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"Miúdos querem fama e autocolantes na prancha. Surf vai muito além disso"

A principal competição de surf em Portugal arranca já amanhã. A Liga Meo Surf 2021 promete e o Desporto ao Minuto falou com um dos candidatos ao título, Filipe Jervis.

"Miúdos querem fama e autocolantes na prancha. Surf vai muito além disso"

A edição de 2021 da Liga MEO Surf, principal competição de surf em Portugal, começa já amanhã, dia 9, com o Allianz Ericeira Pro. Frederico Morais, ou Kikas como também é conhecido, é o campeão em título, mas a competição este ano será mais feroz do que nunca. 

Filipe Jervis, atual número cinco do ranking nacional, quer fazer melhor do que em 2020, ano que considerou ser um dos melhores da carreira. 

Aos 30 anos, o surfista de Cascais chega mesmo a sonhar com o título de campeão nacional, mas, em entrevista exclusiva ao Desporto ao Minuto, sublinha que o mais importante é sentir-se bem com ele mesmo, confiar no seu surf e... aproveitar. Até porque, nas palavras do próprio, só com paixão se poder fazer surf.

O 'bichinho' do desporto está mais forte que nunca, e nem as mais duras adversidades ao longo da carreira travaram Filipe Jervis. O confinamento dificultou a preparação para este ano de competição, mas a vontade de começar não podia ser maior.

Quero mostrar às pessoas que ainda sei surfar e que, como se diz na língua portuguesa, ainda estou aqui para as curvas.A Liga Meo Surf 2021 começa já este fim de semana. Depois de um ano onde o campeonato português esteve debaixo dos holofotes por ser o primeiro pós-confinamento, este ano toda a preparação foi mais fácil?

Na realidade, não foi muito diferente do ano passado porque estivemos confinados durante mês e meio, o que também impediu qualquer surfista de surfar. Acabei por não alterar grande coisa na preparação, mas sinto que demorei um bocadinho mais a entrar no ritmo a nível de surf, de remada e de preparação física, porque estive um mês e tal parado. Gosto muito de desporto, mas gosto muito pouco de ginásio, daquela parte da preparação física, e acabei por arranjar outras alternativas para isso, como o futebol e o padel, que também não tem sido possível jogar. Foquei-me mais no surf e passei mais tempo na Ericeira para estar preparado para este campeonato.

Sentes que, por não gostares tanto dessa preparação e por te veres limitado, estás um passo atrás em comparação à concorrência?

Com o passar dos anos, apercebi-me de que, para estar na melhor forma física para surfar, é mesmo surfar, passar horas na água. As pernas, que no meu caso não as tenho muito desenvolvidas a nível muscular, sinto que não estão no ponto máximo de força, de estabilidade e equilíbrio. Não tive o padel e o futebol, que utilizo muito para isso, e de facto sinto essa diferença. Fiz algum ioga durante o confinamento, mas foi mais numa de alongar. Agora, não sinto que esteja em desvantagem porque o mais importante é a confiança no próprio surf. Quando há confiança, as coisas surgem de forma natural.

O ano passado estiveste perto de vencer o campeonato nacional e chegaste a uma final na Figueira da Foz. Como é te sentes para este ano? Colocas a fasquia mais alta ou nem pensas nisso?

Estou a tentar não pensar nisso, porque o ano passado foi talvez o meu melhor ano a nível da Liga. A expectativa está um pouco alta e estou a fazer um esforço para baixá-la. Quero fazer surf e não me preocupar com aquilo que fiz o ano passado. É um ano novo, as condições não são diferentes, há muitos surfistas bons e a Liga está com um nível incrível. Acho que, realmente, tenho de me focar em mim e no meu surf.

Notícias ao Minuto

Sei, porque já o disseste publicamente, que já não estás tão focado em termos competitivos como no passado. Sentes que, ao colocar-te menos pressão, os resultados podem aparecer mais facilmente?

Ah, tenho a certeza absoluta disso. Pelo menos, no meu caso. Acho que no ano em que perdi o meu patrocínio principal, esse foi um grande alívio nos ombros, digamos assim, porque deixei de ter de dar retorno. Não tenciono perder muito tempo em estar focado em resultados. Quero estar focado em fazer o meu surf, dar o meu melhor e mostrar às pessoas, ao público no geral, que ainda sei surfar e que, como se diz na língua portuguesa, ainda estou aqui para as curvas.

Tens um projeto de Surf onde ensinas os mais novos. Como é que é passar-lhes o teu conhecimento? Tentas partilhar esse lado mais desportivo e não tanto o da competição?

Sem dúvida… É muito isso. Sinto que a nossa geração cresceu a olhar para o surf de uma maneira diferente da que olham os miúdos de hoje em dia. Agora, os miúdos olham muito para o surf como uma saída profissional, como uma maneira de ser famoso, como uma maneira de ter autocolantes na prancha e o que tento transmitir aos meus miúdos é que vai muito para além disso. Quero mesmo que eles gostem do surf enquanto desporto e por aquilo que ele representa. A ligação com o mar, as surfadas com os melhores amigos… Hoje em dia, as pessoas procuram tanto a saída competitiva que se esquecem da base do surf, que é a ligação com a natureza e todas aquelas coisas boas que pode trazer à nossa vida. Obviamente que não descarto se eles quiserem competir, se eu vir que têm nível para o fazer. É um assunto a pensar, mas sem dúvida que a prioridade é saber o que é surf, porque sinto que os miúdos hoje não têm uma grande cultura de surf. Nem há o mesmo respeito que havia quando comecei a surfar, não há o respeito pelas hierarquias, pelos locais, pelas pessoas que já andam nisto há mais tempo. É isto que tento passar e acho que é o mais importante.

