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"Fazemos com os Linda Martini aquilo que sonhávamos quando éramos putos"

Hélio Morais (bateria e voz), Cláudia Guerreiro (baixo e voz), André Henriques (guitarra e voz) e Pedro Geraldes (guitarra e voz) são os Linda Martini. Esta sexta-feira, lançam o seu álbum homónimo, o quinto de originais, motivo perfeito para uma conversa com o Notícias ao Minuto.

"Fazemos com os Linda Martini aquilo que sonhávamos quando éramos putos"
Notícias ao Minuto

08:30 - 16/02/18 por Pedro Bastos Reis 

Cultura Linda Martini

Os miúdos que começaram, na adolescência, a tocar Punk/Hardcore já têm 15 anos de banda. E, a partir desta sexta-feira, cinco álbuns de originais, mais um marco naquele que é, hoje, um dos grandes nomes do Rock português. Neste álbum homónimo, os Linda Martini desvendaram também quem é, afinal, a Linda Martini que deu nome à banda.

Mas este é apenas um dos pequenos detalhes que vamos encontrar neste novo disco. Composto em duas residências, em Amares (Braga) e na Arrábida (Setúbal), o novo ‘Linda Martini’ foi gravado na Catalunha, curiosamente durante dois meses de enorme tensão política na região, com a declaração unilateral da independência e com milhares de pessoas nas ruas. Se isto os influenciou? Musicalmente, "não diretamente", admitem. Mas talvez os gritos bem Punk de André Henriques em ‘Gravidade’ reflitam um pouco a turbulência do momento.

Para produzir o disco, o quarteto escolheu o produtor Santi Garcia, com quem já tinham trabalhado, à distância, no mítico ‘Olhos de Mongol’ e no EP ‘Marsupial’. Nome ligado ao Punk/Hardcore, mas não só, Santi Garcia captou a essência da banda ao vivo e colocou-a em disco, naquele que será, porventura, o disco mais Rock e cru dos Linda Martini até à data. No entanto, as nove canções que o compõem vão mais longe do que isso, funcionam muitas vezes como que um resumo daquilo que é a carreira da banda, capaz ir beber a momentos de ‘Sirumba’, ‘Turbo Lento’ ou ‘Casa Ocupada’, não deixando também de explorar novas sonoridades, como nos temas ‘Se Me Agigante’ ou ‘É Só Uma Canção’.

Em entrevista ao Notícias ao Minuto, os Linda Martini falam sobre o processo criativo, o sentimento de urgência em fazer um novo disco, em ter novas músicas para tocar ao vivo. Porque, dizem, correr o país e encher salas, seja o Coliseu dos Recreios ou um pequeno auditório, é o que os move. É, também, a forma que têm de viver o sonho que tinham quando eram miúdos. Hoje, adultos, “fazer música” é o seu “trabalho sério”, motivo de satisfação que, acrescido da cumplicidade e amizade que os define, tem levado a que estes 15 anos tenham sido de um crescimento natural, sem objetivos ou guiões a seguir.

Parece que foi ontem que estavam no Coliseu dos Recreios a apresentar o ‘Sirumba’ (2016). Menos de dois anos depois do lançamento deste disco, aí está o novo álbum, ‘Linda Martini’. É fácil encontrar disposição e criatividade para voltar a estúdio, passado tão pouco tempo, e gravar um novo disco?

Cláudia Guerreiro (CG) – Não. Na verdade, mais do que criatividade é trabalho. Quando estás só à espera da musa inspiradora, é pouco provável que em dois anos consigas ter um disco. Não digo que não haja gente que tenha sempre essa criatividade à flor da pele e que esteja sempre com coisas cá fora. Mas acho que essencialmente é o trabalho e nós quisemos mesmo fazer um disco e como tal metemos mãos à obra. Inovámos no nosso método e isso permitiu-nos ter algo mais cedo.

Foi quase como que um sentimento de urgência?

