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"Seremos alguém no meio da polémica. Temos um pé em cada um dos mundos"

Pedro Pinto, diretor da mytaxi, é um dos entrevistados de hoje do Vozes ao Minuto.

"Seremos alguém no meio da polémica. Temos um pé em cada um dos mundos"
Notícias ao Minuto

08:30 - 22/02/18 por Pedro Filipe Pina 

Economia Pedro Pinto

À imagem do que aconteceu noutros países, a chegada da Uber abriu caminho a outras plataformas eletrónicas de veículos descaracterizados. Mas esta chegada não se fez sem polémica. Protestos ruidosos de taxistas marcaram a agenda mas poderão ter contribuído para o "estigma" um setor que, entre bons e maus exemplos, ainda se está a adaptar a mudanças que as novas tecnologias trouxeram.

No entretanto, decisões judiciais contra a Uber não resolveram o vazio legal em que estas novas plataformas ainda operam. 

Foi no meio deste contexto atribulado no setor do táxi mas cada vez mais tech-friendly de Lisboa que a mytaxi se instalou em Portugal, em 2015.

Em 2018, e numa altura em que a mytaxi se prepara a expansão para o Porto, o Notícias ao Minuto esteve à conversa com Pedro Pinto, diretor-geral das operações da empresa em Portugal.

Nos escritórios da mytaxi, ao cima da Avenida Dom Carlos I, ali já com a Assembleia da República à espreita, conta-nos Pedro Pinto que a mytaxi mantém "um pé em cada um dos mundos”:  é aplicação de transporte, mas só trabalha com táxis licenciados.

É um desafio para o negócio? É. Mas para lá da Assembleia da República, há mais conversas a ter: sobre legislação - é hoje que a proposta de lei do Governo para regulamentar a atividade vai ser apreciada e votada na especialidade, no Parlamento, bem como os projetos e propostas de vários partidos - cidades e o futuro da mobilidade. Mas também sobre um setor que continua a ter de se modernizar, para não se ver irremediavelmente ultrapassado.

Lisboa foi uma das cidades mais recentes onde a mytaxi se instalou. Como está a correr a operação?

É um balanço muito positivo. Começámos gradualmente e fomos ganhando quota de mercado. É apontado como um dos lançamentos com mais sucesso.

Como estão os planos para expandir para outras cidades?

O plano mais imediato em termos de expansão é passarmos para o Porto e para as zonas circundantes do Porto até ao final do primeiro trimestre deste ano.

Quantos táxis já estão ligados à mytaxi?

Em termos de frota temos já mais de 1.200 taxistas inscritos. No último ano em Lisboa quase duplicou a frota. E no início deste ano estamos a ver um rácio de crescimento de cerca de 200%.

Seremos alguém no meio desta polémica. Estamos com um pé em cada um dos mundos, por assim dizerEstamos numa fase do mercado em que há cada vez mais plataformas de mobilidade. O que é que distingue esta app de outras a operar no mercado?

A mytaxi trabalha em exclusivo com viaturas de táxi e com profissionais do setor. Nesse sentido, diferencia-se das plataformas de transporte com viaturas descaracterizadas. Partilhamos o princípio da modernidade e trabalhamos ao mesmo tempo com um setor com uma história muito grande, com fortes raízes ligadas às centrais telefónicas, a que associamos a questão tecnológica das plataformas. Seremos alguém no meio desta polémica. Estamos com um pé em cada um dos mundos, por assim dizer.

A mytaxi em Lisboa conta com mais clientes estrangeiros que já conheciam o serviço ou já são os portugueses os principais clientes?

No início, e isto foi gradual, a perceção que tínhamos é que muitos dos clientes, fosse em viagens de negócio ou em turismo, já conheciam a app noutros países onde estamos presentes. Depois passou para um contexto nacional, tivemos um lançamento bem sucedido e a partir daí houve uma adesão muito grande. No entanto, o que nós sabemos, em contraponto com outros países, é que Portugal tem uma população envelhecida e, a esse nível, tivemos algumas dificuldades. Neste momento já conseguimos diversificar um bocadinho mais aquilo que é a oferta da mytaxi e é mais fácil intermediar estes serviços entre taxistas e a procura que existe. Cremos que vá aumentar exponencialmente quando nos começarmos a dedicar ainda mais à faixa das contas corporate [empresas].