Das piores coisas que existia era viajar para o outro lado da Europa, chegar lá e perder de primeira. Na viagem para casa, todas as perguntas que se possam fazer são feitasE como é lidar com os resultados negativos? No final de contas, neste desporto, acabas sempre por perder muito mais do que ganhar.

Acho que lidei mal até há pouco tempo. As pessoas, talvez, não têm noção, mas a competição tem este lado. Vamos perder sempre mais do que ganhamos, ainda para mais quando estamos num desporto individual. Jogo futebol, não a sério, mas estou numa liga de futebol de 11, e isso ajudou-me a perceber muita coisa em relação ao surf. Uma das coisas é que é muito mais fácil digerir uma derrota se tiveres 20 pessoas atrás de ti, entre treinadores e colegas de equipa, do que sozinho. Sozinho, só nós é conseguimos dar a volta. Temos a família, os amigos, os patrocinadores, mas não é nada fácil. Das piores coisas que existia era viajar para o outro lado da Europa, chegar lá e perder de primeira. Na viagem para casa, todas as perguntas que se possam fazer, do género, se deveríamos estar aqui ou não, são feitas. São horas e horas em aviões e carros a questionar tudo e mais alguma coisa. O surfista acaba por ter de ser uma pessoa com um ‘mindset’ muito forte e uma auto-confiança muito grande. Internacionalmente, não cheguei mais longe por causa disso, tenho plena noção disso. Faltou-me muito a parte mental e a força de saber dar a volta quando as coisas não corriam tão bem.

Chegaste a pensar em parar de competir?

Cheguei, cheguei… Acho que todos os atletas de alta competição questionam se deviam estar a fazer o que estão a fazer. Quanto perdi o meu patrocinador principal, perdi o meu apoio e a parte financeira que me ajudava a manter lá em cima. Se calhar, também desmotivei ali um bocado. Isso foi por volta de 2017, senti-me perdido. Fiquei em vigésimo e tal no ranking nacional, mas o 'bichinho' acaba sempre por lá ficar e acabei por dar a volta a mim mesmo.

Como é que fizeste isso? Ou, pegando nas tuas palavras, como é que te encontraste?

Há muitos anos que tento trabalhar com psicólogos, tive uma coach também, fiz tudo para dar a volta a esse tipo de pensamentos. Sem dúvida que a última psicóloga que tive ajudou-me, sobretudo, a ganhar mais confiança em mim próprio, não só focado no surf, mas enquanto pessoa. Porque isso refletia-se nos meus resultados e na minha presença enquanto surfista. Os psicólogos desportivos têm esse lado que ajuda as pessoas a resolver-se primeiro antes de serem atletas. Os atletas não são máquinas, nem robôs, todos eles têm problemas. Cada vez mais se ouve falar nos problemas mentais, nas ansiedades, que também existem no mundo do desporto. Sempre existiram esses problemas, mas agora estão a ser mais falados. Sem dúvida que a psicóloga que tive nos últimos quatro anos me ajudou e isso viu-se no meu lado de atleta. Talvez por isso o ano passado tenha sido tão importante, porque sinto que foi um ano que me libertou de todas as pressões e da falta de confiança no meu surf. As pessoas não têm de ter medo de procurar ajuda, há problemas na vida de toda a gente.

E com que objetivo partes para este ano? Mesmo sem quereres criar grandes expectativas, certamente tens um grande objetivo…

Lá está… Obviamente que há expectativa. O ano passado estive a lutar pelo título e este ano gostava de lá estar novamente. Gostava de melhorar o meu quinto lugar, quem sabe até campeão nacional, ou ficar mesmo no top3. Sei que é algo que tenho na cabeça e pelo qual vou lutar, apesar de o nível estar muito alto.

Notícias ao Minuto Filipe Jervis durante uma prova da Liga Meo Surf em 2020© ANSurfistas/MatrenoPhoto

Tencionas competir por mais largos anos, acredito eu…

Enquanto sentir que tenho nível para me bater com os mais novos, preparação física, e alguma coisa para dar, acho que vou sempre competir, nem que seja para satisfação própria. Depois, mais tarde, quem sabe se algum dos meus miúdos que queira seguir a competição. Nesse caso, terei de passar para o outro lado e ser treinador para dar-lhes as informações que, talvez, ao longo deste anos não tive. Ou melhor… não ouvi.

E fazer surf até quando? Até as pernas já não terem forças para se levantar na prancha?

O surf é até não dar mais mesmo. Vou querer surfar com os meus filhos… Acho que a ligação ao surf nunca vai acabar. Os meus pais têm quase 60 anos e ainda vão surfar os dois. Na Austrália então, vemos imensas pessoas de 70 e 80 anos a surfar. Lá está, o surf tem de ser pela paixão. Se puder transmiti-la aos meus filhos e netos, melhor ainda.

Leia Também: Frederico Morais pronto para regresso do circuito mundial de surf

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