Pedro Geraldes (PG) – Foi a partir do ‘Sirumba’ que começámos a ter uma maior exclusividade para a banda. O natural seria que tivéssemos maior disponibilidade, mas acabámos por sentir que não estava a acontecer como nós queríamos, daí esse método novo de querer ir para fora e estar, em exclusividade, a trabalhar de uma forma mais prolongada na composição. É natural que uma banda que esteja bem de saúde queira fazer música nova, que queira fazer mais.

CG – Se pensares bem, lanças o disco e ficas não sei quanto tempo a tocar as mesmas músicas. Agora já nem é tanto como antigamente, vamos tendo mais discos e temos de intercalar os concertos com outras músicas, mas é natural que passados dois anos queiras tocar coisas novas.

Achámos que era fixe gravar com alguém que tivesse imparcialidade para poder interpretar o disco completamente do zeroCompuseram em Amares e na Arrábida e depois foram para a Catalunha gravar. Com um estúdio como o Haus à vossa disposição, por que motivo o fizeram?

Hélio Morais (HM) – Não temos o Haus à nossa disposição. É o estúdio onde ensaiamos mas é também um estúdio comercial. Quando cá gravamos, pagamos como os outros. Gravámos o disco anterior com os amigos de sempre, com o Makoto e com o Fábio [Jevelim], e isso tem coisas boas e coisas más. Eles conviviam connosco diariamente, conheciam as músicas e conhecem bem a nossa linguagem. Não temos muita corda para esticar, nem nós com eles nem eles connosco, porque somos demasiado próximos. Por isso, às vezes sentes a necessidade de ter alguém totalmente imparcial em relação àquilo que estás a fazer para te sentires validado. Neste disco, como já tínhamos gravado o anterior com pessoas muito íntimas, achámos que era fixe gravar com alguém que tivesse essa imparcialidade para poder interpretar o disco completamente do zero, quase como se não conhecesse o nosso passado musical e estivesse a tomar contacto com a banda nesse momento. Quando estás demasiado fechado na tua bolha é fácil recorreres sempre às mesmas ferramentas e caíres nos mesmos vícios. Daí a escolha do Santi Garcia como produtor.

O Santi Garcia é um produtor mais ligado à cena Punk/Hardcore. Foi uma escolha natural?

André Henriques (AH) – Foi, por causa do disco que começávamos a perceber que tínhamos em mãos. Como em todos os discos que fizemos no passado, não houve uma carta de intenções quando começámos a compor. Não sabemos que direção o disco vai tomar até estar muito avançado. Neste, quando começámos a ouvir as coisas que estávamos a fazer nas residências, a escolher as partes que nos interessavam para desenvolver, percebemos que havia coisas mais abrasivas, mais urgentes do que no ‘Sirumba’. Nesse sentido, começámos a pensar em nomes que nos pudessem ajudar a traduzir esta ideia de som que tínhamos para o disco. Já tínhamos trabalhado com ele [Santi Garcia] no ‘Olhos de Mongol’ (2006) e no ‘Marsupial’ (EP, 2008), à distância, mas não tínhamos uma proximidade tão pessoal como o Hélio falou. A escolha foi quase consensual porque era alguém que falava a mesma linguagem do que nós - como disseste, vinha desse passado Hardcore ligado à cena de Barcelona e da Catalunha -, mas também porque ele tem feito muita coisa, desde artistas mais Pop a outros mais tradicionais da região. Depois de ouvirmos aquilo percebemos que ele era a pessoa certa.

Desde que trabalharam com o Santi Garcia no ‘Olhos de Mongol’ lançaram três discos. Ele acompanhou o processo ?