Ainda há um vazio legal em Portugal em torno de plataformas de mobilidade que operam com carros descaracterizados. Mas entre críticos ao setor do táxi fala-se da não inovação.

A mytaxi tem vindo sempre a dizer que é a favor da inovação e da modernização do setor. Tudo aquilo que represente uma melhoria ao nível da mobilidade é bem-vindo, independentemente de ser concorrência, seja ela tradicional ou dentro do mundo das apps. O que achamos é que deve ser equitativa e justa. Este vazio legal tem trazido algumas dores de crescimento e logo num setor que tem uma história longa mas que a dada altura passou a ter um estigma que não era o mais positivo.

Temos vindo a tentar informar as pessoas e mudar esse paradigma que existe dos motoristas de táxi, da indústria do táxi, que no fundo são profissionais como os outros. Alguns deles já foram para essas plataformas e custa-nos um pouco a aceitar que enquanto estão a conduzir um carro preto e verde têm um determinado perfil, mas quando o mesmo individuo passa a conduzir um carro descaracterizado, já é o melhor motorista do mundo.

Não se esqueçam que toda esta discussão tem de ter um contraponto. O setor do táxi está cá, sempre esteve cá, presta um serviço públicoE como é que a mytaxi vê este vazio legal?

Já dissemos, junto do Governo e do grupo de trabalho que está a tratar dessa questão, que a concorrência é bem-vinda. Mas não se esqueçam que toda esta discussão ainda em curso e que se vem arrastando há muito tempo tem de ter um contraponto. O setor do táxi está cá, sempre esteve cá, presta um serviço público e, sendo nós um ‘híbrido’, por assim dizer, achamos que não é justo. Não se pode concorrer lealmente se estas plataformas não forem reguladas ou se não houver uma alteração àquilo que é, por exemplo, a convenção do setor do táxi, pela qual somos obrigados a reger-nos porque trabalhamos em exclusivo com táxis.

Está desajustada?

Completamente. E nós sabemos que, mesmo dentro do próprio setor, há vontade para mudar. Quando falamos na modernização do setor, com certeza que os carros devem ser mudados, que a frota deve ser atualizada, mas a modernização não passa só por aí. Há uma série de restrições que até à data eram apontadas como vantagens para o setor mas que se calhar agora já não se adequam.

Como por exemplo?

Questões como as barreiras geográficas, ou um tarifário mais claro, porque não é fácil para o utilizador perceber como é que funciona. Se calhar para quem está dentro do setor sim mas para quem quer ser transportado de A a B pensa 'Porque é que hei-de ir num táxi, porquê estas tarifas, como é que isto funciona'. Mas há uma intenção do setor em atualizar isto. Vamos ver se o poder político também vai ajudar e o vai proporcionar. 

Estas diferenças do ponto de vista legal trazem dificuldades em competir?

Sim. Por vezes há aqui uma diferença de entre 40 a 50% do preço. E a esse respeito os industriais do setor não o podem fazer porque estão tabelados. Já estas empresas, enquanto empresas privadas, têm as suas próprias tabelas. Mas não foram reguladas por ninguém. Há aqui uma discrepância muito grande.

O que tentamos passar a todos os taxistas com quem trabalhamos 'é que o cliente é o principal bem, e não há viagens longas ou curtas, há viagensAndrew Pennington, ex-CEO da mytaxi, à margem da Web Summit, falou sobre ainda haver alguma resistência à mudança. Mas salientou que “a grande maioria dos taxistas quer adaptar-se e aproximar-se do serviço que o consumidor moderno procura”. Como é que tem sido a vossa experiência em Lisboa neste aspeto? Sentiram dificuldades?

