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"Caso Rio Ave? Para os jogadores é quase uma sentença de morte"

O presidente do Sindicato dos Jogadores falou ao Desporto ao Minuto, numa conversa onde prometeu que o organismo terá "tolerância zero" a propósito do caso de resultados combinados.

"Caso Rio Ave? Para os jogadores é quase uma sentença de morte"
Notícias ao Minuto

09/01/18 por Carlos Pereira Fernandes

Desporto Joaquim Evangelista

Joaquim Evangelista considera que o “fenómeno dos resultados combinados”, que desencadeou uma investigação por parte da Polícia Judiciária, e culminou com quatro jogadores do Rio Ave a serem constituídos arguidos por prática de suspeitas de crime de corrupção na atividade desportiva, é, neste momento, o “maior flagelo” que afeta o futebol português.

Numa entrevista ao Desporto ao Minuto, o presidente do Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol (SJPF) assegura “total solidariedade e confiança” para com os envolvidos neste tipo de casos, mas também deixa um aviso: “Quem estiver associado a esta matéria, que fique claro que deve ser exemplarmente punido. Eventualmente, irradiado das competições”.

O dirigente sublinha, no entanto, que os “sinais” de alerta estão, há muito, bem visíveis. Desde a “falta de transparência” ao “incumprimento salarial”, aponta o dedo ao ‘rastilho’ que, neste momento, ‘incendeia’ o futebol nacional.

Neste momento, em Portugal, a situação é dramática

Como é que o Sindicato tem acompanhado a situação do Rio Ave?

O Sindicato não tem acompanhado a situação do Rio Ave em concreto. Tem acompanhado o fenómeno dos resultados combinados em geral. É um fenómeno à escala global, aquele que atinge, neste momento, mais gravemente os valores do desporto. Tem que ser atacado com responsabilidade, de forma ativa e conjunta. O Sindicato fez esse trabalho de casa. Há muito tempo que vem a alertar para os fatores de risco no futebol português e desenhou um programa que visa educar os jogadores e que foi adotado pela FPF e pela Liga.

Já entrou em contacto com os jogadores em causa?

Não somos indiferentes. Tive o cuidado de ligar ao presidente do clube e ao capitão de equipa, mostrei total solidariedade e confiança e disse que podem contar connosco para os apoiar. O caso do Rio Ave, pessoalmente, é um caso estranho. Não estava à espera. Tenho uma grande confiança naqueles jogadores, é um clube que cumpre com as regras laborais, nomeadamente relativas ao cumprimento salarial. Para já, aquilo que exijo é que seja respeitado o princípio de presunção de inocência e que a justiça seja célere e justa. Mas que fique clara a nossa posição, que é de tolerância zero relativamente a este fenómeno. Todos aqueles que estejam envolvidos devem ser exemplarmente punidos, sejam dirigentes, agentes, treinadores, árbitros ou jogadores.

O nome do Benfica também já foi associado a este caso. Teme que seja algo que tome ainda maiores proporções?

Não me interessam os casos em particular. Neste momento, o problema existe, é real e deve merecer preocupação. Se é o Rio Ave, o Benfica ou outro clube qualquer, não me interessa. Quem estiver associado a esta matéria, que fique claro que deve ser exemplarmente punido. Eventualmente irradiado das competições. O futebol não pode pactuar com este tipo de comportamentos. É o maior flagelo do futebol, coloca em causa valores fundamentais da comunidade. A sociedade não deve pactuar com isto.

