo continua-se a verificar uma 'não'/' má' utilização dos contracetivos (esquecimentos da toma da pílula, não utilização de preservativo concomitante, abertura dos invólucros com os dentes e a rutura do preservativo, não utilização do preservativo para sexo oral ou a retenção do preservativo na vagina/ânus no final do coito). Outro aspeto relevante, é o desconhecimento da pílula do dia seguinte ou da sua correta utilização e o 'não pedido de ajuda' nas situações de risco.

Se uma adolescente mostra interesse em recorrer a um ginecologista, tal deve ser visto como um sinal de autonomia e de responsabilização

Com que idade as raparigas devem começar a frequentar consultas de ginecologia?

Não existe uma idade certa para consultar um ginecologista, depende da adolescente e do seu contexto (familiar, cultural, étnico). Geralmente, os motivos mais frequentes para consulta são as irregularidades menstruais, hemorragia disfuncional uterina (períodos menstruais excessivos), a dismenorreia (dores menstruais), hirsutismo (pelo excessivo em áreas andrógenas), acne e contraceção. Se uma adolescente mostra interesse em recorrer a um ginecologista, tal deve ser visto como um sinal de autonomia e de responsabilização, não implicando que tenha ou vá ter relações sexuais de imediato.

Há uma idade certa para o começo da vida sexual dos jovens?

Os adolescentes entram na puberdade em idades diferentes, e a par das mudanças físicas os padrões de maturação psicoafetiva podem não ser coincidentes com as primeiras. Assim, temos adolescentes com 10-13 anos que estão ainda centradas nas mudanças físicas ('a normalidade' por comparação entre pares) e outros com 14-16 anos que podem já estar a pensar nas relações interpessoais e na vivência da sexualidade (que não têm de implicar necessariamente sexo vaginal ou anal). Assim não existe uma idade certa para o início da atividade sexual. Contudo uma idade mais precoce implica maiores riscos: pressão por parte do parceiro(a), sobretudo se mais velho; menor uso de métodos contracetivos e consequentemente gravidez indesejada e doenças sexualmente transmissíveis; maior risco de consumo de drogas; de desinteresse escolar e de ocorrência de distúrbios de humor (sobretudo associados a rejeição).

A falha de informação e de uma sexualidade segura leva a que uma gravidez indesejada possa ser o resultadoRelativamente às interrupções voluntárias da gravidez, sente que as jovens têm o apoio e informação necessária?

A interrupção voluntária da gravidez (IVG) tem grandes repercussões, não só físicas como psicológicas, tanto para a adolescente como para a sua família e amigos. A falha de informação e de uma sexualidade segura leva a que uma gravidez indesejada possa ser o resultado. Nalguns casos, os sentimentos de vergonha, culpa, medo levam a que a adolescente 'encubra' a situação e torne a opção de interrupção voluntária de gravidez já impraticável por ultrapassar o limite legal. Na globalidade, é um choque para a família e a decisão entre IVG ou manter a gravidez pode levar a conflitos de opinião entre adolescente e família. Legalmente, a partir dos 16 anos uma adolescente poderá optar por uma IVG mesmo que seja a decisão contrária da família. Uma avaliação multidisciplinar com médico, enfermeiro e psicólogo permitem definir a melhor opção e esclarecer todas as dúvidas. Não deve ser esquecida a adequada contraceção e acompanhamento posterior.

Quando essa interrupção acontece, há algum tipo de acompanhamento psicológico posterior?

A organização dos serviços de saúde é muito variável, pelo que as equipas podem incluir psicólogo ou referenciar à psicologia posteriormente. Nem sempre é necessária uma avaliação psicológica, sobretudo se existe uma relação de proximidade e empática com o médico assistente (ginecologista, pediatra (medicina do adolescente), médico de família), com a enfermeira de planeamento familiar; e se há apoio familiar e de outros elementos de referência. Sem dúvida, deve-se estar alerta para sinais e sintomas de risco: alterações do sono, alterações do padrão alimentar ('saltar refeições', induzir o vomito após as refeições), flutuações bruscas de humor (irritabilidade, choro fácil), isolamento, absentismo escolar, quebra de relações de amizade, ou autolesões (cortes nos membros, queimaduras, arrancar cabelos, escarificação).

Quais são os maiores medos dos jovens em relação ao sexo?