No início, sim. Houve alguma relutância mas que é normal. Em Portugal a mytaxi era desconhecida. O primeiro impacto foi 'quem é que são estes indivíduos'. Mas a partir de uma dada altura perceberam que estávamos a trabalhar em exclusivo com eles e que viríamos eventualmente até a ajudá-los a fazer esta transição para o digital. A vontade é essa, mesmo em termos de comportamento das pessoas. Mas também tentamos pôr-nos no lugar dos nossos motoristas. Às vezes, com sete ou oito horas atrás de um volante, as coisas complicam-se, é difícil. O que tentamos passar a todos os taxistas com quem trabalhamos 'é que o cliente é o principal bem, e não há viagens longas ou curtas, há viagens. É disso que nós vivemos e começa por vós mudar esta perceção que as pessoas têm'. E é gratificante ver como foi mudando e está completamente diferente do que era em 2015.

Quando a mytaxi foi lançada em Portugal um dos objetivos anunciados passava por “melhorar a qualidade do serviço dos táxis”. Como é que se procura garantir essa qualidade?

À partida, todos os parceiros são bem-vindos, no entanto há alguns pontos que pedimos que sejam cumpridos, nomeadamente a idade dos carros, que não deverão ter mais do que 10 anos (e é um limite que provavelmente iremos reduzir embora saibamos que nem sempre é fácil os industriais conseguirem cumprir). Há alguns empresários do setor que têm aquele Mercedes há dezenas de anos, e que é um excelente automóvel, um 190d, por exemplo, mas que neste momento está completamente desajustado e não lhes permite competir. E perceberam isso. Carros antigos, mesmo que muito bem estimados, não poderíamos aceitar.

Da parte do motorista, é o que é do senso comum: uma boa apresentação, que seja educado, que tente prestar o melhor serviço ao cliente e que cumpra os compromissos. A esse respeito acho que há um estigma enorme, mas na realidade, e nós temos motoristas com 20 e poucos anos e outros com 60, e esses são exímios no contacto ao cliente, agradecem a existência da mytaxi e vêm às vezes aqui ao escritório só para nos dizer que estamos a fazer um bom trabalho.

O que é que é prioritário na formação?

Primeiro, explicar o básico de trabalhar com a aplicação. Nas primeiras formações ainda nos diziam muito 'ah não percebo nada de aplicações'. Mas no fundo foi explicar que estas aplicações foram desenhadas para facilitar o trabalho e, ao fim de alguns minutos, chegam à conclusão de que não é assim tão complicado e que vai permitir-lhes terem um tipo de clientes que até à data não tinham.

Insistimos também em questões que são de senso comum mas que nunca é demais recordar, e vamos promovendo cursos de condução defensiva e de línguas, que temos muitos turistas em Portugal. Às vezes o desafio é mostrar o valor acrescentando que estas ações têm face ao rendimento destes motoristas, em que cada minuto que passam fora da estrada não estão a ganhar dinheiro. É dizer: percam essa noção do imediato, pensem um pouco mais à frente, que isto é um investimento e a seguir vão recolher os frutos.

Como é que tem sido esse feedback por parte dos taxistas?

É sempre muito gratificante. Reveem-se nisso e percebem que estamos a ajudar.

Olhando para Lisboa, com a natural pressão que resulta do aumento de turismo, quais é que são as áreas em que é preciso melhorar?

Neste momento temos uma cidade que está quase que sufocada com o tráfego. A estrutura da cidade e as mais variadas opções que aparecem para todos começam a ser já demais. O mercado também não é elástico. Nós achamos que há mercado para todos. Mas se calhar estamos a contrariar o propósito destas aplicações de mobilidade, que em vez de ajudar estão a juntar mais tráfego à cidade. Sei que esse é um dos problemas e sei que as autoridades estão a verificar isso.

Os táxis têm aquilo a que se chama um contingente. Face à regulação que existe, e este é um setor altamente regulado, o contingente faz sentido. Mas há propostas para não haver qualquer tipo de limite relativamente a outras plataformas com viaturas descaracterizadas. Se é assim, então achamos que as regras devem ser iguais para todos. Não digo que deva ser completamente liberalizado, mas tem de ser equitativo e, portanto, os táxis também teriam de ter essa hipótese. Mas lá está: íamos ter cada vez mais carros na cidade, o que contraria o propósito. Esse é um dos desafios de Lisboa face a um turismo crescente. E quem diz Lisboa, diz o Porto. 