PG – Apesar da proximidade, há uma distância física. Se calhar, por curiosidade, ele deve ter visto o nosso percurso, mas não sei se ouviu os nossos álbuns. Embora já conhecesse a nossa música, queríamos que abordasse estas novas canções de outra forma, e que fosse quase como que um quinto elemento connosco, que ajudasse a tomar algumas decisões. Estamos sempre abertos, não há certezas absolutas, e quando nos confrontam com alguma sugestão temos essa pessoa em boa conta, como foi o caso, gostamos de fazer esse tipo de exercício em conjunto. Antes de ter gravado, o Santi veio cá, ouviu as músicas gravadas de uma forma básica e pouco definitiva, e depois, três semanas antes de gravarmos, ouviu também as músicas na sala de ensaio. Tínhamos interesse em perceber a forma como ele iria abordar as músicas, como é que as sentia. Agora se ele fez um acompanhamento de ouvir todos os discos… não sei, não lhe perguntei.

AH – Nem sequer foi assunto entre nós. Fizemos a coprodução com ele e nem sequer houve aquela ideia de nos sentarmos e dizer “ok, que tipo de disco é que queremos?”. Foi uma coisa muito natural. Ele ouviu o ensaio, percebeu como é que as músicas estavam a surgir, e a intenção dele foi captar a energia da banda ao vivo.

CG – Talvez a a única coisa de que falámos foi a ideia de ele vir ouvir as músicas para perceber como é que elas são ao vivo. As pré-produções que mandávamos estavam muito longe, são captações muito limpas e desinteressantes daquilo que nós fazemos com a música ao vivo.

HM – Quando chegámos [à Catalunha], ele já sabia onde queria gravar o ‘É Só Uma Canção’ - gravámos numa sala diferente da maior parte das outras músicas -, já sabia que tarola queria usar em determinada canção. Houve esse exercício, porque ele, na sala de ensaios, percebeu melhor a que cada música soava realmente e depois foi à procura dessa característica na gravação. Mais do que na mistura, começas a definir o disco na captação...

PG - … e já próximo daquilo que queres no final. Acho que muito do método dele passa por aí, conseguir captar os instrumentos já com o som que ele idealizava no final e em conjugação com os restantes elementos. Isso ajudou-nos a que não tivéssemos grandes surpresas no final.

O novo disco não é o ‘Casa Ocupada’ nem o ‘Sirumba’, é uma outra coisa com a bagagem que fomos juntando em todos os discosMusicalmente, o novo álbum está mais próximo do ‘Casa Ocupada’ (2010) do que do ‘Sirumba’. Sentem que é o vosso disco mais cru e direto, uma espécie de regresso às origens?

AH – Na minha opinião pessoal, e acho que eles também concordam, quando se fala do ‘Casa Ocupada’ é mais para voltarmos a esta ideia de urgência, de voltar a ligar a distorção, coisa que não acontecia no ‘Sirumba’. Se fizeres o contraponto, fica logo claro que é uma mudança de direção.

PG – E também na própria produção. Fizemos essa abordagem Rock, mais crua, e isso foi premeditado. Aí, aproxima-se do ‘Casa Ocupada’.

AH – Em relação ao disco como um todo, acho que ele vai buscar muita coisa diferente. É curioso que apesar de ele, sonicamente, não estar tão próximo do ‘Sirumba’, há muitos elementos técnicos, das soluções melódicas que se encontram, que não conseguiríamos fazer se não tivéssemos feito o ‘Sirumba’. O novo disco não é o ‘Casa Ocupada’ nem o ‘Sirumba’, é uma outra coisa com a bagagem que fomos juntando em todos os discos.

PG – É mais Rock do que o ‘Sirumba’, mas também vai a outros sítios que o ‘Casa Ocupada’ não ia.

A ‘Se Me Agiganto’ é um exemplo disso.

CG – A ‘Se Me Agiganto’ já é bem ‘Sirumba’ para mim…

PG - … o ‘É Só Uma Canção’, até o ‘Quase Se Fez Uma Casa’. Este último tem, se calhar, um início com muito Rock e até Funk, que é um terreno que não tínhamos pisado muito. Se calhar o álbum tem esse tipo de energia, que eu, falo por mim, em relação ao anterior, gostava de ter um disco mais intenso. Acho que não foi propriamente uma volta a dois ou três discos atrás.

