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'Zona de Impacto'. Jornalista António Mateus escreve livro sobre Ucrânia

O jornalista português António Mateus disse hoje que o livro 'Zona de Impacto', lançado na quarta-feira, conta o lado invisível do jornalismo de guerra, neste caso a que ocorre com a invasão russa da Ucrânia, "despindo a indiferença" do jornalismo.

'Zona de Impacto'. Jornalista António Mateus escreve livro sobre Ucrânia
Notícias ao Minuto

23:08 - 01/12/23 por Lusa

Cultura Ucrânia

Em declarações à agência Lusa, António Mateus, jornalista há 40 anos e que, desde o início da guerra na Ucrânia, percorreu ao longo de 100 dias mais de 40.000 quilómetros, grande parte na "linha da frente" ao longo das quatro "ondas" de reportagem que efetuou, defendeu que, numa situação de guerra, "ambos os lados subvertem o cenário dos locais do impacto, seja em que conflito for".

"Este livro despe a indiferença. Como o faz quando, num dos capítulos, um ucraniano, antigo emigrante em Portugal, é capturado em Kherson e torturado com choques elétricos, por militares russos, a quem fora denunciado por falar português e receber transferências financeiras de Portugal, tornando-o, por isso, suspeito de ali ser agente da NATO [Organização do Tratado do Atlântico Norte]", explicita.

Com o livro, o oitavo, o jornalista conta as vivências tidas no terreno em abril de 2022, mês e meio após o início do conflito, em julho e outubro do mesmo ano e em janeiro de 2023, tendo como pano de fundo a "angariação de factos", a que não é alheio a sua formação em jornalismo de agência.

"A minha raiz é de agência. Puramente factual. Enquanto jornalista não opino. Quando me perguntam o que acho, respondo que não acho nada. Reservo isso para mim. Opto antes por ir o mais longe possível na angariação de factos. Pratico a dúvida metódica. Num cenário de guerra todas as partes mentem até prova em contrário. E é dessa prova que eu vou à procura. Enquanto repórter relato o que testemunho ou apuro, direta e pessoalmente, e nunca o 'diz-que-diz'", sustentou.

"Quero saber, por exemplo, se os civis são vítimas colaterais, intencionais ou por negligência. Se são usados como escudos humanos, tais como hospitais e escolas. E a única forma de o saber é estando dentro das 'zonas vermelhas' durante os ataques ou imediatamente após. Antes que haja a tal adulteração. Este livro conta como é possível lá estar ou chegar em tempo útil. Correndo por isso riscos naturalmente acrescidos mas é a única forma de poder falar com conhecimento de causa, do que na realidade ocorreu ou ainda ocorre nesses locais", sublinhou.

Negando que o jornalismo de guerra não se compadece com humanismos, António Mateus, jornalista da RTP, admitiu que, como profissional de comunicação social há mais de quatro décadas, acordou, durante as primeiras guerras que cobriu, como as de Angola, Moçambique e dos Grandes Lagos, "muitas vezes com lágrimas pelas barbaridades testemunhadas, particularmente sobre crianças". 

"Depois aprendi a apagar esses demónios, humanizando o foco das minhas reportagens. Elevando os mais frágeis. Deixando os politicamente corretos para quem neles acredita. [...] É um tipo de jornalismo proximal que requer também uma preparação específica na área militar e conhecimentos de técnicas de sobrevivência muito sólidos. Só assim é possível mantermo-nos depois focados também emocionalmente. Tanto pela isenção que nos é exigível como para nossa própria segurança. A instabilidade emocional em cenários de guerra multiplica o perigo, reduz a lucidez na contenção de riscos", explicou.

Editado pelo Clube do Autor, 'Zona de Impacto', com 230 páginas, em que surgem mais de três dezenas e meia de fotografias e um mapa dos locais do conflito, conta "históricas verídicas de determinação e de esperança".

Autor de vários livros sobre Nelson Mandela -- foi delegado da agência Lusa na África do Sul, Angola e Moçambique, apresentou e coordenou durante seis anos o programa da RTP 'Olhar o Mundo', tendo vencido também vários prémios de reportagem e recebido uma menção honrosa do Prémio Direitos Humanos atribuído pela UNESCO. 

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