Há semelhanças e diferenças entre um táxi e um Uber, por exemplo. O que é que na perspetiva da mytaxi seria legalmente mais justo?

À semelhança do número de limite de licenças que existe no setor dos táxis, deveria haver existir uma vontade de ter um número limite para estas empresas. Isso e fiscalização. Os táxis são altamente fiscalizados por leis bem definidas. Pergunto, porque gostaria de saber, como será a fiscalização com veículos descaracterizados?

Acredita que será mais complicado?

Com um táxi eu olho e identifico logo que é um táxi. Com um carro descaracterizado... bem, penso que já haja mais mecanismos para o fazer, mas se calhar convinha esclarecer como vai ser feito. Recordo a polémica das multas [da Uber] que estão por serem cobradas. Eu, enquanto contribuinte, se incorrer nalguma falta, tenho uma coima, tenho de a pagar, se não a pagar vou ter juros de mora, e se continuar a atrasar o pagamento, eventualmente vão-me penhorar qualquer coisa. Acho que não pode haver impunidade para este tipo de coisas. Somos cidadãos. Todos temos direitos e deveres. Estas empresas também têm.

Notícias ao Minuto"Acho que não passa para a opinião pública aquilo que são as dificuldades do setor", diz-nos Pedro Pinto© Blas Manuel / Notícias Ao Minuto

Falando do contingente. Há um limite para o número de táxis em função dos municípios. Os clientes têm noção desta questão?

É uma característica que dificulta o serviço e o próprio setor tem-se apercebido disso, como notamos com representantes do setor com quem temos vindo a estreitar relações, embora sejamos concorrentes. Tentamos passar a mensagem, e vamos continuar a fazê-lo, de que a nossa intenção não é acabar com o setor tradicional, é complementá-lo. Os clientes do setor tradicional vão continuar a sê-lo, enquanto os clientes de um setor mais disruptivo, mais inovador, também não vão beliscar o negócio das centrais. Portanto deveríamos unir esforços para que as coisas fiquem mais fáceis para todos. Esta questão do contingente se calhar outrora era assunto tabu e neste momento já se começa a falar. Há inclusive uma proposta que já refere a possibilidade de combinar entre concelhos. Isto vai beneficiar os clientes e vai beneficiar os profissionais.

Estamos a falar de um setor que tem tido uma má imagem pública. Queria perguntar-lhe se o público em geral tem noção destas reivindicações. Mas também se não houve episódios durante protestos de taxistas que acabaram por ser contraproducentes.

Acho que não passa para a opinião pública aquilo que são as dificuldades do setor, e aquela imagem pré-concebida do motorista de táxi ainda está muito enraizada, embora já tenha estado mais.

Isto cada vez vai mudando mais, mas por vezes a uma velocidade relativamente baixa dentro daquilo que queríamos. O setor também tem vindo a amadurecer e têm-se vindo a perceber algumas mudanças. Embora não sejam percecionadas a 100% pela opinião pública, penso que, internamente, as associações mais históricas deste setor reconheceram que sim, que manifestar-nos é um direito que nos assiste e que se não o fizermos também ninguém nos vai ouvir, mas por outro lado começamos a ver e a aprender com o que o passado nos diz.

Dizemos aos motoristas: manifestem-se. Mas tenham em consideração que para a concorrência da qual se queixam, que é desleal e está a operar num vazio legal, estes são os melhores dias  Os protestos de taxistas também foram realidade noutros países.

A mytaxi também aprendeu com a experiência que teve noutros países. E dizemos aos motoristas: manifestem-se. Mas tenham em consideração que para a concorrência da qual se queixam, que é desleal e está a operar num vazio legal, estes são os melhores dias para eles. Há outras formas de combater, há outras formas de fazer ouvir a nossa voz. E é interessante ver que entre a primeira manifestação que presenciei aqui neste escritório, em que havia carros na avenida até lá abaixo, tem havido uma mudança completa. É que mesmo em termos de marketing esses são os dias em que estas marcas são publicitadas ao rubro, a custo zero. E por quem? Pela concorrência, que é o setor do táxi. Estamos a falar do mesmo mercado, são é modelos de negócio diferentes.