A expressão dos receios em relação à sexualidade é determinada pela idade cronológica, grau de maturação mental, influência do grupo de pares, contexto étnico e social, e do género (rapaz ou rapariga). Inicialmente (10-13 anos) as questões da sexualidade assentam na 'normalidade' do corpo (ser magro, alto, gordo, tamanho e forma das mamas, tamanho pénis, ser ou não menstruada), a partir dos 14 anos surgem já as experimentações (o gostar de mim: medo de rejeição/ vergonha; pressão dos pares: 'sou o único virgem', a masturbação, as saídas com amigos: experimentação de substâncias com risco de relações sexuais desprotegidas; o medo das doenças ou da gravidez). 

Existem de facto expressões diferentes no que toca a sexualidade e à afetividade entre rapazes e raparigasComo profissional nota diferenças significativas relativamente aos tipos de receios por parte dos rapazes e das raparigas?

Existem de facto expressões diferentes no que toca a sexualidade e à afetividade entre rapazes e raparigas. No caso dos rapazes, os aspetos físicos como a 'normalidade do pénis' e autoimagem (virilidade, fertilidade, 'integrar-se grupo de pares', a satisfação sexual do próprio e parceiro). As raparigas destacam também as questões do corpo, mas referem a afetividade como importante: o medo de ser rejeitada, o medo de engravidar, o 'ceder a ter relações sexuais' para manter o namoro, a questão de violência no namoro…

Sente que nos dias de hoje existem mais adolescentes com problemas de identidade sexual, ou que possivelmente há uma maior abertura para este tema?

A sexualidade é sem dúvida um espectro de 'normalidade', entre branco, cinzentos e preto. Este tópico envolve áreas como a identidade sexual (estarei confortável com o que sou?), orientação sexual (de quem gosto ou me sinto atraído?), as relações afetivas (o que esperam de mim? O que espero do outro? o medo, a rejeição, a violência no namoro), a atividade sexual (estarei preparado(a)? E o depois…?).

A problemática da identidade sexual sempre existiu, contudo pelo maior destaque de discussão pública, mais facilmente surgem em consulta do adolescente estas questões. Há que distinguir, contudo uma perturbação de identidade sexual (secundária a doenças genéticas, endocrinológicas ou doenças psiquiátricas) de uma 'descoberta de si', um processo de autoaceitação e concretização do que 'realmente sente que é'. Na adolescência, em que as mudanças físicas, psicológicas e emocionais são tão intensas, podem existir momentos transitórios de dúvidas identitárias que podem não se manter com o final da adolescência.

Não se pretende a exclusão da família, mas o ajuste de regras, papéis e 'espaços', assim o médico atua como um 'facilitador' e gestor da saúde global do adolescenteConsidera que os serviços de saúde estão preparados para atender adolescentes?

A medicina do adolescente está cada vez mais divulgada desde o alargamento da idade pediátrica até aos 17 anos e 364 dias, contudo ainda existem poucos pediatras com formação especifica nesta área. Os espaços físicos devem estar adaptados, critérios definidos pela OMS: 'serviços amigáveis aos adolescentes', bem como a equipa alargada deve ter formação para o atendimento a este grupo etário (garantir confidencialidade, não emitir juízos, aproveitar 'intervenções oportunistas', trabalhar em equipa, fomentar a acessibilidade e ter preparação técnica). 

Como este atendimento deve ser feito?

O foco da intervenção é a saúde global do adolescente nos seus aspetos somático, psicológico e de relação. Na consulta do adolescente existe um tempo a sós com o adolescente devidamente enquadrado e autorizado pelos pais e pelo próprio adolescente (assegurando a confidencialidade). Nesse tempo está facilitada a abordagem de diversas dimensões da adolescência, família, escola, pares/amigos, atividades lúdicas, sexualidade, comportamentos, saúde mental. Pretende-se a autonomização e responsabilização do jovem pela sua saúde, a gestão de conflitos geracionais, auxílio na planificação dos seus projetos futuros, sexualidade segura e construção identitária, rastreio e vacinação, avaliação e acompanhamento de doenças médicas (acne, obstipação, perturbação de hiperatividade e défice de atenção, dor abdominal crónica, cefaleias, queixas osteo-articulares...). No final da consulta são discutidas as propostas e orientações com o adolescente e sua família.

Não se pretende a exclusão da família, mas o ajuste de regras, papéis e 'espaços', assim o médico atua como um 'facilitador' e gestor da saúde global do adolescente.

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