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Salomão: Etapa saudita,12 horas com a filha e PlayStation como salvação

Jogador português faz o balanço de cinco meses no Al-Hazm, revela as principais dificuldades da experiência na Arábia Saudita e assinala os objetivos para o futuro.

Salomão: Etapa saudita,12 horas com a filha e PlayStation como salvação

Depois de um ano e meio, 58 jogos, 15 golos, e estatuto de ídolo no Dínamo Bucareste, da Roménia, Diogo Salomão aceitou o convite para abraçar uma aventura radicalmente diferente e rumou à Arábia Saudita para representar o Al-Hazm na segunda metade da época.

Desde o futebol propriamente dito, à vida na região de Ar Rass, passando pela cultura e alimentação distintas, o ex-Sporting foi obrigado a adaptar-se de forma rápida. 

Em cinco meses, o extremo viveu uma das experiências mais enriquecedoras da sua vida e trouxe para o nosso país histórias que certamente um dia mais tarde irá contar à pequena Elena, a filha que, curiosamente, nasceu durante esta passagem pelas arábias. 

As 12 horas junto da bebé que pareceram 12 segundos, o 'até já' que lhe 'partiu' o coração, as tempestades de areia que tornavam a PlayStation uma dádiva dos deuses e a razão pela qual se transformou um verdadeiro 'chef', numa entrevista exclusiva ao Desporto ao Minuto.

Notícias ao MinutoDiogo Salomão concedeu uma entrevista exclusiva ao Desporto ao Minuto no sítio onde nasceu: a Amadora.© Fábio Aguiar

Cerca de cinco meses permitem-lhe fazer que balanço desta experiência na Arábia Saudita?

Foi uma experiência boa, numa realidade completamente diferente daquilo que eu estava habituado, tanto a nível desportivo como pessoal. É bastante complicado viver na Arábia Saudita, estava numa cidade pequena, tive que me adaptar, fazer novas amizades e integrar-me o mais depressa possível.

E em termos desportivos?

A nível profissional as coisas correram bem, conseguimos o objetivo, que era a manutenção. Trata-se de um clube pequeno, que subiu à Primeira Divisão na última época e conseguiu manter-se, o que é importante para a cidade. Estou feliz porque acho que tomei a decisão correta. O treinador era romeno, já me conhecia, apostou em mim e foi positivo.

Qual foi o impacto ao chegar ao país?

No dia em que lá cheguei o que mais me impressionou foi as condições. Havia muito para melhorar... Não era nada do que estava habituado. Pouco tempo depois fizeram obras, mas mesmo assim não tinha nada a ver, eram condições muito fracas. Mas o tempo era pouco, só tinha quatro meses para demonstrar o meu trabalho e tive que me adaptar.

Inclusive na alimentação, calculo...

A alimentação também não foi fácil. A maior parte dos restaurantes trabalha à base de fast food. Por isso, ou ia sempre aos mesmos, onde conseguia comer mais saudável ou então tinha que me desenrascar em casa e cozinhar.

Notícias ao MinutoExtremo marcou dois golos em 13 jogos com a camisola dos sauditas do Al-Hazm.© Instagram

A própria vida era monótona ou conseguia ocupar-se?

Horrível... (risos) Basicamente passava os dias no quarto, à espera do novo treino. Havia muitas tempestades de areia, nem podíamos sair de casa. Era complicado... Numa cidade tão pequena não havia muita coisa para fazer. Por isso, treinava, ia jantar e depois ficava a jogar PlayStation ou a conviver com os meus companheiros. 

Pouco tempo depois de ter chegado, foi pai. Isso tornou tudo ainda mais difícil?

Eu lembro-me que tínhamos tido jogo dia 22 de fevereiro, eu vim logo para Portugal no dia 23, o parto estava marcado para 24, mas a bebé acabou por nascer só a 25. Por isso, foi visita de 'médico', pois dia 26 tive que arrancar logo. Nem 12 horas estive com ela. Foi muito difícil. Eles, no clube, permitiram que eu estivesse cá mais um dia, mas depois quiseram que eu voltasse logo para treinar para o jogo seguinte. O que me custou mais foi que fui, treinei e mesmo assim não joguei.