Houve decisões judiciais sobre plataformas como a Uber. Mas, e até estamos aqui pertinho da Assembleia, como vê a resposta política a este questão?

Tivemos oportunidade de falar com vários grupos parlamentares e inclusive ser convidados para uma audiência no grupo de trabalho. Achamos que, de alguma forma, tem de se encontrar um ponto de consenso entre os diferentes grupos políticos. E não está fácil. Ainda não sabemos como vai acontecer. Dizem-nos que até ao final do mês de fevereiro alguma coisa vai acontecer, mas eu, pessoalmente, ainda tenho algumas dúvidas. Há aqui muita incerteza.

O que foi mais difícil do ponto de vista da perceção política? O ser um setor com muitos anos, e que corre o risco de ter estancado em certas questões, ou esta evolução acelerada das novas tecnologias que traz dúvidas novas para a legislação?

Penso que seja um pouco das duas, mas sobretudo o ter de legislar sobre uma matéria que é muito nova, muito disruptiva. Se em Portugal num futuro próximo estas plataformas estiverem devidamente regulamentadas, seja de forma mais ou menos liberal, seremos o primeiro país da Europa a fazê-lo, à semelhança de tantas outras leis que foram feitas cá. Portugal é um país pequeno mas também serve como boa amostra. O desafio político será tentar fazer isto de forma mais equilibrada e equitativa. Mas se elegemos o poder político, é para que esta exerça as suas obrigações.

Se me perguntar se está a demorar muito tempo… está a demorar uma eternidade. Que seja tomada uma decisão e que depois que sejam feitos os ajustes. Mas se vamos a correr a fazer uma lei, que é o que já tardava, não se esqueçam de quem já cá estava há muitos anos.

O feedback que temos de 'n' motoristas que trabalham connosco é que esta concorrência até é bem-vinda, tem é de ser enquadrada a nível legal Prevê-se ainda mais concorrência.

Se calhar, a perceção sobre o setor é fruto também de demasiado tempo sem concorrência. Mas o feedback que temos de ‘n’ motoristas que trabalham connosco é que esta concorrência até é bem-vinda, tem é de ser devidamente enquadrada a nível legal para que seja clara para todos. O único medo que a mytaxi tem é que seja encontrada uma solução legal para as plataformas de veículos descaracterizados, mas que seja completamente esquecido o setor do táxi. E se assim for, é triste. O setor também faz parte da cidade.

Notícias ao Minuto[Pedro Pinto é o responsável de operações da mytaxi em Portugal]© Blas Manuel / Notícias Ao Minuto

A app permite selecionar motoristas como 'favoritos' enquanto nas redes sociais têm tentado dar a conhecer alguns dos vossos motoristas. É importante este tipo de personalização do serviço?

Numa época em que tudo está a ser digitalizado, em que há imensas teorias da conspiração sobre o que a evolução tecnológica pode trazer de bom e de mau, no nosso ramo é super importante humanizar as coisas. Quando olhamos para um ecrã de um smartphone e selecionamos um táxi, é uma pessoa que vem a caminho. É uma mensagem que passamos também aos nossos motoristas: quando veem um ícone a acenar do outro lado, não é um videogame, é uma pessoa a precisar de ser transportada. Tenha-se a opinião que se tiver sobre o setor, os motoristas de táxi são seres humanos, são profissionais, e, como em todos os lados, há-os de todas as formas. Os que trabalham connosco tentamos ao máximo que façam o melhor serviço possível, mas também os queremos apoiar.

Aquilo que nos foi transmitido desde o início é: 'ninguém quer saber de nós nem se pôs nos nossos sapatos para saber como é que é o nosso dia a dia'. É o que temos feito e é o que vamos continuar a fazer.

Quando a mytaxi surgiu em Portugal, foi ainda como empresa ibérica. Neste momento já é mytaxi Portugal. O que mudou para esta aposta em particular da sede?