Agora, há sinais. A mim, incomoda-me quando entra capital, quando há falta de transparência e há pessoas que andam à volta do futebol sem qualquer tipo de idoneidade. O capital estrangeiro chega sem qualquer tipo de escrutínio. Temos sinais em Portugal e toda a gente assobia para o lado. Esse sinais são evidentes, houve até a vinda repentina de vários jogadores de outras nacionalidades e isso não mereceu muita crítica. Todos esses sinais devem ser apurados e merecer reflexão por parte dos agentes desportivos. Temos que criar regras que regulem a atividade desse ponto de vista. Os TPO já foram proibidos, mas muitos clubes estão dependentes de terceiros para fazer a sua gestão desportiva. Muitas das vezes, não são os presidentes e muito menos os treinadores a fazer as equipas. Quando isto acontece, temos que estar alerta para perceber por que é que acontece. Pode ter a ver com este fenómeno. A maioria das vezes tem.

Que posição irá assumir o Sindicato neste caso?

Somos contra o fenómeno, mas, enquanto entidade representativa dos jogadores, nunca deixaremos de estar ao lado deles. Mesmo que algum jogador venha a ser condenado, não deixará de ter o apoio do Sindicato. É a nossa função natural, apoiar os jogadores mesmo nas situações mais difíceis. Para além disso, o que nos incomoda é que há alguns fatores de risco que identificámos que potenciam este fenómeno e que não tenham merecido, por parte dos agentes desportivos, o cuidado que deveria ter merecido.

Que sinais são esses?

O caso do incumprimento salarial, a questão da falência dos clubes, o licenciamento e o capital estrangeiro. Isso fragiliza o futebol português. Relativamente ao incumprimento salarial, já houve avanços, e muito devido à posição do Sindicato, mas o fenómeno ainda existe e é necessário, na defesa da integridade da competição, estar atento. Isso fragiliza muito os protagonistas. Quanto à falência dos clubes e o recurso aos PER's... Permitiu que o investimento estrangeiro entrasse mais facilmente em Portugal. Os clubes estavam de mão estendida. Não tendo capital, e face à ausência de regras de controlo do capital estrangeiro, é por estas vias que as entidades criminosas tomam conta do futebol.

É caso para que os adeptos do futebol nacional estarem preocupados?

Neste momento, em Portugal, a situação é dramática. O fenómeno existe e exige uma responsabilidade acrescida. Tenho falado num dever de cidadania desportiva ativa. Os agentes desportivos, quando se fala no fenómeno, são muito indiferentes. A maioria vê sinais e poderia fazer mais, mas não se está para chatear. Esse é o maior problema. Temos uma responsabilidade, é para isso que somos eleitos. Se não atuamos com coragem, obviamente que o fenómeno cresce e terá consequências mais negativas no futebol.

O Sindicato tem, então, um papel importante no combate a este fenómeno?

A responsabilidade do Sindicato é, enquanto instituição, fazer a defesa do desporto na ótica do jogador e do futebol. A minha responsabilidade é educativa, preventiva e política. Tenho que criar condições para erradicar este fenómeno ou para o minimizar. Aí, estou de consciência tranquila. O Sindicato é das instituições que mais tem feito. Recordo-me quando houve a vinda de capital chinês, em que os nossos dirigentes ficaram de olhos em bico, toda a gente ficou incomodada porque o presidente do Sindicato estava a pôr em causa os investidores estrangeiros. Se falo dos salários em atraso, estou a por em causa a imagem dos clubes e do futebol português; se falo do investimento estrangeiro nestas condições, estou a por em causa o investimento nos nossos clubes... Caramba, mas alguém tem que falar!

É uma atitude que tem faltado nos lugares de poder?

Andamos todos a apagar fogos e agora é impossível porque não se fez, no devido tempo, o que devia ser feito. Estamos em desvantagem porque eles estão muito mais preparados, têm muito dinheiro... Só para ter noção, os jogos combinados geram um retorno anual de um trilião de dólares a nível mundial. Estamos a falar de um negócio desta escala. Em países mais débeis é muito mais fácil chegar e manipular. Quem tem mais responsabilidades tem que dar a cara, não pode ficar em silêncio ou pactuar.

Notícias ao MinutoJoaquim Evangelista© Blas Manuel

O Marcelo, só com a suspeita, fica com um contrato comprometido

Como é que essa mensagem tem sido passada aos jogadores?