HM – Dependendo do ponto de vista que estiveres a abordar e aquilo que o disco transmite, podes encontrar pontos em comum com o ‘Sirumba’, na questão rítmica, com o ‘Casa Ocupada’, pelo facto de algumas canções serem mais diretas, mais Rock, mas se calhar o maior ponto em comum que encontro é com o ‘Turbo Lento’, enquanto objeto inteiro.

Notícias ao MinutoCapa do álbum. Linda Martini é uma amiga italiana de Pedro Geraldes que acabou por dar nome à banda.© DR

Quando anunciaram o lançamento do álbum, disseram que iam revelar quem é, afinal, a Linda Martini que deu nome à banda. Gostava que me contassem mais sobre essa história.

CG – Fizemos a capa e dissemos “agora é mesmo para calar as pessoas com esta pergunta” e nunca mais vamos responder a isto. Na verdade, o que fizemos foi puxar a pergunta outra vez [risos].

HM – O Pedro conheceu a Linda Martini, uma estudante italiana de Erasmus em Portugal, ficaram amigos e herdámos o nome dela porque o Pedro mandou o nome para cima da mesa e nós achámos piada ao som. Depois, eles iam-se cruzando ocasionalmente e em 2014, num casamento, o Pedro acabou por lhe tirar uma fotografia que deu origem a esta pintura a óleo da capa. Resolvemos pedir autorização para utilizar a foto e acabámos por achar que só faria sentido utilizá-la se o disco fosse homónimo.

PG – Quando a fotografia surgiu achámos que tinha potencial. Impôs-se dar o mesmo nome, mostrando a verdadeira Linda Martini.

Estiveram a gravar o disco na Catalunha em outubro e novembro, uma altura de grande tensão política na região. Foi o referendo, manifestações na rua, declaração unilateral de independência…

CG – Estivemos em dois países, Espanha e Catalunha.

HM – Na verdade, nunca estivemos mesmo em Barcelona. Estivemos um bocado à margem dos tumultos. Mas estivemos perto de Girona - o [Carles] Puigdemont é de Girona -, por isso acabámos por estar num dos bastiões da Catalunha.

AH – Estivemos sempre afastados das manifestações. Isso acompanhávamos pelas televisões. Falávamos com pessoas próxima e elas partilhavam connosco as ansiedades e inquietações do momento presente. No dia a dia, era mais por conversa do que propriamente por vermos grande reboliço na rua. Víamos as bandeiras, mas onde estávamos não sentimos manifestações na rua.

Pedrógão Grande aconteceu, a Catalunha ardeu do ponto de vista social. Essas coisas acontecem, mas a vida de toda a gente vai continuar de uma forma ou outraNão sentiram necessidade de estar lá? Eventualmente deixar que o ambiente vos influenciasse artisticamente?

PG – Havia ali um fervor, e isso para quem está a gravar um disco pode ser útil. Agora, se os sítios nos inspiraram? Não diretamente. Pode ter tido algum impacto, quando o André foi gritar o ‘Gravidade’, por exemplo [risos], ou quando estávamos a tocar. Mas não sei.

AH – Se pensares que tocar música é passar uma emoção a alguém, obviamente que o teu estado de espírito vai influenciar na execução. Agora ter influenciado diretamente uma letra ou qualquer parte instrumental… acho que não. Até porque nós – este álbum não foi exceção -, quando vamos para estúdio, a ideia do disco já está muito fechada.

HM – Houve a dada altura uma intenção de se cantar qualquer coisa de poesia catalã, mas só porque estávamos na Catalunha, não porque quiséssemos hastear uma bandeira.

Mas simpatizaram com o movimento que ali se criou?

HM – É muito complexo. Fui acompanhando a imprensa em Portugal e, honestamente, houve muita coisa que falhou, muita coisa que não foi explicada. Passa um bocado a ideia que aquilo foi uma manobra da Esquerda extremista catalã, quando o Puigdemont até é de um partido de Direita. Muito pouco passou de forma muito clara. Temos as nossas opiniões, os nossos amigos catalães, e teremos as nossas afinidades, mas é um assunto demasiado complexo para podermos afirmar taxativamente que somos pró-isto ou pró-aquilo.