Um dos pilares da mytaxi é ser local nos mercados onde está. Agora estamos a falar de Lisboa e da resposta a dar aos lisboetas em função do que conhecemos da cidade. Mas quando formos para o Porto se calhar a abordagem é ligeiramente diferente, porque a pronúncia do Norte é outra e porque as necessidades e zonas limítrofes do Porto são outras. A nível de países isso ainda é mais evidente. A dada altura o que se verificou é que, por uma série de razões, algumas das coisas que se estavam a fazer em Espanha não poderiam ser replicadas da mesma maneira em Portugal. Depois, claro, o sucesso que a operação em Portugal estava a ter também nos dava essa possibilidade de olharem para nós e perceber que era possível tornar independente a operação cá.

Já estamos a efetuar pré-registos e que estamos em contacto com representantes. O tempo para nos lançarmos no Porto está a aproximar-se

O Porto é a próxima aposta. Já têm números sobre a frota pensada para cidade.

Tenho mas ainda não posso divulgar [risos]. Mas posso dizer que já estamos a efetuar pré-registos e que estamos em contacto com representantes no Porto, que o tempo para lançarmos no Porto está a aproximar-se.

A fabricante Daimler, responsável pela Mercedes, é o principal investidor. Em termos de futuro, estamos já a 'piscar o olho' à crescente autonomia dos automóveis?

Acho que sim. Os motoristas e os industriais do setor do táxi estão muito bem informados. Por vezes perguntam-nos: 'então a vossa casa-mãe está a fazer parcerias para carros autónomos?'. E pode-se dizer mesmo: táxis autónomos. Mas há que desmistificar. A Daimler é o nosso investidor maioritário mas dá à mytaxi total liberdade. A mytaxi sabe o que será o futuro e a Daimler melhor ainda. Mas nós trabalhamos em exclusivo com táxis e é preciso enquadrar que aquilo que será o futuro de viaturas autónomas é diferente em termos de linha do tempo para cada cidade.

Como assim?

Isso tem a ver com infraestruturas, com a própria configuração geográfica das cidades. Se estamos a dizer que, por exemplo, em 2030 há carros 100% autónomos prontos para circular nas nossas ruas, penso que isso é completamente desajustado. 

Por exemplo, a esse respeito, o Médio Oriente tem as chamadas ‘smart cities’, que já estão a ser desenhadas de raiz enquanto tal. Já a Europa é um mercado complicado a esse respeito porque tem cidades mais antigas, com infraestruturas muito antigas. Eu diria que se nalgumas cidades poderíamos estar a 10 anos dessa realidade, noutras estaríamos a 20 ou a 30. 

Há uma série de fases do processo até chegarmos a um carro 100% autónomo. Ao longo desse processo, que vai demorar anos, se calhar chega uma fase em que deixamos de ter um condutor dentro do carro mas temos 'condutores de secretária'. Se calhar o que vai mudar é todo um hábito de uma profissão que sai mais do terreno e passa a ter uma componente mais tecnológica.

Automação mas sem necessariamente desaparecerem as pessoas?

Exatamente. E posso garantir que há uma preocupação dentro do grupo para, quando isso eventualmente acontecer, não nos vamos esquecer de quem conduz os carros.

E após o Porto, a mytaxi Portugal já pensou na aposta seguinte?

A lógica será, depois de ir a Norte, ir a Sul, sendo que o Algarve é um mercado muito interessante mas tenho como principio não prometer nada que possa não cumprir. Mas está nos horizontes. Há sempre que fazer uma avaliação para saber se vale a pena entrar ou não em determinada zona. Convém relembrar que os táxis estão em todo o lado. Não posso é dizer que a mytaxi vai aparecer numa aldeola onde há três ou quatro táxis, que isso se calhar não faz sentido, mas se calhar faz sentido em cidades bastante evoluídas, de dimensão considerável, mas que não têm tantos carros como Lisboa e se calhar as viaturas descaracterizadas não vão a esses sítios.

Há táxis nessas cidades e nós sabemos que há vontade para isso. Temos é de ir fazendo as coisas gradualmente.

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