Nós temos atuado e procurado, através de várias ações, ajudar e sensibilizar os jogadores. Uma das coisas que lhes temos dito é que têm de escolher entre ser jogadores e apostadores. Não podem ser as duas coisas. Para já, do ponto de vista disciplinar e criminal, há sanções para quem aposta na modalidade em que está envolvido. Tivemos o exemplo do Marcelo, que, só com a suspeita, fica com um contrato comprometido. Isso também é injusto.

É uma mancha que pode acompanhar um jogador durante toda a carreira?

É difícil. Como é que se lida com isto? Temos que viver com esse anátema até a sentença transitar em julgado. O problema aqui é que estamos a falar de uma profissão de desgaste rápido e de curta duração, que se traduz por ser limitada no tempo. É também uma atividade muito mediática. Para os jogadores, é quase uma sentença de morte estar ligado a um fenómeno destes. Temos que encontrar soluções. Não tenho nenhuma resposta objetiva, mas tenho uma certeza: num estado de direito democrático, o jogador goza do princípio da presunção de inocência e a Justiça tem de garantir esse direito.

Que efeitos pode ter esta investigação no imediato?

Há um mérito nesta ação da PJ, que é o de criar um efeito dissuasor. Aquilo que noto é que o futebol não tem capacidade para o fazer. O que exijo, que é cidadania desportiva ativa, não existe, muito menos do ponto de vista disciplinar. Ainda bem que as autoridades o fazem, porque tem esse efeito dissuasor. Aqueles que estão eventualmente a fazê-lo, recuam. Não há nenhum jogador que esteja indiferente. Mesmo que venham a ser abordados, em função do mediatismo destes casos, pensarão duas vezes antes de o fazer.

À margem desta polémica, os casos de salários em atraso no Freamunde e no União da Madeira também têm dado pano para mangas ao Sindicato...

Felizmente, há menos casos. Em primeiro lugar, graças ao papel do Sindicato, que denuncia, dá a cara e tem a coragem de apontar o dedo na defesa dos jogadores, mas também da competição e dos competidores. Houve alterações regulamentares. Há muitas pessoas que não sabem, mas era suficiente a declaração dos jogadores a dizer que tinham recebido os salários, e muitas das vezes faziam-na porque eram coagidos. Já não é. É preciso que o Revisor Oficial de Contas certifique que os salários foram pagos. Há também a Comissão de Auditoria criada entre a Liga, o Sindicato e os treinadores. Neste momento, temos dois controlos na posição, um que vai de 31 de maio e 26 de dezembro, e outro que certifica os salários entre 27 de dezembro e 30 de março.

Mas os casos continuam a existir.

Pode haver casos pontuais, o clube atrasar-se e existir incumprimento, mas é residual. Nestes casos, também existem instrumentos que ajudam a minimizar este problema, como o fundo de garantia social. Os jogadores, como foi o caso do Freamunde e do União, podem fazer valer os seus direitos laborais e pôr termo ao contrato. É um tema cada vez mais pontual. O que desejo é que, por um lado, os protagonistas do futebol, sejam pagos atempadamente. É fundamental, é um direito básico. Mas também porque isso assegura que a verdade desportiva é assegurada e que os competidores estão em igualdade.

Por colocar a competição em causa, não deveria haver uma resposta mais forte da Liga e da FPF?

Tem havido. Sinto, da parte da Liga e da FPF, que repudiam estes comportamentos. O facto de ser aprovada regulamentação e medidas que visam atacar este problema, significa que estão preocupados. Quando ele [problema] existe, procuramos dar uma resposta regulamentar e financeira aos jogadores. O problema maior é as consequências que tem no plano pessoal dos trabalhadores. Aí, há uma resposta que a FPF e a Liga subscrevem. Podemos fazer melhor, mas o que foi feito já é muito positivo.

*Pode ler a primeira parte desta entrevista aqui.

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