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"Fomos para um Europeu com dinheiro do nosso bolso e alguns patrocínios"

Sabia que existia uma Seleção Nacional para futebolistas diabéticos? E sabe o tipo de apoios que recebem? Numa entrevista com o jogador Bruno David revelamos a evolução e a forma como o desporto se tem sensibilizado para esta doença.

"Fomos para um Europeu com dinheiro do nosso bolso e alguns patrocínios"

A diabetes é uma doença que afeta milhares de pessoas em Portugal, milhões em todo o mundo. Todavia, a vida não pára após alguém descobrir que padece desta doença.

Em solo nacional, há, inclusivamente, uma Seleção que defende as cores do nosso país além-fronteiras, participando num Campeonato da Europa que reúne nações que apenas englobam futebolistas com diabetes.

Sem apoios federativos ou estatais, com o símbolo de Portugal ao peito, estes atletas partiram para o Europeu da Ucrânia com a ajuda de alguns patrocínios e o dinheiro de uma comitiva de 12 jogadores. O Desporto ao Minuto entrevistou Bruno David, um dos atletas que faz parte de uma geração que desafia os tabus da diabetes no desporto.

Quando é que passaste a fazer parte da Seleção Nacional para jogadores diabéticos?

Esta é a quarta vez que estou a representar a Seleção Nacional em fases finais de Europeus, sendo que me juntei à equipa há cinco anos, ou seja tinha 28 anos quando tudo começou.

Porque é que tomaste a decisão de te juntares a esta equipa?

Desde jovem pratiquei desporto e joguei futebol. Na altura, quando soube que tinha diabetes, aos 28 anos, também descobri que uma Seleção Nacional reunia pessoas com esta doença e participava em fases finais de Europeu. Na altura, entrei em contacto com os dirigentes, mais para conhecer o projeto, como é que era formada e quem fazia parte deste grupo. Tive oportunidade de ir a um treino e ver com os meus próprios olhos a forma como se trabalhava nesta Seleção. Um treino que me apaixonou e tornou-se no primeiro de muitos. Os treinos conduziram-me depois à minha primeira participação num Europeu, que ocorreu na Bósnia.

Ou seja, ocorreu tudo muito depressa. Desde a fase em que descobriste que tinhas diabetes até à tua entrada na Seleção Nacional?

Sim, a minha primeira participação nesta Seleção ocorreu pouco mais de um ano de saber que tinha diabetes…

E também foi uma necessidade entrar para esta equipa, de forma a descobrires um pouco mais sobre esta doença?

Numa fase inicial, foi exatamente essa a minha intenção, porque era uma novidade para mim. Eu praticava desporto com regularidade e queria perceber como é que podia fazer a articulação da prática desportiva, administração de insulina, os hidratos de carbono de que necessitaria para praticar desporto e foi isso que me levou a dar o primeiro passo, para efetivamente perceber realmente como é que as pessoas enfrentavam a doença. Porque, infelizmente, ainda há muito desconhecimento, a nível da população em geral, do que é a diabetes e ainda falta saber bastante dos procedimentos a adotar para quem tem esta doença. Numa fase ainda prematura, a entrada neste projeto contribuiu para que enfrentasse a diabetes com uma facilidade ainda maior.

E como é que tu recebeste a notícia quando te foi diagnosticada a diabetes aos 28 anos?

É sempre um choque. Eu já tinha o historial de diabetes na família, o que me assustava um pouco, no entanto consegui aliar uma prática desportiva a uma boa alimentação. Hoje em dia, é uma coisa que se tornou simples de controlar. Claro que temos de ter alguns cuidados, porém, faço uma vida completamente normal, tal qual como antes de saber que tinha diabetes. A única diferença é que tenho de administrar insulina.

Que funções é que o Bruno desempenha profissionalmente?

Eu sou instrutor de surf, bem como professor de Educação Física.

E qual a importância de ter uma equipa que reúne futebolistas com diabetes?

Com o avançar do tempo, em que se promovem muito este tipo de competições, esta Seleção veio desmistificar muito o que é a diabetes e a importância acaba por ser a sensibilização que nós fazemos para a população em geral do que é a diabetes e que, atualmente, não é o papão que era há 20 anos. Hoje é tudo mais simples, há insulina, há medicação, há um conhecimento muito maior, até da forma como nos alimentamos, até porque há uma informação cada vez mais detalhada em todos os rótulos de produtos que ingerimos. A grande vantagem deste tipo de equipas é provar que a diabetes, quando controlada, não provoca qualquer tipo de limitação, sobretudo para a prática desportiva. Aliás esta acaba por ser a melhor forma de controlar os nossos níveis de glicémia.

E isto prova que, e apesar de já haver casos no futebol profissional, a diabetes nunca será uma limitação para que um jogador atinja um enorme nível de sucesso na modalidade…

Claro que não. Nós temos o exemplo do Nacho, jogador do Real Madrid, que é diabético tipo 1, isto é, insulino-dependente, e é um atleta de alta competição que está a competir com os melhores do mundo. Mais uma vez isto mostra que a diabetes não é uma limitação, mas uma condição de saúde que não é limitativa.

E acreditas que já existiu, ou conheces, algum caso de um desportista que tenha sido marginalizado por ter diabetes?

Eu penso que não, acredito que já tenha havido no passado, mas nos dias de hoje começa a deixar de acontecer e muito por culpa deste tipo de iniciativas. O principal objetivo da realização destes Europeus é provar que um jogador diabético é capaz de competir a alto nível, tal e qual como faz um atleta que não tem a doença.

E Portugal já tem os apoios necessários de sensibilização para esta causa?

É uma pergunta de difícil resposta. Posso dizer que a nossa equipa participa neste Campeonato da Europa com dinheiro dos nossos bolsos e patrocinadores. É isso que permite pagar as nossas viagens, a nossa estadia, a nossa alimentação, seguros e outros afins. Não temos qualquer tipo de apoio federativo e, sim, era importante que a Federação Portuguesa de Futebol conseguisse fazer esta ponte, para conseguirmos chegar a mais pessoas. Não é fácil juntar futebolistas à nossa equipa, nós não temos uma base de dados que nos diga que o indivíduo x, y ou z tem diabetes e podem vir a treinar. Nós só conseguimos chegar lá através das redes sociais ou da comunicação social.

Quantos jogadores é que estão na Ucrânia?

Somos 12 jogadores no total…

E não é frustrante alcançar um êxito com esta seleção e o espaço dado pela comunicação social a esse feito é reduzido ou nulo?

Não é fácil… Hoje em dia, e não falo só de desporto para diabéticos, há modalidades que não têm qualquer tipo de importância para os nossos meios de comunicação. Em contrapartida, recebemos muito apoio das redes sociais. Mesmo aqui na Ucrânia, a embaixada portuguesa conseguiu que portugueses nos viessem apoiar ao pavilhão durante os jogos, o que é fantástico. Claro que esperamos sempre um pouco mais de atenção, principalmente se conseguirmos chegar a Portugal com uma medalha.

Qual é o maior sonho desta seleção?

Sem dúvida, receber o apoio federativo que esta seleção merece, e deve receber, para poder crescer na onda de sensibilização para a diabetes e um reconhecimento muito maior, para uma seleção que está a representar um país la fora, em provas de enorme craveira internacional.

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