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Casal conserva "escrinhos" de Vimioso com novas peças de palha e silva

A aldeia de Vilar Seco, em Vimioso, guarda uma arte única no Nordeste Transmontano de transformar palha e silvas em cestos, que um casal de reformados teima em manter, acrescentando aos tradicionais "escrinhos" novas peças de artesanato.

Casal conserva "escrinhos" de Vimioso com novas peças de palha e silva
Notícias ao Minuto

13:00 - 04/07/18 por Lusa

Cultura Vilar Seco

Rosa e Aníbal Delgado são agora os guardiões desta tradição dos cestos que antigamente toda a gente na aldeia usava para guardar sementes e farinha e que muitos sabiam fazer, mas a pouco e pouco desapareceram os "escrinheiros" e quase que ficavam apenas os antigos exemplares para recordação.

Há 12 anos, Aníbal candidatou-se à junta de freguesia e prometeu "que isto não ia parar", mas quase ficou pela promessa porque "havia uns cursos e ninguém quis aprender". Apenas a mulher, por teimosia do marido, aprendeu, e agora é Rosa que representa esta arte pelo país.

Os tradicionais cestos já pouco se vendem e começaram a construir outras peças, mais para adorno, como bases para panelas, fruteiras e até crucifixos.

"Dá muito trabalho, não dá lucro", atira Aníbal, que a Lusa encontrou no Parque Ibérico de Natureza e Aventura (PINTA) de Vimioso, junto com a mulher, numa oficina em que estavam a ensinar a arte a dois jovens.

Aníbal não sabe explicar a razão do uso da palha e silvas para a confeção destes cestos que, garantiu, duram "centenas de anos". "Se não apanharem humidade, não têm fim", assegurou.

É ele quem vai apanhar as silvas no inverno para guardar e serem trabalhadas durante todo o ano. Paus grandes, "o mais compridos possível", que "não podem ter rebentos, senão partem".

Aos paus das silvas, como explicou, tira os picos, racha-os em quatro com uma navalha, que é também usada para tirar a medula. Fica apenas a casca. Com ela faz-se um novelo que vai a uma caldeira com água a ferver para ficar mais maleável e poder ser trabalhado.

A palha é natural, das cegadas do centeio, e fica do verão para o resto do ano, tendo só que "ser molhada para ser mais fácil de trabalhar".

Rosa transforma depois as silvas e a palha nos "escrinhos", que já se vendem pouco. Agora a procura é por outras peças feitas no mesmo material.

Uma peça pode custar 50 euros, "mas demora muito tempo" e exige muito esforço. "É preciso puxar muito", diz Rosa, que já ganhou uma tendinite.

"É para não perder a tradição que é nossa, ninguém quer aprender porque isto dá muito trabalho", insiste.

Rosa gosta de "ensinar e de ver as peças" porque cada vez faz uma diferente e as que lhe dão mais gosto são as cestas.

Rosa e Aníbal são "mestres" no projeto "Aldeias Pedagógicas" que põe os mais velhos a mostrar as artes típicas de antigamente, como os "escrinhos".

Participam também em feiras e oficinas como a que decorreu no PINTA e que chamou de Bragança o jovem veterinário João Rodrigues.

João viveu alguns anos em Vilar Seco e tem interesse "por estas técnicas tradicionais", pelo que aproveitou a oportunidade para "matar uma curiosidade antiga".

Enquanto passa a casca das silvas em volta da palha sob a orientação de Rosa, o aprendiz vai dizendo que acredita que agora "mais do que nunca nas novas gerações, nestas zonas mais rurais, há cada vez mais interesse" nestas atividades.

"Aquela imagem negativa que as pessoas tinham das questões do campo e de trabalhar no campo, eu acho que isso já passou. Saltaram-se uma ou duas gerações, que eram as que de facto não queriam trabalhar no campo, e hoje parece que há cada vez mais interesse", considerou.

Para João, o que "agora é fundamental e que poderia eventualmente ser o próximo passo, é criar peças de "design", fugir um bocadinho a estes modelos tradicionais".

Aníbal atalha, garantindo que já foram desafiados a fazer candeeiros inspirados nos antigos "escrinhos".

No PINTA há uma máscara típica transmontana feita com os mesmos materiais.

A outra aprendiz, Ana Batista, está desempregada, e depois de ter vivido em Lisboa e da formação em Gestão de Empresas, regressou a Vimioso, onde tem a família.

Soube da oficina e achou "interessante manter as tradições e saber como é que se faz estas peças lindas".

O futuro poderá passar por aqui? "Não sei, não digo nunca", respondeu Ana.

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