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Bolsa de Lisboa vive ano invulgar, das perdas à recuperação

A bolsa de Lisboa viveu um ano invulgar em 2020 devido à pandemia de covid-19, mas após as fortes quedas registadas principalmente em março o seu desempenho foi melhorando, sobretudo a partir de outubro.

Bolsa de Lisboa vive ano invulgar, das perdas à recuperação
Notícias ao Minuto

07:00 - 25/12/20 por Lusa

Economia 2020

A duas semanas do fim de 2020, o índice PSI20 acumula perdas inferiores a 9% desde o início do ano, tendo atingindo um máximo de 5.435,88 pontos em 19 de fevereiro e um mínimo de 3.596,08 pontos um mês depois, no dia 19 de março.

"Assistimos a fortes movimentos de queda durante o pico da primeira vaga da pandemia provocada pelo coronavírus, mas, desde então, temos assistido à recuperação mais rápida alguma vez vista e movimentos interessantes nos mercados", disse à Lusa o analista da XTB Henrique Tomé.

"O PSI20 não foi exceção. O índice, que reúne 17 empresas cotadas na bolsa, durante o pico da pandemia --- entre fevereiro e abril --- chegou a desvalorizar quase 50% e a atingir mínimos de 1995. Mas, ao contrário dos restantes índices globais, o índice português ainda não conseguiu anular as quedas", acrescentou.

Os meses seguintes foram marcados pelas recuperações, e o índice de referência da bolsa de Lisboa chegou "a valorizar mais de 30% entre finais de março e dezembro", o que não foi suficiente "para anular o 'sell-off' inicial no mercado", referiu o mesmo analista.

No dia 09 de março, o PSI20 registou uma queda de 8,66%, na altura a maior desde outubro de 2008, em linha com os mercados internacionais, quando começaram a surgir sinais de pânico devido à propagação da covid-19 e o preço do petróleo afundava.

Os investidores, que nas últimas semanas já tinham manifestado preocupação com a disseminação do novo coronavírus, mostraram um maior nervosismo associado ao preço do petróleo, que registou a sua pior queda desde a primeira guerra do Golfo em 1991, baixando mais de 30% na Ásia.

A descida das bolsas na Ásia propagou-se à Austrália e depois às praças do Golfo, antes de atingir os mercados europeus e de contaminar Wall Street.

Na bolsa Nova Iorque houve uma interrupção de 15 minutos nas operações, logo no início da sessão, devido a uma queda de 7% no índice alargado S&P 500, que representa as 500 maiores empresas de Wall Street.

Três dias depois, em 12 de março, o PSI20 voltou a fechar com uma queda ainda mais aparatosa de 9,76%, acompanhando as principais bolsas europeias, que terminaram com descidas acima de 10%.

A bolsa de Paris desceu 12,28%, a queda mais forte da sua história, Frankfurt afundou 12,24%, na pior sessão desde 1989, e Madrid também registou uma descida de 14,06%. Milão fechou a perder 16,92% e Londres caiu 10,87%.

Para Paula de Carvalho, economista chefe do BPI, "tal como outros mercados europeus, o índice de ações nacional não conseguiu recuperar das perdas sofridas em março, com o embate da primeira vaga da covid-19".

Segundo a mesma economista, houve, no entanto, "uma tendência marcadamente positiva desde outubro, que é de assinalar".

"O amplo apoio das políticas económicas, monetária e fiscal e a perspetiva de que a vacina ou um tratamento permitam aliviar as restrições à mobilidade ao longo do próximo ano justificam o otimismo", considerou.

Paulo Rosa, economista sénior do Banco Carregosa, tem a mesma opinião.

"A primeira vaga da pandemia, na primavera, foi mais penalizadora devido ao confinamento global", apontou.

"Apesar do crescente aumento do número de infeções por covid-19 em novembro, o progresso nas vacinas trouxe um impulso à praça de Lisboa nas últimas semanas. A tendência do mercado é favorável no curto/médio prazo, e o último mês do ano, habitualmente, é de alguma consolidação dos ganhos, mas a liquidez deverá permanecer baixa na época natalícia", referiu o economista.

Entre 19 de março passado e 17 de dezembro, o PSI20 acumulou um ganho de 34,19%.

"É no setor da energia que observamos talvez as maiores alterações do ano no PSI20. A EDP Renováveis passou a ser o título com mais peso, atualmente quase 16%, depois de duplicar de valor durante o ano, e a Galp, que perdeu cerca de um terço do valor, pesa agora apenas 10%", referiu Paulo Rosa, depois de salientar que a pandemia "diminuiu consideravelmente a procura de petróleo e, consequentemente, penalizou a cotação desta matéria-prima essencial à economia global".

Quanto às perspetivas para 2021, os analistas consultados pela Lusa associam de novo o desempenho das bolsas à evolução da pandemia.

"O avanço da pandemia e a necessidade de prolongar medidas de restrição à mobilidade deverão ainda marcar grande parte do próximo ano, sobretudo a primeira metade, com impactos imprevisíveis na atividade e no sentimento dos investidores. Todavia, a perspetiva de avanço progressivo dos planos de vacinação, a continuidade de políticas económicas de amplo suporte --- quer em termos fiscais quer a nível da política monetária --- conjugados com uma ampla liquidez deverão suportar as bolsas em 2021", segundo Paula Carvalho.

Para Paulo Rosa, a vacinação da população, as baixas taxas de juro e os estímulos monetários e orçamentais poderão suportar ganhos das bolsas em 2021, depois de um ano atípico de 2020.

"O ano de 2021 deverá ser pautado por atitude de 'risk-on' por parte dos investidores, assumindo maior risco e mais apetite por ativos de maior risco", considerou o economista do Banco Carregosa.

As ações mais penalizadas pelo distanciamento social e as empresas cíclicas podem registar recuperação em 2021, apontou, acrescentando, no entanto, que "os grandes riscos em 2021 seriam uma hipotética ineficácia da vacina, o aparecimento de inflação acima do indesejável e um fraco crescimento económico com desemprego associado".

As relações entre a União Europeia e o Reino Unido a partir de janeiro, após o 'Brexit', e as políticas da próxima administração norte-americana, liderada por Joe Biden, são outros fatores que podem influenciar a trajetória dos mercados no próximo ano.

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