AH – Apesar de termos estado lá, é muito difícil ser juiz nesta causa específica, porque há uma herança cultural histórica que aquelas pessoas sentem, que por muito que te identifiques, não a podes sentir.

O novo disco também tem letras com conotação política e social relativamente a Portugal. O ‘Cor ‘de Osso’ talvez seja o melhor exemplo. “A televisão diz que o país ardeu / Mas o PIB sobe a aponta ao Céu”. Sentiram que a tragédia dos incêndios em Portugal tinha de ficar registada no álbum?

AH – Acho que o ponto de partida não foi esse. Essa música começou pela ideia da “camisa branca”, do “avental”. Isso surgiu-me porque na rua onde moro tenho três ou quatro restaurantes de seguida e encontro os funcionários a comerem fora de horas, só depois de servirem todos os outros. Essa música é quase uma tentativa de me meter na pele de uma personagem, neste caso de um empregado de mesa. É um bocado a temática do ‘Toda a Gente’ dos Da Weasel, a ideia de que as tragédias acontecem. Pedrógão Grande aconteceu, a Catalunha ardeu do ponto de vista social. Essas coisas acontecem mas, no dia a dia, a vida de toda a gente vai continuar de uma forma ou outra. A ideia da música foi por aí, não há uma agenda, uma ideia deliberada de conotar isto com uma questão social ou com a atualidade. Elas acabam por se infiltrar, porque tudo nos influencia.

Tocar e percorrer o país é um dos objetivos principais e continuamos a ter isso muito forteJá têm 15 anos de banda. A vontade de criar, de correr o país para dar concertos, ainda é a mesma de sempre?

HM – Não há nada que nos deixe mais felizes do que tocar em todo o lado. Óbvio que não se faz um disco só com esse intuito, mas, claramente, tocar e percorrer o país é um dos objetivos principais e continuamos a ter isso muito forte.

PG – Na verdade, todos fazemos com a banda aquilo que sonhávamos quando éramos putos. Tocamos desde bastante cedo, tivemos o privilégio de dar concertos por causa da cena Punk/Hardcore, mas pensar que agora somos adultos e devíamos ter um trabalho sério e o nosso trabalho sério é tocar música… Há alturas em que podemos estar menos entusiasmados, mas não coincide estarmos todos esmorecidos na mesma altura, e isso acaba por ser positivo, porque vamos puxando uns pelos outros. Fazer música é aquilo que eu queria fazer e nunca projetava muito, porque sempre achei que só ia fazer música no intervalo das minhas responsabilidades. Fico muito contente que a minha responsabilidade seja fazer música.

Quais são as principais diferenças de quando tocavam para um público com 50 pessoas numa sala pequena e quando tocam para um Coliseu praticamente esgotado?

CG – Longe da bazófia, as únicas vezes que tocámos para 50 pessoas – e não foram 50, foram 60 – foram dois concertos, Sines e o primeiro de todos, no Hard Club antigo. De resto, felizmente, tivemos sempre mais de 100 pessoas [risos].

HM – Tivemos sorte desde o início. Não sabemos muito bem porquê nem como, mas foi acontecendo. Costumamos dizer que nunca houve um pico na nossa carreira e que a banda, de repente, rebentou. Foi sendo gradual…

AH – … se bem que no Coliseu foi uma noite que recordaremos para sempre. Para já, porque foi uma coisa que nunca esteve nos nossos planos, que puséssemos como objetivo. Aceitámos o desafio, que partiu da editora, e quando chegas à noite e espreitas pela cortina… Caem-te ali umas quantas fichas de repente. Foi uma noite surreal. Já tocámos para muita gente, e já tocámos em festivais para muita gente, mas tocar em nome próprio numa sala enorme em que as pessoas pagam bilhete só para te ver foi muito especial. Mas o maior número de pessoas na assistência não significa que o concerto será melhor para ti ou para a pessoa que está a assistir, tudo depende de uma energia recíproca.