Mais valia ter ficado...

(risos) Mesmo! Se soubesse... Mas sim, foi muito complicado. Já tinha imensas saudades, sentia falta de toda a minha família, tinha estado pouco tempo com a minha mulher e a minha filha e passava horas e horas a ver vídeos vezes sem conta. 

O futebol propriamente dito surpreendeu-o?

Por acaso, sim. Não esperava que fossem tão intensos. São rápidos, lutam muito pela posse de bola, são fortes fisicamente, mas depois têm muito para evoluir a nível tático. Tecnicamente até há jogadores de bom nível, mas depois não têm noção do que é gerir ritmos de jogo, de quando devem segurar a bola, dos momentos certos para atacar e defender... Os jogos são sempre 'partidos'. Enfim, por isso é que há muitos golos aos 90' minutos, pois as equipas quebram fisicamente.

Notícias ao MinutoJogador português teve de se adaptar rapidamente a uma nova realidade na Arábia Saudita.© Instagram

É nesse capítulo que os europeus, nomeadamente os portugueses, podem ajudar...

Sim, tanto os treinadores como os jogadores portugueses estão cada vez mais valorizados e na Arábia são muito procurados. A preparação dos treinadores é muito boa em relação ao que é a realidade da Arábia e a verdade é que os feitos de Pedro Emanuel, Rui Vitória e até Jorge Jesus tiveram recentemente, bem como o Paulo Alves, que também lá esteve, contribuíram para esse bom nome dos portugueses.

Há, por isso, espaço para evoluir? Eles mostram-se disponíveis para ouvir conselhos?

Eu acho que o futebol saudita tem muito para crescer. Eles ouvem e acedem ao que é pedido, pois percebem que é o melhor. Existe um forte poder financeiro, podem levar jogadores europeus para dar outro nível ao campeonato e a introdução de treinadores estrangeiros leva também a que haja novas ideias. Por isso, têm tudo para evoluir.

Admite um eventual regresso?

Eu estou aberto a propostas. Sou um jogador livre, acabei o meu contrato lá e não coloco nada de parte. Se tivesse que voltar não diria que não, mas é algo que terá que ser pensado, pois a minha família está em primeiro lugar. Se tivesse que ir sozinho, não aceitaria. Mas se a minha mulher e a minha filha pudessem ir, agora que ela é tão pequena, talvez um aninho não me custasse tanto.

Acredito que tenha também encontrado uma realidade completamente diferente no que diz respeito à forma como as pessoas olham para o fenómeno futebol...

Sim, sem dúvida. A nível de arbitragem, por exemplo, não vi grande polémica nem contestação de jogadores, treinadores ou dirigentes, pois o trabalho do árbitro é bem mais respeitado. Não há tanto aquele espírito de conspiração que nós temos em Portugal e isso permite que haja maior confiança e liberdade dos vários agentes desportivos. Além disso, o futebol é vivido como uma grande festa, os estádios têm sempre ambientes muito bons e os adeptos vão mesmo para desfrutar e ver um bom jogo de futebol. Essa é a maior preocupação deles. Depois, se a equipa ganha ou perde, é normal, faz parte. Lá não há guerras extra-futebol.

Notícias ao MinutoSaudades da família foram o principal obstáculo do jogador, num período em que tinha acabado de ser pai pela primeira vez.© twitter

Acha que aqui acontece devido à nossa mentalidade?

Não sei, o português é um bocado desconfiado. Há anos que andamos com estas polémicas, entre 'Apitos Dourados', 'Emails', 'VAR's', etc... Penso que é um efeito bola de neve e quanto mais importância damos a isso, mais as coisas irão acontecer. Esse é também um exemplo que damos aos mais novos. Se nós vivemos o futebol desta forma, daqui a uns anos eles vão fazê-lo também. 

Há forma de combater isso?

As mentalidades podem ir mudando, mas têm que existir medidas da Federação, da Liga e dos organismos que gerem o futebol português. Está a fazer-se um bom trabalho na formação, há treinadores que têm um papel ativo nesse aspeto, nomeadamente no respeito pelos árbitros e pelos adversários, e esse é o caminho. 

Olhando para o que foi este campeonato. Considera que o Benfica foi um justo campeão?

Eu acompanhei alguns jogos, tive a oportunidade de ver o último, frente ao Santa Clara, e penso que foi a equipa mais regular. Merece o título e para o ano logo veremos.

Como analisa a época do 'seu' Sporting? Penso que posso dizer 'seu'...

(risos) Sim, sim... É um bocado meu, fez parte do meu passado e faz parte da minha história no futebol. É um momento complicado que o Sporting atravessa no que diz respeito à conquista de campeonatos. Conquistou duas taças esta época, o que é sempre bom para qualquer clube, mas penso que o que todos os sportinguistas querem é o título que já foge há alguns anos. Vamos ver se será para breve. Sinceramente, gostava que o Sporting voltasse a ser campeão. Os adeptos merecem. 

Notícias ao MinutoSalomão realizou uma bela temporada com a camisola do Sporting, em 2010/11, depois de ter chegado proveniente do Real Massamá.© Reuters

Pode dizer-se que o clube sofre já de uma espécie de 'doença' crónica, em que a distância para Benfica e FC Porto exige que o caminho se faça com paciência e, acima de tudo, tempo?

Sim, penso até que a questão psicológica já interfere demasiado. Essa falta de títulos durante tanto tempo deixa esse desalento marcado. A própria confiança com que os jogadores, adeptos e mesmo toda a gente partem para cada época já não é a mesma, sabem que é preciso o triplo do esforço para poderem competir com os rivais, pois o Benfica e o FC Porto estão uns níveis acima.

Aproveitando o facto de estarmos a falar do Sporting, ainda sente algum tipo de mágoa por não ter tido outro tipo de oportunidades depois de uma época de estreia que até superou as expetativas?

Na minha opinião, penso que também merecia ter tido mais oportunidades, mas já lá vão alguns anos. Penso que fiz um bom trabalho no tempo em que lá estive, acabei por sair depois de uma época bastante produtiva, tinha vindo do Real Massamá, consegui realizar 17 jogos a titular, marquei quatro golos... Joguei mais do que pensava quando fui para lá e, se calhar, joguei menos do que achava que merecia no final da temporada. Ou seja, fiquei com um sabor amargo, por sentir que poderia ter feito mais pelo clube. 

Seguiu-se o Deportivo da Corunha, clube que, acredito, tenha um lugar especial no seu coração...

O Deportivo foi o clube que mais me marcou, pois também foi onde joguei mais tempo - quatro anos. Vivi muita coisa boa lá. Foi uma permanência, duas subidas de divisão e sem dúvida que daqui a muitos anos, quando recordar a minha carreira, a primeira lembrança será o Deportivo.

Aquele golo em pleno Camp Nou, frente ao Barcelona, já nos descontos, acabou por valer o empate (2-2) e, mais importante que tudo, a permanência no principal escalão do futebol espanhol... na última jornada. O coração ainda bate depressa ao recordar esse momento?

Esse é o ponto alto da minha carreira, sem dúvida! Foi especial por marcar ao Barcelona, por estar aquele ambiente no estádio, pois era o jogo de despedida do Xavi e a festa do título, já que eles tinham-se sagrado campeões na jornada anterior frente ao Atl. Madrid. Ali era a última jornada e nós tínhamos que empatar para não descer de divisão. Depois de um jogo em que estivemos a perder por 2-0, com dois golos do Messi - 'fraquinho' (risos) -, as expetativas eram mínimas. Por isso, marcar daquela forma e naquele momento foi único. Nunca vou esquecer!

Notícias ao MinutoJogador português tem um lugar reservado na história do Deportivo da Corunha, depois de ter marcado o golo que valeu a permanência do clube no principal escalão, em pleno Camp Nou, frente ao Barcelona.© twitter

Aos 30 anos, o que lhe falta?

Sinceramente, nem sei. Recentemente tive a oportunidade de jogar a Liga Europa, que é sempre uma grande experiência para qualquer jogador, e gostaria de jogar a Liga dos Campeões. Sei que é complicado, mas talvez noutro clube, fora de Portugal. 

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