CG – A diferença é que agora também temos os concertos grandes, porque os pequenos continuamos sempre a ter.

PG – Se fosse nos anos de 1990, podíamos pensar em fazer concertos de estádio [risos]. Somos uma banda que gosta muito de tocar em espaços pequenos e nos próprios auditórios. Os dois mundos têm vantagens e desvantagens.

Preciso de fazer isto, é um escape criativo para lidar com o que me rodeia e canalizar o que os quatro vamos pensando para um objeto.vais para outroQuando olham para o público, veem mais pessoas que vos acompanham desde o início ou é sobretudo malta mais nova?

HM – Nas primeiras filas, está malta da mesma idade, por mais anos que passem. Quem gosta de ficar à frente é o pessoal mais novo, que quer viver aquela experiência toda em primeira mão. O público tem-se renovado. À frente continua a estar gente com uma idade muito parecida de ano para ano, o que faz com que para trás estejam as pessoas mais velhas, e, sim, vamos reconhecendo muitas delas, que no início estavam à frente e que, conforme vão envelhecendo, vão-se chegando para trás.

Notícias ao MinutoEm 15 anos de banda, os Linda Martini já lançaram cinco álbuns de originais© Ângelo Lourenço

É mais fácil fazer música hoje do que há uns anos? O consumo de música é mais acessível, mas também mais voraz e descartável.

CG – Acho que é mais fácil fazer porque é mais fácil comprar instrumentos. Consegues registar como antes não registavas, já para não falar dos computadores, dos meios para gravar. É muito mais fácil fazer música e, por um lado, também é mais fácil chegar às pessoas. Mas também é mais difícil pores gente a ouvir-te, porque as pessoas estão muito mais dispersas.

PG – É um bocado voraz, como estás a dizer. Há muita informação, muitas bandas, muita música, e depois há uma mentalidade das pessoas de quererem ouvir tudo e saber tudo e, como esse tudo existe e está disponível, acabam por tentar absorver toda a realidade e toda a informação, mas de uma forma muito superficial. Isso não é só responsabilidade das plataformas, uma coisa alimenta a outra. Lembro-me de quando ouvia música, antigamente, tinha três cds e depois tinha de ir pedir outros ao meu vizinho e outros ao meu primo. Era o que eu ouvia, ia trocando. Agora, como há tanta coisa, acho que as pessoas se perdem.

AH – Hoje em dia, o tempo de atenção para qualquer coisa é cada vez menor. Tens os feeds do Facebook a baterem-te à porta de cinco em cinco minutos, tens os comentários de não sei quê, o Instagram, as novidades todas das séries, dos filmes… a música é mais uma que sofre com esse crescimento. Perdeu-se a sedução dos discos, vais logo para a cama, ouves o single e vais para outro [risos].

Quais são os principais desafios que um músico ou uma banda enfrentam, nos dias de hoje, para serem relevantes?

CG – Para quem começa do zero, é difícil perceber o que se pode fazer para ser relevante. Acho que é fazerem aquilo que gostam e depois esperar pela sorte.

AH – A nossa experiência pessoal é que nos juntámos para fazer música, e, felizmente, passados 15 anos, continuamos a gostar. A premissa é essa, fazer música e a vontade de estarmos juntos. O propósito de fazermos música é um bocado para umbigo, é um exercício de egoísmo, porque preciso de fazer isto, quero fazer isto, independentemente se 20, 30 ou mil pessoas vão comprar ou ouvir o disco. Preciso de fazer isto, é um escape criativo para lidar com o que me rodeia e canalizar o que os quatro vamos pensando para um objeto.

PG – No nosso caso, nunca tivemos grandes pretensões. Tudo o que foi acontecendo foi uma surpresa agradável.

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